Adam Ferguson para The New York Times
Adam Ferguson para The New York Times

Vida nas cidades pequenas é solução para imigração na Austrália

Uma infusão que está conferindo vida nova a comunidades inteiras

Damien Cave, The New York Times

10 Junho 2018 | 10h15

PYRAMID HILL, AUSTRÁLIA - Uma filipina magrela de cabelo comprido e escuro estava no campo de críquete atrás da escola St. Patrick, esperando o arremesso de um pai corpulento de barba avermelhada.

A bola de críquete veio devagar. Ela rebateu com rapidez, mandando a bola para o céu enquanto uma turma de crianças (a maioria filipina, e algumas brancas) celebrava e se preparava para a próxima rodada.

O jogo era um típico encontro misto de Pyramid Hill, cidade de aproximadamente 500 habitantes na região central de Victoria, que se tornou um modelo de renascimento rural e integração multicultural.

“Ainda fico surpresa em ver como eles se mostram abertos a nós", disse Abigail Umali, 39 anos, veterinária de Manila que trabalha numa suinocultura local, e mãe da rebatedora do críquete, Maria.

“Essa escola não estaria aqui se não fosse por eles", disse Kelvin Matthews, 36 anos, o arremessador.

Os filipinos representam agora quase um quarto da crescente população de Pyramid Hill. Novos lares são construídos na cidade pela primeira vez em uma geração, e tanto os recém chegados quanto os antigos moradores dizem ter encontrado a resposta para a crescente preocupação com a chegada de imigrantes e o fardo que eles representariam para os recursos das cidades australianas.

A chave está no estilo de vida das cidades menores.

“No interior, as pessoas se misturam, e precisam fazê-lo", disse Tom Smith, suinocultor que começou inadvertidamente o renascimento da cidade em 2008 quando solicitou vistos de trabalho para quatro funcionários das Filipinas. “As coisas são diferentes por aqui: é a única maneira de sobreviver.”

O colapso rural é uma história conhecida, vista em todo o Meio-Oeste americano e em muitas áreas da Europa, onde comunidades menores foram espremidas pela globalização. Não é diferente na Austrália: um interior cada vez mais urbanizado onde as cidades de poucas centenas de habitantes estão desaparecendo.

Mas o sucesso de Pyramid Hill (e muitas outras cidadezinhas australianas) indica que há oportunidades sendo desperdiçadas. Num momento em que os políticos da Austrália e de muitos outros lugares do mundo pedem restrições à imigração, as cidadezinhas da Austrália estão pedindo mais imigrantes.

“Há uma verdadeira rede de pessoas que sabem como fazer isso funcionar, que fazem isso funcionar em suas comunidades e podem compartilhar suas experiências com outros", disse Jack Archer, do Instituto Regional da Austrália, uma organização do governo. “Trata-se de algo que realmente deveríamos pensar em ampliar.”

Pyramid Hill fica a uma tranquila viagem de aproximadamente 240 quilômetros de Melbourne, que termina num trecho praticamente vazio, exceto pelos vastos campos dourados de trigo e as ovelhas cinzentas.

A comunidade emprestou seu nome de uma formação de granito nos arredores da cidade em 1836. Do pico pode-se ver outros marcos que são indício do desespero local: silos de armazenamento de grãos em desuso, e uma fábrica de ração para animais de estimação que fechou em 2008.

Os moradores falam da era anterior à chegada dos filipinos como uma época de silencioso desespero. Ruas sem crianças. Casas abandonadas. A população da cidade chegou ao ponto mais baixo em 2011, com 419 habitantes (nos anos 1960 eram 699 moradores).

“Estávamos numa situação difícil", disse Cheryl McKinnon, prefeita de Loddon Shire, município que inclui Pyramid Hill. “Nossa população precisava crescer.”

Os economistas costumam debater a imigração nos termos de um efeito multiplicador. Os recém chegados não apenas preenchem vagas de trabalho, mas também as criam, trazendo a demanda por novos produtos e serviços.

Isso é especialmente verdadeiro na Austrália, onde o salário mínimo é de AU$18,29 por hora (US$ 13,70) e a maioria dos imigrantes é de estudantes ou trabalhadores qualificados.

“O foco da Austrália na imigração de trabalhadores qualificados demonstrou trazer efeitos positivos para o crescimento econômico", revelou um relatório do governo publicado recentemente, “porque em média nossos imigrantes aumentam o PIB em potencial e o PIB per capita".

Mas, em muitas cidades e subúrbios, a imigração trouxe problemas com a habitação, a superlotação das escolas e o trânsito. O governo do primeiro-ministro Malcolm Turnbull respondeu com a restrição à imigração e a manutenção de árduos centros de detenção para os solicitantes de asilo.

Lugares como Pyramid Hill oferecem uma abordagem alternativa.

Estatísticas do Instituto Regional da Austrália indicam que muitas comunidades rurais não sofrem com a falta de empregos, e sim com a falta de mão-de-obra.

Smith enfrentou o problema viajando a Manila em 2008 para entrevistar candidatos a vagas em sua suinocultura Kia-Ora. Dois dos quatro primeiros contratados por ele ainda trabalham na Kia-Ora.

A veterinária Abigail se mudou para Pyramid Hill quatro anos atrás vindo de Sydney com o marido e os dois filhos.

“É difícil imaginar como as pessoas são amistosas aqui", disse Abigail. “Elas aprenderam a se adaptar.”

Pesquisas mostram que as áreas passando pelo renascimento mais rápido oferecem aos recém chegados empregos com bons salários e a sensação de pertencerem a uma comunidade.

Em Dalwallinu Shire, cidadezinha no cinturão do trigo na Austrália Ocidental que está voltando à vida graças aos imigrantes, os moradores ajudaram os trabalhadores a trazer suas famílias do exterior.

Na cidadezinha de Nhill, região nordeste de Victoria, os moradores locais conseguiram facilitar a chegada de refugiados da etnia Karen vindos de Mianmar, ajudando-os a encontrar moradia, aprender inglês e participar de atividades sociais.

Em Pyramid Hill, os vizinhos se reúnem com frequência para compartilhar comida e aprender mais a respeito uns dos outros. Uma “fiesta” filipina foi acrescentada ao calendário anual de eventos da cidade em 2015.

A cidade abriu suas portas para os filipinos em parte porque as famílias trazem energia. Mas também ajuda o fato de serem na sua maioria católicos, e já saberem falar um pouco de inglês.

Os programas para o assentamento de imigrantes menos qualificados (ou negros, ou muçulmanos) nas cidades pequenas já se mostraram mais difíceis. Mesmo aqui, em Pyramid Hill, não são inéditos os casos de situações constrangedoras ou desrespeitosas.

Duke Caburnay, 16 anos, cujo pai trabalha na Kia-Ora, disse que, quando seu time joga partidas de futebol australiano em outras cidadezinhas, ele às vezes escuta insultos racistas.

“Eles generalizam muito: os asiáticos são isso, os australianos são aquilo", disse Fritzie Caburnay, 46 anos, mãe de Duke, que tem diploma de mestrado em administração pública. “Alguns dizem que os filipinos são invasores.”

Ainda assim, disse ela, “nós nos sentimos em casa aqui".

No ano passado, disse Abigail, o marido dela estava na Kia-Ora trabalhando durante seu turno regular quando morreu subitamente de ataque cardíaco. Ele tinha 44 anos.

Foram muitas as demonstrações de apoio recebidas por ela e pelos dois filhos, Raphael, 12 anos, e Maria, 10 anos. Todos os dias, as pessoas vinham à casa de madeira alugada por ela, sorrindo, trazendo comida e dinheiro.

“É impossível comparar o que aconteceu conosco aqui ao que teria nos acontecido se estivéssemos nas Filipinas", disse Abigail. “É realmente impressionante.”

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