Adriana Loureiro Fernandez para o The New York Times
Adriana Loureiro Fernandez para o The New York Times

Para sobreviver, Venezuela cede o controle do petróleo

Sanções impostas pelos EUA produziram a perda de um terço da produção de petróleo, que registrou seu menor nível desde a década de 1940, de acordo com dados da Opep

Anatoly Kurmanaev e Clifford Krauss, The New York Times

18 de fevereiro de 2020 | 06h00

CARACAS, VENEZUELA - Depois de décadas no comando do seu setor petrolífero, o governo venezuelano vem cedendo o controle da sua indústria para companhias estrangeiras, numa aposta desesperada para dar fôlego à economia e se manter no poder. Trata-se de uma reviravolta, da parte da Venezuela, pondo fim a décadas domínio estatal sobre suas reservas de petróleo, as maiores do mundo.

O poder e a legitimidade do governo sempre repousaram na sua capacidade de controlar seus campos petrolíferos - espinha dorsal da economia do país - e usar seus lucros em benefício da população. Mas o líder autoritário do país, Nicolás Maduro, na sua luta para manter o controle do país no sétimo ano de uma crise econômica devastadora, vem renunciando às políticas que antes eram fundamentais para sua revolução socialista.

De acordo com a lei venezuelana, a estatal de petróleo é a maior acionista em todos os grandes projetos petrolíferos. Mas como a Petroleos de Venezuela, ou PDVSA, vem se desintegrando sob o peso das sanções americanas, anos de má administração e corrupção, o trabalho tem ficado a cargo de seus parceiros estrangeiros.

Empresas privadas vêm extraindo o petróleo bruto, promovendo as exportações, pagando os funcionários, comprando equipamentos e até mesmo contratando equipes de segurança para proteger suas operações no interior do país hoje em situação de ruína, de acordo com administradores e consultores do setor de petróleo que trabalham nos projetos energéticos no país. Na realidade, é uma privatização oculta que vem ocorrendo, disse Rafael Ramírez, que dirigiu o setor por mais de uma década antes de romper com Nicolás Maduro, em 2017.

“Hoje, a PDVSA não controla nosso setor de petróleo, os venezuelanos não o conseguem. Em meio ao caos gerado pela pior crise econômica que o país já atravessou em sua história, Maduro tem adotando medidas, cedendo, transferindo e entregando as operações para o capital privado”, disse Ramírez.

Graças a essas mudanças, o setor petrolífero vem sendo reconstruído num país cujas políticas energéticas desde a década de 1950 foram exemplo para países em desenvolvimento de como controlar os recursos naturais. E são também um recuo drástico da visão de Hugo Chávez, mentor e predecessor de Maduro. Chávez nacionalizou a gigantesca holding da Exxon Mobil e ConocoPhillips e colocou na administração da empresa seus aliados políticos devotados à revolução bolivariana de inspiração socialista.

Mas a transformação do setor petrolífero venezuelano empreendida por Maduro estancou o colapso provocado pelo embargo americano. As sanções impostas em janeiro do ano passado produziram a perda de um terço da produção de petróleo, que registrou seu menor nível desde a década de 1940, de acordo com dados da Opep - Organização dos Países Exportadores de Petróleo. No final de 2019, a Venezuela estava com suas exportações estabilizadas em cerca de um milhão de barris por dia, de acordo com dados coletados pela Bloomberg.

As privatizações parciais verificadas no ano passado foram conduzidas por Manuel Quevedo, general da Guarda Nacional. Quevedo entregou o controle operacional de projetos petrolíferos conjuntos para parceiros, entres eles a Chevron, a Rosneff, estatal de petróleo russa, algumas empresas europeias e chinesas e grupos de magnatas venezuelanos.

Até o início da crise econômica em 2013, a companhia era fonte praticamente de toda moeda forte do país e sua maior empregadora. Hoje, os campos de propriedade da PDVSA representam menos da metade da produção remanescente do país, que continuou despencando. A Chevron se tornou a maior produtora estrangeira de petróleo na Venezuela e uma parte crucial da estabilização do país nos últimos meses.

Em janeiro, um grupo de parlamentares reunido na Assembleia Nacional sob a liderança de Maduro,  em meio ao clamor internacional - propôs mudanças nas leis sobre energia de modo a permitir um maior investimento privado. “Nestes tempos de declínio da produção, temos de dar espaço a uma proposta nacional que, em primeiro lugar, dará ao capital privado maior participação na exploração, produção e comercialização do petróleo”, afirmou o deputado Leandro Dominguez. Há muitas razões para acreditar que os melhores dias da Venezuela como superpotência petrolífera acabaram”, afirmam especialistas.

Numa época em que muitas empresas de petróleo vêm se debatendo, os executivos buscam fontes mais limpas e mais baratas de petróleo. Mesmo se, no final, um acordo político for alcançado, com a suspensão das sanções, o petróleo sujo da Venezuela, carregado de enxofre e outras impurezas deverá encontrar poucos investidores. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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