Erin Trieb / The New York Times
Erin Trieb / The New York Times

Viúva do jornalista Jamal Khashoggi luta por justiça

Crítico ao governo da Arábia Saudita, Khashoggi foi morto dentro do consulado de seu país em Istambul

Carlotta Gall, The New York Times

15 de maio de 2019 | 06h00

ISTAMBUL - Durante dois dias, enquanto uma equipe da polícia e de funcionários forenses começava a investigação do assassinato de Jamal Khashoggi, sua noiva, Hatice Cengiz, aguardou em frente ao Consulado saudita, ignorando as afirmações sauditas de que ele havia saído do edifício.

“Tentei fazer a coisa certa na medida do possível”, ela afirmou. “Mesmo que se tratasse de outra pessoa, um caminhoneiro por exemplo, teria feito a mesma investigação. Jamal foi morto por causa de suas convicções, e eu estou aqui defendendo sua mesma posição”.

Hatice falou com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, reuniu-se com o presidente Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, concedeu uma longa entrevista à televisão e colaborou para o livro “Jamal Khashoggi: Life, Struggle and Secrets”. Arrasada pela dor e atacada online, ela deixou de aparecer em público. Agora, está mudando sua posição, determinada a encontrar respostas  e justiça por ele. “É um dever moral’, afirmou.

O corpo de Khashoggi nunca foi recuperado. As autoridades sauditas declararam que o dissidente havia sido estrangulado por agentes sauditas e, em seguida, esquartejado, mas muitas perguntas continuam sem resposta. Uma das principais é se o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman teria ordenado a operação. Cengiz, 37, foi um personagem inesperado  e tardio na vida e na morte do jornalista saudita.  Eles mantiveram contato apenas por cinco meses, mas estavam prestes a casar e a se estabelecerem juntos quando ele foi assassinado.

Com seus quatro irmãos, ela pertence a uma família de classe média conservadora, e estudou em um seminário religioso na cidade turca de Bursa. A família posteriormente se mudou para Istambul. Seu pai, comerciante de utensílios de cozinha, era suficientemente abastado para mantê-la ao longo de sua formação acadêmica, que incluiu dois anos de estudos arábicos no Egito e um período em Omã, onde realizou a sua pesquisa para a tese de mestrado. Agora, ela prepara o doutorado sobre os países do Golfo Pérsico.

Conheceu Khashoggi em uma conferência em Istambul, em maio de 2018, quando assistia a um painel de discussões do qual Kashiggi fazia parte, e pediu uma entrevista com ele. Nunca a publicou, mas eles começaram a corresponder-se por e-mail. Em julho, voltaram a se encontrar em Istambul, e Khashoggi deixou claras as suas intenções. “Ele me disse que estava sozinho e infeliz. Fiquei bastante surpresa”, ela lembra. “Eu via um ser humano muito diferente”.

Os dois - ela com 36 anos, e ele com 59 - começaram um profundo relacionamento amoroso, com uma paixão comum pela política e pela justiça para o mundo árabe. Uma semana mais tarde, ele a pediu em casamento, e ela aceitou. “Não éramos mais crianças - éramos dois adultos, e imediatamente tivemos uma conversa racional sobre como poderíamos compartilhá-la”, contou.

A relação foi intensa, principalmente porque Khashoggi atravessava um período conturbado no qual decidira romper com o seu país. Depois de uma longa carreira como leal partidário da monarquia saudita, ele tornara-se um dissidente. Mudara-se para os Estados Unidos um ano e meio antes, e começara a escrever uma coluna para o jornal “The Washington Post”. O pai de Hatice tinha dúvidas a respeto do seu casamento com Khashoggi por causa da diferença de idade, mas permitiu que ela decidisse. Apenas pediu a Khashoggi que comprasse um apartamenteo e fixasse residência.

Khashoggi comprou o apartamento, e, no dia 2 de outubro, o casal foi para o consulado saudita para obter os papéis que lhe permitiriam casar com Hatice. Os móveis chegariam dois dias mais tarde, ela disse. Hatice lembra o entusiasmo dele com a perspectiva da nova vida. “Ele dizia sempre: ‘A coisa mais certa da minha vida foi casar com você’”, ela disse. “’Ninguém me compreende como você’”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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