Merdith Kohut para The New York Times
Merdith Kohut para The New York Times

Venezuela está à beira de um colapso econômico

Especialistas alertam que as sanções impedem que o governo importe itens imprescindíveis para o funcionamento do país

Anatoly Kurmanaev e María Ramírez, The New York Times

04 de abril de 2019 | 06h00

PUERTO ORDAZ, VENEZUELA - O presidente Nicolás Maduro da Venezuela dirigiu ele mesmo um carro até uma metalúrgica prestes a parar, no mês passado, e gabou-se de sua capacidade de exportação. "Ninguém vai nos deter", declarou no Complexo Guayana Steel. "Estes são dias de vitória!".

Dois dias mais tarde, a fábrica estava parada, paralisada pelo desastroso apagão nacional que durou quase cinco dias e acabou com o pouco que restava da indústria pesada da Venezuela. O apagão, juntamente com as novas sanções americanas ao setor perolífero venezuelano, deixaram o país ainda mais perto de um colapso econômico total.

Os cidadãos venezuelanos em melhores condições usam suas economias em dólares para comprar geradores portáteis, alimentos enlatados importados e abrigar-se em hotéis e em churrascarias. Para muitos, entretanto, o único paliativo contra as crescentes dificuldades é a esperança de que as condições de vida cada vez mais desastrosas acabem derrubando Maduro.

O apagão acabou com cerca de US$ 1 bilhão do Produto Interno Bruto da Venezuela, segundo o banco de investimentos Torino Capital. Em sua esteira, mais de 500 lojas foram saqueadas, pelo menos 40 pacientes de hospitais morreram e no mínimo seis fábricas foram fechadas.

Além disso, o apagão se seguiu à proibição que os Estados Unidos impuseram em janeiro às companhias da comprar o petróleo da Venezuela, o que só agravou a situação após anos de má administração e corrupção sob Maduro e seu antecessor, Hugo Chávez. "As sanções tornam praticamente impossível para o governo comprar e importar itens imprescindíveis para o país funcionar", afirmou Francisco Rodríguez, o principal economista do Torino Capital.

Alguns venezuelanos afirmam que estão preparados para o colapso das condições de vida já intoleráveis, caso Maduro sobreviva.

"A crise vai piorar", previu a aposentada Maria Altagracia Perozo, que vive na capital, Caracas. "Disseram para a gente procurar velas, fósforos e querosene porque não haverá luz".

Diante da redução cada vez maior das receitas do petróleo e do êxodo dos técnicos, Maduro luta para restabelecer os serviços básicos desde o apagão de 7 de março. O abastecimento de água é intermitente na maioria das cidades, e um incêndio em uma subestação de eletricidade provocou mais um apagão.

Sanções

Menos de 50% dos venezuelanos disseram que são contra as sanções que o presidente Donald J. Trump, impôs à indústria petrolífera, segundo pesquisa da principal companhia de sondagens de opinião, a Datanalisis, do início de março.

"Se eu tiver de sacrificar um mês para viver sem eletricidade ou água, vou fazer isso porque sei que é a única maneira de melhorar este país", disse Valdemar Álvarez, analista de laboratório da siderúrgica Sidor, em Puerto Ordaz, contrário a Maduro.

A economia da Venezuela deverá perder mais de 25% de seu volume este ano, segundo Rodríguez. A inflação está perto da marca de 51 milhões por cento até o fim do ano, de acordo com a Torino Capital. A produção de petróleo bruto da Venezuela, usado para garantir mais de 90% das moedas fortes do país, caiu 13% em fevereiro, o declínio mais acentuado em dez anos, afirma a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

Foi o primeiro mês desde que o Tesouro dos Estados Unidos proibiu as companhias americanas de fazer negócios com a produtora nacional de petróleo, Petróleos de Venezuela SA, Pdvsa.

As sanções aceleraram o ciclo econômico vicioso do país, onde o declínio das exportações de petróleo deixou Maduro com menos recursos para investir nos serviços básicos, degradando ainda mais a produção petrolífera.

"É como trabalhar em estado de coma", disse Rona Figueredo, líder sindical de uma metalúrgica em Puerto Ordaz, quefechousua última linha de produção durante o apagão. Pelo menos dez metalúrgicas estatais cessaram de operar depois do apagão. 

Foi "o último prego na tampa do caixão" para as indústrias que operavam com um dígito de sua capacidade, depois de anos de má administração, comentou Damian Prat, ativista sindical veterano e autor de um livro sobre a indústria pesada venezuelana. "Sem essas indústrias, não pode haver recuperação econômica para a Venezuela", disse Prat. / Isayen Herrera contribuiu para a reportagem.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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