Gianfranco Tripodo para The New York Times
Gianfranco Tripodo para The New York Times

Vinícius Jr se mantém fiel às raízes na adaptação no Real Madrid

Jogador se apega aos amigos e familiares para brilhar no gigante espanhol

Tariq Panja, The New York Times

15 de setembro de 2019 | 06h00

MADRI - Com dois grandes diamantes reluzindo nas orelhas, Vinícius José Paixão de Oliveira Júnior atravessou a porta da frente do condomínio que ele chama de lar após um dia de treinos com o Real Madrid. Em questão de minutos, ele e os dois melhores amigos, do Brasil, ligaram o videogame para jogar FIFA na sala e dar início a um ritual diário: a costumeira maratona que parece ser interrompida apenas para as refeições.

Esse condomínio, em um dos bairros mais exclusivos de Madri, tem um ar de paraíso adolescente. Além da gigantesca TV, há patinetes elétricos, mesas de pebolim e sinuca. São ferramentas para distrair e entreter: para Vinícius, tido como próximo grande astro do Real Madrid, o resultado disso é que agora ele raramente é visto em público. Ninguém sai para a noite quando Vinícius está em casa. “Não é justo se sairmos enquanto ele tem que ficar em casa", disse um dos amigos dele, Luiz Felipe Menegate. “Sabemos que estamos aqui para ajudá-lo a alcançar o sucesso.”

Mesmo se não fosse um dos jovens talentos mais promissores do futebol, Vinícius provavelmente passaria os dias falando a respeito do esporte na companhia de Menegate e outro amigo de infância, Wesley Menezes, ou devorando pratos de arroz, feijão preto e carne. 

Poucos anos atrás, o ágil e habilidoso Vinícius vivia em um cômodo apertado com mais de meia dúzia de parentes em um município do Rio de Janeiro conhecido pela criminalidade e pobreza. Então, em maio de 2017, o Real Madrid concordou em pagar ao Flamengo 45 milhões de euros (pouco mais de US$ 50 milhões) pelos direitos do adolescente. De uma hora para a outra, Vinícius se tornou o atleta adolescente mais caro já exportado na história do futebol brasileiro.

Com a transação sem precedentes, Vinícius, que na época tinha 16 anos, se tornou um milionário instantaneamente. Mas foi também o início dos esforços para tornar a sua transição do Rio para a Europa tão fácil quanto o possível. É por isso que Menegate e Menezes estão na casa dele, além da tia e quase uma dúzia de parentes, todos vivendo na mansão de dois andares no condomínio La Moraleja, um enclave para os ricos de Madri cercado por muros altos.

“Não me sinto pressionado", disse Vinícius em abril. “Tento pensar apenas em me divertir jogando.” De acordo com os parentes, Vinícius deu mostras de talento pouco depois de aprender a andar. Quando tinha seis anos, entrou para o treino de futebol de uma escolinha administrada por Carlos Eduardo Abrantes, conhecido por todos como Cacau. A escola é uma das muitas ligadas ao Flamengo, o que significa que Cacau também lucrou com a transferência de Vinícius para Madri. “Foi uma quantia interessante", disse ele, sem revelar o número.

Quando Vinícius tinha 10 anos, o Flamengo já tinha assinado um contrato com ele. Aos 14 anos, o talento raro de Vinícius era evidente. Era um dos melhores jogadores do futebol local e logo se tornaria astro da seleção da sua categoria. Foi então que a TFM, uma das agências que operam o futebol no Brasil, começou a administrar a carreira dele.

Quando Vinícius foi escolhido o melhor jogador e premiado como artilheiro da seleção brasileira no Campeonato Sul-Americano da categoria sub-17 no início de 2017, seu desempenho levou a uma das mais notáveis disputas entre olheiros na história recente do futebol. Os espanhóis Real Madrid e Barcelona, eternos rivais dentro e fora dos campos, decidiram conquistar Vinícius - um adolescente que ainda não tinha feito sua estreia profissional pelo Flamengo -, dispostos a pagar praticamente qualquer preço.

O Barcelona deu o primeiro lance: 10 milhões de euros e a promessa de cobrir qualquer oferta dos rivais. O Real Madrid ofereceu mais. Os lances sucessivos chegaram até a marca dos 45 milhões de euros. A negociação foi concluída discretamente no início de 2017. A transição para a Europa teve seus momentos difíceis. A batalha por uma vaga de titular no Real Madrid não é para os fracos, e até as mais fantásticas contratações e as promessas mais brilhantes podem cair rapidamente em desgraça com a torcida e a imprensa.

Ainda assim, as tentativas de criar uma vida normal continuam. A tia Vanessa prepara todas as refeições da casa, e o cardápio não varia muito: arroz, feijão e alguma proteína, o prato típico da maioria das famílias brasileiras. Na maior parte dos dias, a família se reúne à mesa algumas horas antes do jantar, devorando as fatias de um bolo de fubá, tomando um cafezinho brasileiro enquanto as caixas de som na sala tocam pagode.

A não ser pelo fato de a família estar vivendo em uma casa que pertencia ao diretor executivo de uma das maiores redes de varejo da Espanha, a cena poderia ser idêntica em um apartamento apertado de São Gonçalo, com amigos e parentes aproveitando a companhia uns dos outros, falando de futebol e dos talentos culinários da tia Vanessa. “Meu pai diz, ‘Pense apenas no campo’”, comentou Vinícius. “‘Não se preocupe com nenhum problema fora dele.’” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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