Tomas Bravo/Reuters
Tomas Bravo/Reuters

Violência aumenta no México mesmo com condenação de El Chapo

Punir os chefões mais perigosos do comércio da droga não acabou com o tráfico

Azam Ahmed, The New York Times

25 de julho de 2019 | 06h00

Apesar do estardalhaço provocado pela queda de Joaquin Guzman Loera, o chefão da droga conhecido como El Chapo, a narrativa da guerra da droga continua a mesma. No México, muitos afirmariam que a guerra só se intensificou desde a sua extradição e a recente condenação à prisão perpétua pelo contrabando de toneladas de drogas nos Estados Unidos, e por deixar atrás de si um rastro de morte. E a julgar pelos números de homicídios nos últimos anos, um persistente recorde, é fácil compreender o por quê.

“Estamos experimentando muita violência”, afirmou José Luis Córdoba, 47, que trabalha em uma empresa de segurança privada na Cidade do México. “Por isso, não, definitivamente isto não terá fim ou mudará só porque ele foi condenado à prisão perpétua”. Os chefões caem, mas novos surgem, e o narcotráfico se mantém sem perder a sua força.

No meio de tudo isto, o número de mortes aumenta, principalmente no México. As vidas perdidas ultrapassaram os patamares alcançados quando Guzman estava na rua, administrando um império de assassinos. Punir os chefões mais perigosos do comércio da droga não acabou com o tráfico.

Praticamente ficou comprovado que a chamada Estratégia dos Líderes promovida pelos Estados Unidos - pela qual as autoridades tentam desmantelar os cartéis da droga prendendo os seus chefes - fracassou. Em lugar de destruir as organizações criminosas, a política produziu filiais menores, menos disciplinadas e frequentemente mais mortais.

“Infelizmente, o México não tem a capacidade de lidar com a fragmentação dos cartéis e a vasta rede que é o Cartel de Sinaloa”, disse Giovanni Márquez, 27, economista mexicano, referindo-se ao cartel de Guzman. “No final, esta não é uma novidade para nós”. Antes da captura de Guzman, o seu cartel de Sinaloa era a principal peça do mercado de narcóticos.

Com menos inimigos para eliminar, os homicídios foram declinando até 2014. Mas depois da sua captura, a luta para acabar com o domínio de Sinaloa no negócio se intensificou, contribuindo para alimentar uma guerra pelo controle. No México, surgiu uma nova força, o Cartel da Nova Geração de Jalisco, que luta com outros pelo domínio das rotas do tráfico através do país rumo aos Estados Unidos. As mortes estão aumentando em Acapulco, Tijuana e Ciudad Juárez. Mas também cresceram em áreas antes tranquilas, como no estado costeiro de Colima.

No entanto, os analistas afirmam que é importante prender líderes como Guzman, que drogou e abusou de meninas de 13 anos enquanto estava à frente da sua organização, segundo testemunhas no processo. “A longo prazo, não prender os líderes pode acabar sendo entendida como uma mensagem de impunidade”, alertou Jorge Chabat, especialista em segurança da Universidade de Guadalajara. Entretanto, a sua captura não contribuiu em nada para diminuir a violência.

“A dinâmica fundamental em que se baseia a guerra contra as drogas permaneceu a mesma em meio século”, disse David Shirk, um professor da Universidade de San Diego e diretor do programa Justiça no México da instituição. “Não quero chamá-la de guerra fútil, mas de que outra maneira poderia defini-la?” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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