Patrick Kovarik/Agence France-Presse - Getty Images
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Violência aumenta em Camarões enquanto falantes do inglês tentam a independência

Alguns dos anglófonos do país da África Central querem fundar um país chamado Ambazonia, mas o governo francófono se opõe profundamente

Dionne Searcey, The New York Times

05 Julho 2018 | 15h15

DAKAR, SENEGAL - Sua bandeira tem a imagem de uma pombo e o seu hino nacional fala dos “heróis que irrigaram a terra com o seu sangue”. “Glória ao pai por tornar-vos uma nação, alegria eterna”, diz a letra. “Ambazonia, terra de liberdade”.

A nação da Ambazonia não existe oficialmente. Mas uma batalha violenta por causa das tentativas de criá-la nas áreas de língua inglesa de Camarões, onde predomina o francês, está em franca escalada. Escolas, lares e aldeias foram incendiadas. As viagens entre algumas cidades estão bloqueadas.

Há um ano e meio o exército camaronês está sendo acusado de espancar e prender pessoas suspeitas de serem separatistas, queimando as casas e matando os manifestantes.

Por sua vez, os separatistas pegaram em armas. Eles são acusados de queimar mercados, decapitar soldados e sequestrar pessoas que suspeitam de traição.

Vídeos que supostamente mostram abusos de ambos os lados circularam nas mídias sociais, agravando as tensões. A propaganda e as mentiras proliferam. Os militares chamam os separatistas de “terroristas”, enquanto os separatistas - muitos da diáspora camaronesa - acusam os militares de “genocidas”.

“Vemos a situação degenerando de uma crise em um conflito”, afirmou Gaby Ambo, diretor executivo do Finders Group Initiative, um grupo de direitos humanos de Camarões. “E se nada for feito imediatamente, se transformará em uma guerra civil com graves consequências”.

Os separatistas de língua inglesa lutam há dezenas de anos pelo reconhecimento da Ambazonia. Entretanto, os apelos para a secessão aumentaram nos últimos meses.

O governo de Camarões recusou-se a participar do diálogo com os separatistas, em grande parte porque não quer perder parte do seu território.

“Não é possível sentar à mesa com grupos que gostariam de dividir a nação”, disse Issa Tchiroma Bakary, ministro da Informação de Camarões. “Secessão”, declarou, “isto jamais irá acontecer”.

Mas Cho Ayaba, comandante chefe das Forças de defesa da Ambazonia, que dá ordens de sua residência no exterior, está convencido de que a Carta das Nações Unidas confere status de nação à Ambazonia.

Os cidadãos de língua inglesa de Camarões constituem cerca de um quinto da população em duas das dez regiões do país. Muitos anglófonos há muito se sentem ignorados pelo governo de língua francesa, e muitos dos que falam inglês afirmam que foram marginalizados.

Os analistas atribuem muitos problemas ao fato de Paul Biya, um dos chamados presidentes vitalícios do continente, estar no cargo desde o início dos anos 1980. Seu controle sobre o poder tornou difícil, para todos os que não fazem parte de sua órbita, fazer carreira no funcionalismo público ou nas fileiras políticas.

No final de 2016, a polícia atirou contra um grupo de manifestantes de língua inglesa. Pelo menos 20 deles morreram, segundo a Anistia Internacional. Há vários meses, os separatistas das Forças de Defesa da Ambazonia pegaram em armas.

Um relatório da Anistia Internacional afirma que, desde setembro do ano passado, separatistas armados mataram 44 membros das forças de segurança e atacaram professores e estudantes que não participaram de um boicote das escolas.

Segundo o relatório, a polícia camaronesa prendeu centenas de ativistas e jornalistas, torturando cerca de vinte menores para obter confissões.

O coronel Didier Badjeck, um porta-voz da defesa do país, declarou que as forças armadas respeitam os direitos humanos. E acrescentou que os militares prendem pacificamente separatistas que depõem suas armas.

Mas se isto não acontecer, afirmou: “Somos militares. Atiraremos neles. Esta é uma guerra. Vocês não podem entrar em um país soberano, armar-se e atirar na polícia e nos militares”.

Observadores das organizações dos direitos humanos preferem não usar o termo genocídio, afirmando que, embora pareça que os militares cometeram abusos, não empreenderam a chamada limpeza étnica. Eles acusaram os separatistas de pôr em risco as vidas de inocentes. Mas Ayaba disse que os ataques contra a polícia foram legítimos.

Dezenas de milhares de pessoas fugiram, algumas atravessaram a fronteira na Nigéria. Outras, que ainda residem em áreas anglófonas, vivem com medo. Uma delas, Peter Tafu, disse que seus seis filhos não vão à escola há mais de um ano e meio.

“Se meus filhos forem à escola”, ele disse, “não sei se voltarão para casa vivos”.

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