Mohammad Ismail/Reuters
Mohammad Ismail/Reuters

Violência e crise política alimentam sentimento de desespero no Afeganistão

O governo reconhece que a única saída seria uma reconciliação com o Taleban, mas os insurgentes não parecem dispostos a um acordo de paz

Mujib Mashal, The New York Times

24 de outubro de 2018 | 06h00

CABUL, AFEGANISTÃO - Nos últimos 17 anos, no Afeganistão, marcados pela guerra e pela crise, ninguém se lembra de uma época como a atual, repleta de perigo e desespero a cada passo.

Um ex-ministro disse que mal conseguia encontrar forças para sair da cama pela manhã. Depois de anos trabalhando em empregos do governo e da sociedade civil, uma jovem profissional foi às lágrimas ao tentar explicar o motivo de sua falta de esperança. Um poeta disse que a fonte de inspiração de seus versos tinha se esgotado.

"Sempre que algo de ruim acontecia, eu recorria à poesia - os versos me traziam calma", disse o poeta, Sajid Bahar, 26 anos, que vive na cidade de Khost. "Faz meses que não consigo escrever. Não encontro calma. Quando me sento e tento me concentrar num incidente para um poema, outros 30 episódios me vêm à cabeça. Minhas palavras não são fortes o bastante para todos eles".

Se há um tema em comum nessa crescente sensação de alarme, este seria a dificuldade de todos em enxergar uma saída para um verdadeiro campo minado de crises. Todos os problemas enfrentados pelo Afeganistão são urgentes. Juntos, eles criaram uma ameaça à existência.

Autoridades afegãs e estrangeiras consideram insustentáveis as perdas das forças de segurança do governo para o Taleban. Levando em conta todos os lados do conflito, o saldo diário chega frequentemente a 100 mortos.

Os governantes reconhecem que a única saída é uma reconciliação política com o Taleban - embora os insurgentes não tenham sinalizado que estariam dispostos a aceitar pontos elementares do programa democrático daqui, incluindo a realização de eleições e a garantia dos direitos das mulheres.

Ao mesmo tempo, uma campanha de atentados suicidas cada vez mais intensa por parte de fanáticos do Estado Islâmico em Cabul aprofundou as divisões sectárias. A violência contra a minoria xiita no Afeganistão levou a população a duvidar das promessas de proteção feitas pelo governo, fomentando temores quanto à sobrevivência da união nacional no país.

Mas muitos afegãos ainda acreditam na promessa de algum tipo de democracia. Apesar das tensões e ameaças de violência por parte do Taleban, uma eleição parlamentar foi realizada com sucesso no dia 20 de outubro.

Pelo menos 10 candidatos e dúzias de seus partidários foram mortos, incluindo um candidato ao parlamento, Abdul Jabar Qahraman, assassinado na província de Helmand por uma bomba instalada pelo Taleban sob o seu assento.

A eleição, realizada com um atraso de três anos, foi marcada pela violência. Uma contagem preliminar realizada pelas autoridades indicou que pelo menos 78 pessoas foram mortas, entre elas 28 membros das forças de segurança, e outras 470 ficaram feridas, em sua maioria civis.

Em duas províncias, nem foi possível realizar a votação. Apesar da violência, quatro milhões de pessoas, ou metade do eleitorado afegão, esperaram horas em filas para depositar seu voto.

Autoridades afegãs e ocidentais dizem que o Paquistão insiste em proteger os líderes da insurgência e se recusa a usar seu poder de influência para deter o avanço do Taleban. Além disso, Rússia e Irã estariam ampliando sua ajuda ao Taleban.

Um recente esforço coordenado do exército e da espionagem resultou numa rara pausa nos atentados suicidas. Suspeitos foram recolhidos em grandes números, desmontando um pouco as redes dos insurgentes, dizem as autoridades. Mas o medo do próximo atentado continua no ar, acompanhado da certeza que as maiores vítimas serão os afegãos comuns.

O professor passa por guardas armados no caminho à escola. O café fica brevemente deserto após uma explosão, retomando mais tarde o movimento normal. O estudante que sobreviveu a um massacre num auditório chega para fazer sua prova dias mais tarde, com uma atadura na cabeça.

Alguns enxergam a ruína de uma estrutura criada pela presença estrangeira como uma provação necessária que os levará a um rumo novo e mais sustentável.

"Tínhamos uma economia falsa, dinheiro falso e prosperidade falsa. A segurança era garantida por estrangeiros", disse Mirwais Arya, que tenta ampliar uma pequena rede de cafés e lanchonetes chamada Mazadar.

"Tenho a impressão de que as coisas vão piorar com a ruína de toda essa falsidade, e chegaremos à beira do abismo antes de haver melhorias", disse ele. "Mas, uma vez arruinada, veremos que, por baixo, a sociedade realmente terá se transformado".

Outros seguem com a rotina de defesa dos direitos e atuação política. No núcleo dessa resistência há uma nova geração de afegãos que chegou à idade adulta nos últimos 17 anos.

O presidente Ashraf Ghani enxerga nesse grupo a chave para escapar do atoleiro. Ele nomeou jovens funcionários para importantes cargos do governo, ignorando as críticas que o acusaram de abandonar a experiência num momento crucial. Mas milhares de outros jovens estão fugindo, preferindo uma arriscada jornada mesmo sabendo que a Europa claramente fechou suas portas.

A eleição parlamentar foi vista como uma disputa entre uma elite entrincheirada no poder contra jovens afegãos de boa escolaridade que decidiram ficar no país e tentar a sorte.

"Essa eleição é uma arena para duas gerações: aquela ligada a glórias e problemas do passado, e uma geração mais jovem que deseja construir o Afeganistão do futuro", disse Sami Mahdi, candidato ao parlamento em Cabul. 

"As pessoas ainda têm muita esperança para essa nova geração", disse Mahdi, “que poderá enfrentar a corrupção, os senhores da guerra e os estereótipos". / Zabihullah Ghazi contribuiu com a reportagem.

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