Alessandro Bianchi/Reuters
Alessandro Bianchi/Reuters
Roy Furchgott, The New York Times

15 de fevereiro de 2019 | 06h00

Todos os anos, a firma J.D.Power destaca os modelos de automóveis que retêm a maior parte do seu valor três anos após o lançamento. Mas o veículo cujo desempenho supera o de todos eles nunca é incluído nessa lista.

Tal vencedor pareceria uma escolha improvável. Sua aparência mudou pouco nos 72 anos passados desde a sua estreia. Praticamente não há espaço para bagagem, e o modelo mais simples conta apenas com 3,2 cavalos de potência, alcançando uma velocidade máxima de 65 quilômetros por hora.

Mas o que impede a inclusão do modelo na lista é o fato de se tratar de uma lambreta. Mais especificamente, uma Vespa. Em todas as 24 categorias de veículos consideradas para o prêmio Resale Value Awards, a desvalorização média entre os veículos de 4 rodas foi de 44,3%. Entre as Vespas, foi de 27,9%, de acordo com dados da J.D.Power. Excluídos os veículos de colecionador, as lambretas Vespa sofrem a menor desvalorização entre tudo que se pode encontrar no asfalto.

Um dos motivos para isso pode ser o fato de a Vespa ocupar um nicho único no mercado. Enquanto carros da Porsche, Land Rover ou Mercedes concorrem pelos compradores do segmento de alto padrão, o ramo das lambretas é diferente. 

"A Vespa é uma marca de luxo", disse Chelsea Lahmers, fundadora da Moto Richmond, na Virgínia, que vende Vespas e outras marcas de lambretas e motocicletas. "A maioria das marcas de luxo tem alguma concorrência. Mas a Vespa, não."

Isso não é exatamente verdade. A Honda tem a lambreta Metropolitan, e a Yamaha, o modelo Vino 50. Há também a Buddy, da Genuine, para citar alguns exemplos. De acordo com o vice-presidente de vendas e operações da Genuine, Trey Duren, as três marcas vendem mais do que a Vespa no mercado americano. São também mais baratas. Ainda assim, nenhuma delas apresenta a baixa desvalorização da Vespa, nem seu charme especial.

Comprar uma Vespa não é uma decisão barata. O modelo mais básico, Primavera 50cc, é vendido por US$ 3,8 mil. A edição especial Vespa 946 RED é a versão mais cara, por US$ 10,5 mil. Mas nem mesmo a lambreta de luxo da BMW, C650 GT, com seus poderosos 60 cavalos de potência, velocidade máxima de 180 km/h e preço de US$ 11 mil foi capaz de inspirar seguidores como faz a Vespa.

Lambretas grandes como a da BMW são classificadas como "maxi". Para os tradicionalistas, ainda que as maxis tenham quadros baixos e rodas pequenas - características das lambretas - elas representam outra categoria de veículo. "Quem se interessa pelas lambretas maxi na verdade perdeu o interesse nas lambretas", disse Peter Lundgren, dono de uma Vespa.

A Vespa não variou muito o visual desde o seu lançamento, em 1946, o que aumenta sua mística. Foram mantidas peças de metal quando a concorrência opta pelo plástico. "O encaixe e o acabamento das peças [da Vespa] são os melhores dentre os produtos que vendemos", disse Chelsea. "São lindas. Cada detalhe nelas é uma beleza."

A Vespa tem o quadro em monocoque, o que significa que o chassi e o quadro são uma peça só, sem painéis ligados ao quadro como fazem as demais lambretas. Isso a torna mais leve e rígida. "Com isso, a Vespa parece mais macia de pilotar", disse Colin Shattuck, autor de Scooters: Red Eyes, Whitewalls and Blue Smoke. "Quando a Vespa precisa de manutenção, o conserto é muito mais caro", acrescentou.

A Piaggio, que fabrica a Vespa, tem uma reputação de empresa confiável. Mas, provavelmente, a baixa desvalorização é fruto da imagem cultivada pela marca ao longo de 72 anos. Ela se tornou o ideal romântico de lambreta quando Gregory Peck e Audrey Hepburn andaram juntos numa Vespa no filme A Princesa e o Plebeu (1953). 

Foi o principal meio de locomoção do movimento britânico mod nos anos 60, que serviu como pano de fundo para a ópera-rock do Who, Quadrophenia (1973), em que um personagem cantava, "I ride a GS scooter with my hair cut neat" [Ando de lambreta GS com o cabelo bem cortado].

A Vespa domina a tal ponto seu segmento que sua marca se tornou sinônimo de lambreta. "As pessoas entram numa concessionária Yamaha para comprar uma Vino e dizem, ‘quero aquela Vespa’", afirmou Lundgren.

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