Sarah Ivorra, CNRS/ISEM
Sarah Ivorra, CNRS/ISEM
Joshua Sokol, The New York Times

25 de junho de 2019 | 06h00

A uva savagnin blanc - não confundir com sauvignon blanc - é uma variedade frutosa e ácida das colinas de Jura, perto da fronteira da França com a Suíça. E, se visitarmos a região e provarmos seus vinhos hoje, o sabor será exatamente da mesma uva usada em seus vinhos nos últimos 900 anos, uma identidade que chega ao nível genético.

“É como se estivessem congeladas no tempo", disse Nathan Wales, arqueólogo da Universidade de York, na Grã-Bretanha, e principal autor de um estudo, publicado no dia 10 de junho na revista Nature Plants, a respeito das uvas. “Supus que eles simplesmente reciclassem os nomes, com linhagens de uvas transitórias, mas estamos vendo que não é isso o que ocorre.”

O estudo analisou o DNA de 28 sementes de uvas encontradas nos poços e latrinas de sítios arqueológicos da França, onde as uvas esmagadas na fabricação do vinho eram abandonadas, ou simplesmente excretadas pelos animais e pessoas que as comiam. A equipe de Wales comparou essas sequências ao GrapeReSeq, um banco genético de uvas dos vinhos modernos.

A descoberta sublinha a devoção dos produtores de vinhos, que podem investir séculos ou até milênios na lealdade a determinadas variedades de uvas. Nos 10 ou 20 séculos mais recentes, os cultivadores de uvas têm criado vinhedos para produzir clones perfeitos de variedades de uvas que rendem bom vinho, em vez de permitir que novos tipos de uvas se desenvolvam naturalmente.

Os resultados são consistentes com os registros históricos, que indicam que a vinicultura tem pelo menos dois mil anos na região. Ainda no século 1, quando vinícolas romanas compunham a paisagem do sul da França, Plínio, o Velho, descreveu 91 variedades de uvas. Descreveu também a técnica de enxerto ainda usada comumente na clonagem de uvas.

A equipe de Wales encontrou uma continuidade que pode remontar à era de Plínio. Em La Madeleine, complexo de igrejas na cidade de Orleans, uma semente encontrada em uma latrina de quase mil anos foi identificada como correspondência exata da savagnin blanc dos dias atuais.

Outras sementes parecem ter se separado de suas parentes contemporâneas por apenas um ciclo reprodutivo em quase dois milênios. Uma semente encontrada em um poço do século 1 era próxima a ponto de ter compartilhado um pai com as uvas Pinot Noir. Três outras sementes encontradas em um poço do século 2 apresentavam o mesmo grau de parentesco com as uvas Syrah.

Além de consumir vinhos semelhantes aos Pinot e Syrah de hoje, os romanos também devem ter transportado suas variedades favoritas por longas distâncias. A parente mais próxima de uma semente, encontrada perto do litoral do sul da França, é agora cultivada somente nos Alpes.

Wales disse que analisar as linhagens de sementes ainda mais antigas pode ajudar os esforços de reprodução e também revelar a idade das tradições agrícolas locais. Sean Myles, da Universidade Dalhousie, no Canadá, que comandou um estudo genético anterior das uvas usadas nos vinhos modernos, disse que “é interessante pensar que, quando provamos um savagnin blanc, a identidade genética do vinho na sua taça é idêntica à de algo que era bebido há muito tempo". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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