Reprodução @sistersober via @dankrecovery
Reprodução @sistersober via @dankrecovery

Memes com humor ácido ajudam pessoas que tentam superar vícios

Criador do perfil @dankrecovery diz que dezenas de pessoas entram em contato pedindo ajuda todas as semanas

Ivy Knight, The New York Times - Life/Style

06 de outubro de 2020 | 05h00

Timothy Kavanagh, 36 anos, viciado em heroína em fase de recuperação e conselheiro de dependência, estava no seu segundo ano de sobriedade quando seu irmão morreu num acidente de carro provocado pelo álcool. “Entrei num estado de depressão insuportável”, disse ele. “Encontrar memes sobre recuperação me ajudou a superar aquele momento”.

Em 2015, ele começou a fazer memes sobre o processo de recuperação da dependência em drogas e álcool, criando a conta @dankrecovery no Facebook e no Instagram.

Kavanagh disse que todos os dias é procurado por pessoas que estão buscando ajuda, pelo menos 35 por semana. “Às vezes é uma questão de combinar coca com Xanax, às vezes é um lance mais ‘estou perdido e não consigo parar’”, disse Kavanagh, que trabalha numa comunidade perto de St. Louis e agora, para administrar o perfil, conta com a colaboração de uma equipe cujos membros também estão em recuperação. “Nossa equipe é muito qualificada para ouvir as pessoas”.

Os memes conseguem transmitir um sentimento ou emoção por meio da comédia, sem a necessidade de interação cara a cara. Para as pessoas em recuperação, o anonimato costuma ser uma parte importante de sua sobriedade e os memes podem ser uma forma de processar e compartilhar experiências com um jeito meio estranho e cômico de autocuidado.

Esses memes muitas vezes se valem da linguagem dos programas de 12 etapas, incorporando as experiências e o vocabulário conhecidos apenas por membros dessa comunidade.

“No AA (Alcoólicos Anônimos), falamos sobre encontrar uma irmandade”, disse Kavanagh. “É meio caminho para ser uma pessoa saudável de maneira geral, ter pessoas compreensivas ao seu redor. Quando entrei na comunidade dos memes de recuperação, foi tipo ‘esta é a minha galera’”.

Amy, 25 anos (que está sendo identificada apenas pelo primeiro nome para proteger seu anonimato), postou na página @dankrecovery do Facebook há três anos pedindo ajuda.

“Sou millennial, então adoro memes”, disse ela em entrevista por telefone. Quando estava na clínica de reabilitação, conheceu outra pessoa que também procurara tratamento por causa da conta @dankrecovery, disse ela. “Coincidência? Esse negócio criado para fazer piada acaba ajudando muita gente”. Ela já está sóbria há dois anos.

“A força dos memes é que, de um jeito muito simples, você consegue expressar algo universal, que ressoa nas pessoas”, disse Lauren, cantora de ópera e ex-viciada em heroína que começou o perfil @brutalrecovery em 2018. Lauren disse que os melhores memes vêm da vulnerabilidade: “Precisamos lembrar que no fundo de tudo isso está o trauma, o vício e a dor”.

Depois de criar o @heckoffsupreme em 2017, Andy Hines, que trabalhava como contador, passou a atrair mais atenção por causa de seus memes. Ele foi contratado para criar conteúdo para uma conta de mídia social corporativa (é a galinha dos ovos de ouro do mundo dos memes: criar memes para ganhar a vida). Hines fazia memes porque dava “uma sensação boa”, disse ele numa entrevista por telefone no ano passado. “Um dos meus grandes problemas é que eu guardo muito as coisas. Para mim, não é fácil falar diretamente sobre as coisas o tempo todo. Então é um jeito muito bom de fazer isso”.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Yeah well what tf else are we supposed to do

Uma publicação compartilhada por Heck Off Supreme (@heckoffsupreme) em

Nisso, Hines ajudou a popularizar esse gênero alternativo de comédia. “Com os memes, ou você tem a manha ou não tem”, disse Lauren. “Ele tinha”.

Hines, que em 2014 descobriu que era bipolar, fazia memes francos e corajosos, mas também estava sofrendo. Em maio deste ano, ele se suicidou.

“Achei que sabia o ponto onde ele estava, mas na real ele estava dez passos atrás”, disse Meghan Fitzgerald, 36 anos, contadora que era casada com Hines e mãe de seus dois filhos. Ela ainda chora todos os dias. “As pessoas não compreendem a doença mental”, disse ela. “Se não tiver controle, vira um pesadelo. E, para ele, virou”.

George Resch, que ficou sóbrio em 2002 e começou a postar memes em 2015, disse: “Senti que um pedacinho da minha alegria pela vida se foi junto com ele”. Resch tem três contas de memes, entre elas a popular @tank.sinatra.

“Eu consigo rir do meu vício, e isso é um privilégio”, disse Kavanagh, que fez questão de lembrar o último meme que Hines postou antes de sua morte: a legenda diz “Me preparando para postar um meme divertido e com que as pessoas possam se identificar”, debaixo de um vídeo de um homem chorando. (Fitzgerald e alguns de seus amigos continuaram postando na conta após sua morte).

“Nem todo mundo que passa pela escuridão consegue sair dela”, disse Kavanagh. “Fazer memes faz parte da minha recuperação, mas não é tudo”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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