Celeste Sloman para The New York Times
Celeste Sloman para The New York Times

'Solução para o vício em tecnologia está dentro de nós', diz escritor

Nir Eyal, que escreveu o manual do setor para conectar pessoas com tecnologia, agora tem uma receita para libertá-lo

Nellie Bowles, The New York Times

15 de outubro de 2019 | 06h00

Nir Eyal não se arrepende de ter escrito o guia de engajamento de tecnologia do Vale do Silício Hooked: How to Build Habit-Forming Products (Viciado: como construir produtos viciantes), mesmo tendo acabado de publicar um novo livro a respeito de como podemos nos livrar desse mesmo vício.

Em seu primeiro manual, a respeito de como desenvolver aplicativos envolventes para smartphones, Eyal explicou os truques “para encorajar sutilmente determinados comportamentos do cliente” e “fazer os usuários voltarem de novo e de novo”. Ele fez uma verdadeira turnê pelas empresas de tecnologia dando palestras sobre técnicas de sedução como recompensas variáveis ou agrados que ocorrem em intervalos imprevisíveis.

Os grandes nomes do Vale do Silício celebraram Hooked. Dave McClure, fundador da 500 Startups, uma prolífica incubadora de empresas, descreveu a obra como “uma base essencial para qualquer startup que busca entender a psicologia do usuário”. Mas aquilo foi em 2014. Agora, Eyal tem um novo best seller, chamado Indistractable: How to Control Your Attention and Choose Your Life [Indistraível: como controlar sua atenção e determinar sua vida].

Eyal, 41 anos, não está sozinho nessa mudança de posição. Delatores como Tristan Harris, ex-especialista em ética de projetos do Google, popularizaram a ideia segundo a qual os telefones são viciantes. Eyal não acha que a tecnologia seja o problema. Nós é que somos.

Então, com isso em mente, Eyal escreveu um guia para libertar as pessoas de um vício que, segundo a argumentação dele, não existia anteriormente. A solução é recuperar a responsabilidade pelos próprios atos passo a passo: coloque o telefone no modo silencioso; mande menos e-mails e gaste menos tempo com eles; introduza algum tipo de pressão social, como sentar-se próximo a uma pessoa que consegue ver sua tela. Estabeleça “apostas” com pessoas, para que você pague prendas caso se distraia.

Alguns críticos estão ridicularizando esses conselhos. “As próprias pessoas que causaram isso estão agora tentando vender a cura”, afirmou Richard Freed, um psicólogo infantil. “Mas foram eles que começaram a vender as drogas que começaram isso tudo.” Em 2016, Harris popularizou a ideia segundo a qual a tecnologia seria viciante de uma maneira única e estaria “sequestrando" cérebros. Dado que a tecnologia em si é viciante, argumentou Harris, o ônus de resistir a ela não deve recair sobre o indivíduo.

“Livros que defendem mais autocontrole distraem o público das questões verdadeiramente alarmantes criadas pela tecnologia, em um momento em que precisamos de uma transformação urgente”, disse ele. “Milhões de crianças têm sido prejudicadas pelas plataformas de tecnologia. A desinformação sobre a crise climática está fora de controle, destruindo a verdade e retardando a ação. Nossos processos democráticos estão agonizando.”

Eyal não concordou com o argumento de Harris. O uso da terminologia do vício dá aos usuários uma desculpa. A questão estava nas mentes das pessoas e, para solucionar o problema, elas tinham de olhar para si mesmas. A solução que ele propõe é vagarosa. Envolve autorreflexão. De acordo com ele, com frequência, quando olhamos para os telefones, estamos ansiosos e nos sentindo mal por estarmos sozinhos.

Usuários de tecnologia precisam se dar conta da razão que os deixa tão desconfortáveis quando estão em uma fila sem suas telas e o que eles temem em seu entorno, escreveu ele. Precisam observar uma agenda rigorosa para saber exatamente o que estão perdendo. “Quem prender a respiração esperando que as empresas tornem seus produtos menos envolventes vai ficar sem ar”, escreveu ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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