Heather Sten/The New York Times
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Aos 81 anos, Virginia Jaramillo tem sua primeira mostra em um museu

Ela estava ansiosa por discutir os seus quadros e a sua carreira, principalmente sua exposição na Menil Collection em Houston

Ted Loos, The New York Times – Life/Style

23 de outubro de 2020 | 05h00

HAMPTON BAYS, NOVA YORK - Aos 81, Virginia Jaramillo está ficando muito boa com as linhas – fisicamente, desenhando-as com grande efeito, mas também metaforicamente, por atravessá-las, sendo uma mulher de origem mexicana no mundo da arte. Aos 81 anos, ela passou os últimos 60, aproximadamente, refletindo sobre a “importância de uma linha”, ela disse, quando cheguei ao seu estúdio em Long Island, numa manhã de sábado em agosto.

Ela estava ansiosa por discutir os seus quadros e a sua carreira, principalmente sua exposição na Menil Collection em Houston. “Virginia Jaramillo: The Curvilinear Paintings, 1969-1974”. A mostra na Menil é a primeira individual de Virginia em um museu. A primeiríssima.

No estúdio espaçoso, em sua casa de dois andares, havia algumas de suas linhas em ação. Ela andou trabalhando em um quadro retangular, grande, “Quantum Entanglement”, em que marcas finas, onduladas em cores brilhantes saem de uma área enevoada de cada lado de um fundo preto, e depois se mesclam no meio.

“É uma teoria científica sobre duas partículas no espaço que interagem”, ela explicou, falando do título. “Não importa a que distância elas estejam em uma galáxia, sempre podem relacionar-se uma com a outra. Pode ser por um centésimo de segundo, mas sempre há uma vibração”. Virginia tem vibração de sobra. Ela ri e diz palavrões com muita facilidade, e preparou nozes e doughnuts de chocolate para mim.

Estávamos de máscara, mas não me pareceu muito preocupada com uma entrevista presencial durante uma pandemia. A mostra Menil tem apenas oito quadros, mas demonstra sua capacidade de gerar impacto com uma composição de uma simplicidade enganadora.

“Green Dawn” (1970), por exemplo, é um retângulo verde com apenas uma linha amarela sutil, ondulada, que parece vagar partindo do canto superior direito. “A linha está empreendendo uma jornada - mas muda de ideia; é um flerte”, disse Kellie Jones, professora de história da arte e arqueologia na Columbia University, 1ajudou que em 2011 ajudou a dar um impulso à carreira de Virginia. Jones incluiu Virginia na mostra “Now Dig This!: Art and Black Los Angeles, 1960-1980“, no Hammer Museum de Los Angeles.

Virginia experimentou e evoluiu no campo da abstração; e passou mais de dez anos fazendo trabalhos em papel e então voltar para a pintura. Sua maestria com os seus materiais foi, e continua sendo considerável; o autor de uma resenha no jornal “The New York Times“ em 1984 escreveu que ela era capaz de usar “a capacidade de absorção natural do papel para criar formas sutis que o olhar mal consegue captar”.

Ao longo dos anos, ela passou a utilizar cores mais variadas, mais brilhantes, que oferecem múltiplos pontos de acesso para o espectador. A sua arte começou como um experimento com blocos de cor, o emparelhamento de tons contrastantes, e foi se afinando à medida que continuou seguiu em frente. “Eu só continuei simplificando, simplificando”, afirmou. “Abandonei a forma e fiquei com as linhas”.

As obras curvilíneas na mostra da Menil são uma espécie de ponto em se dá uma mudança significativa. “Elas representam um avanço para a artista, e criam o terreno para a germinação de suas obras”, disse Michelle White, a curadora do museu que organizou a mostra.

Os quadros começam a enfatizar o espaço negativo, alimentado pelo crescente interesse de Virginia pela arte japonesa. A marchande de Virginia em Nova York, a Hales Gallery em Chelsea, também tem uma exposição de dez dos seus quadros dos anos 1970 e 1980, “Conflux”, que pode ser vista até 31 de outubro. Virginia nasceu em El Paso, no Texas, mas seus pais se mudaram para Los Angeles quando ela tinha dois anos.

Aos 11, seu pai, motorista de caminhão, lhe deu de presente um livro que ensinava a desenhar. Ele queria estimular o seu talento, com um conselho: “ Nunca se envergonhe de sua herança cultural”. Virginia disse que o fato de crescer em uma parte multicultural da região leste de Los Angeles – onde se mesclavam brancos, latinos e japoneses – lhe proporcionou a confiança de desenvolver qualquer tradição artística que lhe agradasse.

Suas maiores influências na época foram os expressionistas abstratos Clyfford Still e Barnett Newman, e o designer Charles Eames; posteriormente, nos anos 1970, ela impressionou muralistas mexicanos, principalmente David Alfaro Siqueiros. Cursou o Otis Art Institute (hoje Otis College of Art and Design) com um estudante que ela conhecera nas aulas de arte do secundário, Daniel LaRue Johnson; eles casaram em 1960. Johnson, que era também um excelente artista abstrato, morreu em 2017.

Com pouco mais de 20 anos, Virginia foi a primeira história de sucesso do seu círculo. “No nosso grupo etário, ela foi a primeira a fazer um significativo progresso junto ao público”, disse o escultor Melvin Edwards, amigo de longa data, referindo-se a uma concessão de aquisição da Fundação Ford que ela recebeu em 1962. “Ela é uma excelente pintora”, acrescentou Edwards.

“Sempre foi quieta, forte, sutil e profunda.” Uma viagem a Paris em 1965 foi fundamental para a formação de Virginia e Johnson. “Foi o que abriu a minha percepção, em termos estéticos”, ela disse. O casal decidiu mudar-se para Nova York, onde morou por 45 anos, na maior parte em SoHo. Em 1971, ela fez parte de uma exposição histórica, “The DeLuxe Show”, iniciada e financiada pelos fundadores da Menil Collection, John e Dominique de Menil. (A atual exposição da obra de Virginia no museu visa comemorar o aproximar-se do 50º aniversário da “The DeLuxe Show”.)

Curada pelo artista Peter Bradley, a mostra original foi realizada no DeLuxe Theater, um imóvel abandonado na Fifth Ward de Houston, um bairro pobre em grande parte negro – na época, um local ousado e inusitado para uma mostra abstrata. Na época, foi a rara mostra integrada, com artistas brancos e negros, entre eles Sam Gilliam, Al Loving, Kenneth Noland e Larry Poons – e Virginia Jaramillo, a única mulher e a única artista latino.

Ela foi representada por duas obras, uma das quais era “Green Dawn”. Foi um primeiro sucesso promissor para uma pintora, e em 1972, Virginia foi incluída na exposição anual do Whitney Museum of American Art, precursor da Biennal. Mas Virginia e Johnson, que era negro, notaram algo.

“Nós éramos convidados para as inaugurações, mas não para as festas que se seguiam”, ela disse falando a respeito das suas interações no mundo artístico. “Era lá que os verdadeiros negócios se realizavam”. E acrescentou que no entender dos artistas negros, o sistema era “armado para a gente fracassar”.

Com o atual reconhecimento racial, Virginia disse que admite a importância dos movimentos como Black Lives Matter, e que o considera parte de uma longa luta. “Eu fui casada com um negro durante o movimento pelos direitos civis”, ela disse. “Eu vivi este tipo de coisas”.

Como casal, Johnson e Virginia enfrentaram “tempos muito difíceis” durante grande parte de sua vida adulta, ela disse, recorrendo ao sistema da barganha para pagar as contas, e vendendo obras de arte da maneira que podiam. “Danny enchia o carro cerca de duas vezes por semana com pequenas peças que havíamos feito, e dizia: ‘Bom, Vou trazer de volta algum dinheiro para o mercado”.

A volta da vitória proporcionada pela mostra na Menil certamente contribuirá para o seu momento de glória, que tem sido persistente apesar dos obstáculos. “Eu continuo trabalhando”, afirmou Virginia. “Teria sido fantástico se este momento tivesse acontecido mais cedo, mas, afinal, aconteceu”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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