The New York Times
The New York Times

Venezuelanos desafiam a crise para perseguir os próprios sonhos

Comida e remédios estão escassos, mas não a criatividade

The New York Times, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2018 | 10h15

CARACAS, VENEZUELA - Nos últimos quatro anos, a Venezuela se tornou praticamente sinônimo de crise. Imagens da nação mostram rostos murchos, filas para a compra de alimentos subsidiados, hospitais sem remédios e tumultos.

Milhares de jovens venezuelanos partiram em busca de lugares com uma economia mais forte e maiores oportunidades, como Lima, Nova York, Bogotá, Barcelona. Muitos dos que permanecem estão presos aqui por causa de limitações financeiras e de obrigações familiares. Outros, ainda, optaram por aperfeiçoar suas habilidades em Caracas.

Juan Carlos Ramos abriu sua marca de roupa, Era, em 2016. Depois daquele primeiro ano, os protestos explodiram em toda Caracas, e a Era esteve mal. No início de 2018, ele recuperou a sua marca de camisetas estampadas e jaquetas pintadas à mão, decoradas com nomes e citações escritas em inglês, frequentemente ao gosto da cultura tropical urbana da capital: uma jaqueta de jeans diz “A vingança é uma justiça bárbara”, em outra estampa está escrito “Venezuela, país intenso”.

Ramos consegue ganhar mais vendendo aos consumidores pelo Instagram do que com um salário de operário na maioria dos ouros setores. “O sonho seria ir para algum lugar e ganhar dinheiro suficiente para voltar aqui e poder levar uma vida boa, mas é tudo muito complicado neste momento”, ele disse.

Ana Cartaya, 21, sua namorada, tem várias atividades - estuda moda, dança, é modelo e faz tatuagens artísticas - mas ainda não decidiu a qual irá se dedicar totalmente. Sua equipe de bailarinos parou de ensaiar, mas ela continua ocupada como modelo, fazendo tatuagens e estudando. Sente-se prejudicada pela falta de oportunidades.

“Tenho a impressão de estar sempre em busca de algo que não posso alcançar”, afirmou. “Sinto como se estivesse numa prisão. Há muito tenho esta sensação de que nunca poderei alcançar nada do que poderia ter conseguido se eu tivesse ido embora há mais tempo”.

Em outra parte de Caracas, as pessoas dançavam em baixo de luzes multicoloridas penduradas nas árvores perto de uma casa. “Acho que há mais necessidade de festas do que nunca”, observou Maria Betania Chacin, que trabalha com o nome de D.J. Mabe. “As pessoas precisam descarregar toda a sua tensão”.

Em uma academia, Carolina Jimenez, campeã de artes marciais mistas, e Luis Itanare, seu namorado, lutavam durante um treino de ju-jitsu brasileiro. No ano passado, ela ganhou uma importante disputa na Noite de Luta Livre Feminina na Polônia, uma competição no circuito de artes marciais mistas para mulheres, depois de uma campanha de contribuições que lhe permitiu arrecadar dinheiro para cobrir os gastos da viagem.

Ela tinha um empresário, mas os próximos passos de sua carreira são incertos. Treina duas vezes ao dia e tenta seguir uma dieta rica em proteínas em um país em que o povo está vivendo cada vez mais de mandioca e macarrão, porque o preço da carne é proibitivo.

“Muita gente precisa se preocupar mais em tentar sobreviver do que como criar”, disse Yarua Camagni, uma bailarina da Fundación Compañia Nacional de la Danza, que suplementa a sua renda com aulas de dança, Pilates e ioga.

“Os que ficam, continuam lutando por amor à profissão. Sim, é difícil, mas é possível continuar dançando na Venezuela”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.