Samyukta Lakshmi para The New York Times
Samyukta Lakshmi para The New York Times

Visita de mulheres a templo hindu gera protestos na Índia

Lei que proibia a presença de mulheres no Templo Sabarimala foi derrubada, mas hindus ainda não as toleram no santuário

Kai Schultz, The New York Times

23 de janeiro de 2019 | 06h00

KOCHI, ÍNDIA - Em uma manhã deste mês, Bindu Ammini estava no pé de uma trilha no sul da Índia e ergueu os olhos: faltavam cinco quilômetros para que ela entrasse para a história. Duas horas mais tarde, às 3h45, Bindu e uma amiga se tornaram as primeiras mulheres a entrarem no Templo Sabarimala, um santuário hindu construído há séculos, depois que a suprema corte da Índia derrubou uma antiga regra proibindo mulheres em idade fértil de visitarem o templo.

Na esteira da decisão, uma dúzia de mulheres tentaram visitar o templo em outubro. Nenhuma delas conseguiu concluir a visita, pois havia homens gritando contra elas e arremessando cocos em sua direção. Mas um vídeo da jornada de Bindu divulgado no dia 2 de janeiro mostra duas mulheres trajando longos vestidos pretos caminhando por um arco dourado. "Nossa visita foi muito tranquila", diz à câmera Bindu, 40 anos. 

Algumas horas mais tarde, o restante da Índia despertou. Logo instaurou-se um pandemônio. Manifestantes no estado de Kerala, onde fica o templo, arremessaram bombas caseiras contra a polícia. Mais de 3 mil pessoas foram detidas. Pelo menos uma morreu. Dúzias ficaram feridas. Horas após a visita das mulheres, um sacerdote fechou o Templo Sabarimala para um "ritual de purificação", evidenciando para alguns que a proibição tinha como base a crença segundo a qual mulheres em idade reprodutiva são consideradas sujas.

Em uma entrevista posterior, Bindu, que foi obrigada a buscar esconderijos depois de visitar o templo, disse que a viagem valeu a pena. Mulher de casta inferior que cresceu em meio à pobreza, Bindu enfatizou que sua entrada no templo não deveria ser vista como um ato de ativismo. Ela estava simplesmente exercendo seu direito constitucional à igualdade.

"Não queríamos começar uma confusão", disse ela. "O objetivo era simplesmente visitar o templo. Para a próxima geração de mulheres, trata-se de uma grande motivação".

Todos os anos, milhões de pessoas esperam horas para subir os 18 degraus banhados a ouro que levam ao Templo Sabarimala, um dos santuários mais sagrados do hinduísmo. Mas, durante séculos, os peregrinos diziam observar uma proibição prática à presença de mulheres com idades entre 10 e 50, imaginando que aceitar mulheres em idade reprodutiva no interior do templo perturbaria lorde Ayyappa, a divindade celibatária do santuário. O tribunal de Kerala transformou a tradição em lei em 1991, agora derrubada pela suprema corte.

Diante da onda de protestos, o Partido Comunista da Índia, que governa Kerala, ofereceu proteção às mulheres que desejassem visitar o templo. Mas a polícia teve dificuldade em conter as multidões interrompendo a trilha. Detalhes das mulheres que tentaram visitar o templo foram divulgados nas redes sociais. Elas foram tachadas de "inimigas do hinduísmo", maoístas, ateias e muçulmanas.

Bindu disse não ter ficado surpresa: muitos dos manifestantes eram adeptos do nacionalismo hindu. Repercussões da decisão da suprema corte incentivaram grupos de extrema direita a promoverem "interesses bramânicos" contrários às mulheres, disse ela.

Ela se aproximou de grupos esquerdistas enquanto estudava na Universidade de Calecute, entrando para o Partido Comunista da Índia. Obteve um diploma de direito e avançou na hierarquia do Partido Comunista indiano. Com frequência, Bindu era uma das únicas mulheres presentes nas reuniões. Cansada da direção seguida pelo partido, ela abandonou a política oito anos atrás e encontrou estabilidade como professora de direito na Universidade Kannur, em Kerala.

Então, notícias do veredicto da suprema corte chamaram a atenção dela. Em dezembro, Bindu entrou para um grupo do Facebook destinado a mulheres interessadas em visitar o templo. Foi ali que ela conheceu Kanakadurga, 39 anos, funcionária do governo que usa apenas um nome. As duas formaram uma dupla.

Kanakadurga disse que, depois de visitar o templo e ficar num esconderijo, sua sogra a espancou tanto que ela foi hospitalizada. Bindu, por sua vez, disse pensar com realismo a respeito da própria segurança.

"Eles podem me atacar, podem me matar, mas não sinto medo", disse. "Estou lutando pela minha existência".

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