Como a desigualdade de renda liquidou suas chances de beber grandes vinhos

Como a desigualdade de renda liquidou suas chances de beber grandes vinhos

Vinhos de origem controlada sempre foram caros. Mas a concentração de riqueza crescente os colocou fora de alcance, salvo no caso dos conhecedores de vinhos mais abastados

Eric Asimov, The New York Times - Life/Style

15 de novembro de 2020 | 05h00

Entre as muitas maneiras que os ricos são diferentes de nós é o fato de que podem se dar ao luxo de beber um Grand Cru da Borgonha. Nem sempre foi o caso. Nos anos 1990, os amantes de vinho da classe média ainda podiam se permitir esse rito de passagem: beber um vinho realmente excelente, e não apenas desfrutar, mas compreender quais qualidades o tornavam um vinho excepcional por sua história.

Poderia ser um esbanjamento, talvez exigisse alguns sacrifícios. Mas era viável, do mesmo modo que era possível comprar um vinho Bordeaux “premier cru” ou vinhos mais finos como Barolo, Brunello di Montalcinou ou um cabernet sauvignon do Vale do Napa, para citar alguns. Por exemplo, em 1994, uma garrafa de um Comte Georges de Vogüé Musigny, 1991, um Grand Cru, custava US$ 80 (o equivalente a US$ 141 em 2020, ajustado pela inflação).

Hoje, essa garrafa custa US$ 800. Num caso mais extremo, o Domaine de la Romanée-Conti La Tâche, 1990, outro Grand Cru e um dos mais conceituados vinhos do mundo, custava US$ 285 em 1993 (hoje, com a inflação, sairia por US$ 513). Não era um valor pequeno na época e nem hoje, mas, profundamente curiosas em prová-lo, as pessoas encontravam uma maneira. Hoje, uma garrafa deste vinho custa em torno de US$ 5 mil, fora do alcance dos estudantes dedicados do vinho, acessível apenas para aqueles mais ricos.

Existem muitas opções, como o Village Burgundy, um dos muitos excelentes vinhos que vêm sendo produzidos em todo o mundo. Mas essas marcas, por melhores que sejam, não fazem parte de uma conversa que perdura há séculos. Para os amantes da bebida, desfrutar de um vinho renomado seria o equivalente a um curso na faculdade sobre Shakespeare, Beethoven ou Charlie Parker.

Em qualquer campo do conhecimento, é necessário compreender os pontos de referência, os parâmetros que indicam sua excelência, para entrar nessa conversa, mesmo se você basicamente queira apenas debater. Atualmente é impossível para muitas pessoas pagarem por esses vinhos.

Você dirá que os preços subiram no caso de todos os produtos de consumo. Por que seria diferente com o vinho? E não está errado. Mas o problema não se resume apenas nisto. Os preços dos vinhos no topo de linha subiram de modo muito mais exorbitante do que os de muitos outros artigos de luxo.

O La Tâche 2017 está 18 vezes mais caro do que em 1990, ao passo que uma bolsa Hermès Birkin 30 custava US$ 3 mil em 1990 e seu preço foi para US$ 11 mil em 2020, quatro vezes mais cara. A região de Bordeaux opera numa escala ligeiramente diferente do que a de Borgonha.

É produzido muito mais vinho naquela região. Mas ela também tem seus vinhos de referência e, como os da Borgonha, os preços dispararam. Orley Ashenfelter, professor de economia na universidade de Princeton, tem monitorado de perto o mercado dos vinhos Bordeaux há anos. Em 1980, o preço de um premier cru era quatro vezes maior do que um Bordeaux de nível cinco, afirmou, referindo-se a um ranking de 1885 que classificava os produtores principais do Médoc em cinco níveis.

Hoje, disse ele, os preços subiram para todos os vinhos de altíssima qualidade a proporção entre um premier cru e um do nível cinco é de 10 para um. O que explica essas disparidades? Em parte, é a velha lei da oferta e da demanda. Um grande vinho está ligado a áreas limitadas de terra e aos ritmos da agricultura.

Com uma quantidade limitada de uvas e somente uma oportunidade de produzir vinho a cada ano, a produção não consegue aumentar para atender à crescente demanda. Com exceção de alguns Champanhes de alto nível como Dom Pérignon, os melhores vinhos não são artigos de luxo como relógios ou bolsas, caso em que a produção pode aumentar para suprir a demanda. E a produção não pode ser mantida artificialmente baixa para aumentar a demanda.

Embora seja um problema importante para os amantes do vinho, a crescente perda de acesso aos vinhos mais requintados é um exemplo microscópico de como a desigualdade de renda e a concentração da riqueza nas mãos de poucos têm afetado a vida cotidiana.

Vivo em Manhattan, onde, até a pandemia pelo menos, o preço dos imóveis vinha disparando há décadas, à medida que mais pessoas e empresas competiam por um espaço. Manhattan se tornou um local mais difícil para as pequenas empresas se permitirem pagar, como também os escritores e artistas, sem mencionar os funcionários públicos, policiais ou bombeiros. Mas os bilionários continuam disputando espaço.

Um investidor em fundo hedge pagou US$ 238 milhões por um novo apartamento em 2019 num prédio construído depois que dezenas de locatários de classe média foram despejados dos seus apartamentos. Quando bilionários decidem que querem alguma coisa, seja um apartamento ou uma garrafa de vinho, os preços sobem para todos os demais. Felizmente grandes vinhos vêm sendo produzidos em todo o mundo atualmente.

Os que são fascinados pela maneira como o vinho consegue expressar em detalhes intrincados as características e a cultura de um lugar podem recorrer aos Rieslings alemães, aos chenin brancos de Savenières, os Chianti Classicos e os vinhos da região espanhola do Priorato. E há também muitas outras opções menos caras em locais como a Borgonha e Bordeaux, vinhos extremamente desfrutáveis, mesmo se não dizem tudo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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