Thomas Ekström para The New York Times
Thomas Ekström para The New York Times

Vinícolas nórdicas veem oportunidade com mudança climática

Aquecimento global está redesenhando mapa do vinho no continente europeu

Liz Aldermand, The New York Times

20 de dezembro de 2019 | 06h00

SKAERSOGAARD, DINAMARCA - Em uma agradável manhã de outono, Sven Moesgaard inspecionava uma fileira de videiras cuidadosamente plantadas. Uma equipe colhia toneladas de uvas Solaris que ele transformaria em um vinho branco dinamarquês de sabor marcante.

Dez anos atrás, a vinicultura era considerada receita para a derrota no clima frio da região. Mas, com a alta das temperaturas, uma incipiente indústria vinicultora está crescendo em toda a Escandinávia, conforme os empreendedores tentam usar o clima mais quente para seu benefício.

“Estamos de olho nas oportunidades trazidas pela mudança climática", disse Moesgaard, fundador da Skaersogaard Vin. “Nas próximas décadas, teremos mais vinho na Escandinávia enquanto a produção dos países que tradicionalmente dominaram a indústria vai cair.”

A Dinamarca tem agora 90 vinícolas comerciais, uma alta considerável em relação às duas vinícolas de 15 anos atrás, e cerca de 40 surgiram na Suécia. Há quase uma dúzia funcionando mais ao norte, na Noruega. Mas muitas ainda são apenas startups, pequenas se comparadas com as vinícolas mais tradicionais da Europa. Produtores da França, Itália e Espanha são donos de três quartos dessas terras.

Mas, em questão de 50 anos, a previsão do tempo para a Escandinávia será mais parecida com o clima atual do norte da França, com as temperaturas aumentando até 6°C. Na década passada, o aquecimento produziu invernos mais amenos, uma temporada de cultivo mais longa e um maior número de vinhos premiados.

Os viticultores nórdicos estão entusiasmados com a perspectiva de investirem enquanto assistem às dificuldades dos produtores de vinho do sul da Europa. Uvas queimaram nas vinhas durante o verão em partes da França, Espanha e Itália com as temperaturas ultrapassando 41°C.

Os climatólogos dizem que o mapa global do vinho pode se transformar até 2050. A temperatura pode ficar alta demais em países que dominam a produção na Europa e na América Latina, bem como em partes da Califórnia e da Austrália, enquanto áreas sem tradição nas vinícolas decolam.

Produtores de vinho na França estão experimentando uvas de países mais quentes, como a Tunísia, na tentativa de reter os sabores e safras que geram bilhões de euros em vendas. Vinicultores espanhóis e italianos estão plantando em altitudes mais elevadas ou em encostas de face norte.

Mas, daqui a meio século, é possível que essas regiões não sejam mais capazes de receber o plantio da uva, enquanto as condições na Escandinávia podem melhorar. Os vinicultores daqui já são elogiados por terem criado vinhos brancos de sabor forte que estão desaparecendo dos países mais ao sul, onde o calor está reduzindo a acidez da uva.

“Estamos tentando definir o estilo nórdico de vinho", disse Tom Christensen, fundador da Dyrehoj Vingaard, maior vinícola da Dinamarca, criada dez anos atrás com a irmã. Isso inclui investir em variedades de uva mais ácidas e frescas, e também na produção orgânica. A vinícola produz 50 mil garrafas de excelentes vinhos brancos e espumantes, e ele pretende expandir os negócios.

A quantidade de vinho produzida pelos nórdicos ainda é pequena, e a maior parte ainda é consumida internamente, deixando pouco para a exportação. A receita de vinhos da Dinamarca, Noruega e Suécia foi de aproximadamente 14 milhões de euros este ano, sendo que na França foi de 28 bilhões de euros. Para que a indústria se torne sustentável, a produção de vinho terá que aumentar, disse o vinicultor Odd Wollberg, da Noruega. No ano passado, ele assumiu o controle da vinícola Lerkekasa Vingard, antes considerada a mais setentrional da Europa.

Mas, para capturar o consumidor, o preço precisa baixar. Garrafas nórdicas são vendidas em média por valores entre 30 euros e 40 euros (US$ 33 e US$ 44) por causa do custo da mão de obra, três vezes mais alto do que na França, Itália e Espanha. Os vinicultores do sul também recebem bilhões em subsídios. Para alguns especialistas, a qualidade não justifica o custo.

Os vinicultores nórdicos apontam para o sul da Inglaterra, onde surgiu uma indústria de vinhos espumantes de primeira linha. Empresas como a francesa Taittinger investiram em terras na Grã-Bretanha para se proteger das altas nas temperaturas de Champagne. 

Moesgaard acredita que um dia as marcas estrangeiras de vinho farão o mesmo na Dinamarca. Seu rótulo foi muito elogiado nos festivais da Alemanha e França. “Vamos produzir vinho onde antes era impossível", disse Moesgaard. “Ninguém pode dizer que está contente com a mudança climática. Mas devemos aproveitar as oportunidades que ela proporciona.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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