Jason Henry / The New York Times
Jason Henry / The New York Times

Veneno de perereca pode ser bom para a saúde?

As elites do bem-estar do Oeste dos Estados Unidos acham que o kambô, uma droga venenosa extraída de sapos da Amazônia, está ajudando a eliminar “toxinas” de suas vidas

Alex Williams, The New York Times - Life/Style

27 de janeiro de 2021 | 05h00

"É como ter febre ou uma reação alérgica muito forte. Então, seu rosto começa a inchar", disse Julia Allison, de 39 anos, que atualmente é estrategista de mídia para empresas de tecnologia em São Francisco, ao se lembrar da primeira vez que tomou kambô, substância venenosa extraída de uma perereca amazônica que é vista por muitos adeptos de estratégias alternativas de bem-estar como um medicamento maravilhoso.

"O pessoal chama isso de 'cara de sapo'. É como se um cirurgião plástico das celebridades tivesse feito uma festa no seu rosto, como Kim Kardashian em um espelho de parque de diversões. E então, de repente, você começa a sentir náuseas terríveis; basicamente, passa de zero para a pior gripe da sua vida em 60 segundos", explicou.

O kambô, usado há muito tempo por algumas tribos indígenas na América do Sul como uma espécie de vacina da floresta, não é uma droga recreativa. Você não viaja como se estivesse em um lindo sonho delirante. Em vez disso, você só vomita.

Para quem toma kambô, o objetivo não é apenas se livrar das chamadas "toxinas" que ficam no corpo, mas também – de acordo com os defensores mais aguerridos – a superar traumas psicológicos e tirar a ziquizira.

A ideia é fazer você se sentir horrível primeiro para, depois, se sentir incrivelmente bem. Os defensores da substância a descrevem, essencialmente, como uma limpeza ultrapotente do corpo e da alma.

O kambô tem ganhado força entre o mesmo público que defendia o uso de ayahuasca, o chá alucinógeno da floresta, há uma década.

Mas os usuários devem saber de antemão: a transcendência custa caro. "Foi a pior experiência da minha vida. Não vejo a hora de passar por isso outra vez", disse Allison.

Vacina da floresta?

Tecnicamente, o kambô é uma secreção tóxica, parecida com uma cola, liberada pela perereca kambô – conhecida pelos herpetologistas como Phyllomedusa bicolor – quando se sente ameaçada.

Os caxinauás, os kurinas e os canamaris usam o kambô para tratar uma série de doenças, ganhar força e afastar o azar.

Para colher a substância, eles vasculham a floresta, orientados pelo canto particular da perereca kambô. Quando conseguem capturar uma, costumam amarrá-la pelas pernas e pendurá-la próxima ao fogo para induzir o estresse. Então, passam na pele uma série de pauzinhos que funcionam como agulhas hipodérmicas para aplicar o medicamento, de acordo com um artigo publicado em 2018 por Jan Keppel Hesselink, professor de Farmacologia Molecular na Universidade de Witten/Herdecke, na Alemanha.

Seja na floresta amazônica ou em um bangalô na Califórnia, a aplicação do kambô é sempre parecida: os praticantes usam uma pequena brasa para queimar o ombro, o calcanhar ou outras partes de corpo. Depois de tirar as bolhas que tenham se formado, eles aplicam um pedaço de madeira embebido em kambô nas áreas machucadas.

Na costa oeste dos EUA, as cerimônias de kambô frequentemente são marcadas por rituais neoxamânicos. Na cerimônia que Allison acompanhou, em Berkeley, na Califórnia, em fevereiro de 2020, os participantes pagaram cerca de US$ 150 e foram orientados a seguir uma dieta estrita livre de açúcar, álcool, medicamentos, carne, glúten e derivados de leite por três dias antes de se sentarem em almofadas no chão do local, usando roupas largas ao lado de um altar coberto de santinhos, cristais e sálvia, e ouvindo música de meditação.

Uma curandeira de voz suave vinda de Los Angeles, chamada Aluna Lua, começou a cerimônia aplicando rapé nas narinas dos participantes. Allison comparou esse momento a quando "você toma um choque gostoso".

Em seguida, ela aplicou uma gota de sananga – extrato de uma planta amazônica – nos olhos. ("Parece que você ateou fogo na córnea, basicamente. É uma coisa de hippies masoquistas", resumiu Allison.)

Então, chegou a hora do kambô. A série de efeitos adversos – elevação do pulso e da frequência cardíaca, inchaço do rosto, náusea e diarreia – geralmente chega em poucos minutos.

"A teoria é que o kambô basicamente coloca o corpo em um estado similar ao da febre, aquele estado febril em que ficamos quando estamos doentes e que nos ajuda a combater infecções", disse David Rabin, psiquiatra e neurocientista em Monterey, na Califórnia.

No ponto mais alto (ou seria o mais baixo?), os participantes vomitam explosivamente em baldes de plástico por 15 a 40 minutos, ou precisam correr para o banheiro com o intestino em desarranjo. Depois que a pior parte passa, eles olham para dentro do balde e analisam a cor do vômito para avaliar a eficácia do tratamento.

"Na minha última sessão, liberei muita bile amarelada e grudenta, em vez de uma bile líquida e clara, e meu estômago sofreu muito. Vi muita gente ficar branca como a neve durante a cerimônia", contou Jena la Flamme, de 42 anos, coach de empoderamento sexual em Mill Valley, Califórnia, que já usou kambô diversas vezes.

Emily Collins, de 33 anos, gerente de operações de uma empresa de robótica em São Francisco, lembra-se "da forte sensação de que eu não queria estar lá, nem fazendo aquela coisa", durante seu primeiro tratamento com kambô, há dois anos: "Foram 15 minutos que se pareceram com horas."

Mas e depois? "Eu me senti praticando a medicina dos guerreiros. Acho que o kambô é uma dessas coisas que nos dão o superpoder da imunidade. Você se sente invencível depois de tomar", disse la Flamme, que credita ao kambô o expurgo da raiva que ela havia internalizado depois do divórcio.

Collins se lembra de ter ficado desconfiada quando ouviu falar do kambô pela primeira vez. "Inicialmente, meu cérebro científico achou que isso era bobagem de hippies", comentou. Porém, cansada de uma enxaqueca que não passava com tratamentos convencionais, ela procurou um "sapeiro" chamado Steve Dumain em San Pablo, na Califórnia, há dois anos. O tratamento com o kambô a ajudou: "Eu tinha até três enxaquecas por mês quando tomei o kambô. Depois disso, passei a ter menos de uma por mês."

Leia os avisos

Existe alguma pesquisa acadêmica do kambô. Nos anos 1980, o químico e farmacologista italiano Vittorio Ersparmer, conhecido por sua pesquisa da serotonina, foi um dos cientistas que identificaram "um coquetel complexo de peptídeos biologicamente ativos com atividades antimicrobianas, hormonais e neurológicas" em pererecas do gênero Phyllomedusa, de acordo com uma análise acadêmica do potencial médico desses anfíbios feita por professores universitários brasileiros em 2010.

Especialistas em saúde sugerem muito cuidado com o uso da substância e frisam que ainda faltam estudos mais rigorosos.

"Muitos medicamentos são derivados de produtos naturais, especialmente em lugares como a Amazônia. Mas, neste momento, não acredito que as pesquisas farmacológicas e especialmente as de segurança e de eficácia potencial estejam próximas do mínimo necessário para que se possa defender o uso do kambô em seres humanos", declarou Adam Perlman, diretor de medicina integrativa e saúde na Clínica Mayo, na Flórida.

Até mesmo Rabin, defensor aguerrido das terapias com substâncias psicodélicas, incluindo MDMA e cetamina, pede cautela: "Eu soube de muitas experiências positivas, mas são todas anedóticas. Acho que existem muitos indícios de que as pessoas podem se beneficiar significativamente com isso, o que certamente é interessante. Ainda assim, é algo que eu jamais recomendaria como tratamento inicial, principalmente porque ainda não sabemos o bastante sobre a substância e é difícil encontrar fornecedores confiáveis treinados para o uso correto do kambô."

"Como médicos, nosso objetivo é nunca causar danos", acrescentou. É por isso que ele prefere substâncias como a cetamina, que traz menos riscos à saúde, "em comparação com algo como o kambô, que pode ferir ou mesmo matar se não for usado com muito cuidado".

A revisão da literatura médica feita por Hesselink revelou diversos casos em que o kambô levou a hospitalizações e mesmo a mortes, embora alguns casos possam ter sido causados pelo uso de espécies erradas de perereca, pelo consumo excessivo de água ou pela presença de problemas cardíacos anteriores.

Contudo, esses alertas não impediram os influenciadores de elogiar os poderes da rã. "No ano passado, nenhum paciente meu tinha ouvido falar do kambô. Agora, eu diria que entre 20 e 30 por cento dos novos pacientes conhecem a substância, e muitos dizem que vão usá-la no próximo fim de semana", contou Rabin.

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