Taylor Glascock para The New York Times
Taylor Glascock para The New York Times

Para muitos viúvos, a hora mais difícil é a da refeição

“O momento de preparar a refeição e se alimentar costuma ser um dos aspectos mais ignorados do luto", diz Heather Nickrand, autora do livro "Terapia Culinária do Luto: cozinhando para um"

Amelia Nierenberg, The New York Times

24 de novembro de 2019 | 06h00

GLEN ELLYN, ILLINOIS - Quando o marido dela, Bill, morreu seis anos atrás, Michele Zawadzki se preparou para o luto que viria. Os dois viveram juntos por 47 anos - desde o ensino médio - e ela sabia que seria difícil ficar sem ele. Mas o que ela não esperava era a dificuldade em acender o forno.

Ou a dificuldade de ir a um restaurante com os amigos e ser a única a voltar sozinha para casa. Ou a dificuldade de caminhar pelos corredores do supermercado com os produtos que ele gostava de comprar. “Por causa da comida, há gatilhos para a memória por toda parte", disse ela.

O elo entre comida e luto é profundo: em quase todas as culturas, uma comunidade traz pratos para os sobreviventes nas semanas após a morte de um ente querido. Mas, para um cônjuge, acostumado a dividir todas as refeições com a cara-metade, o pesar pode durar muito tempo, renovado constantemente pelo ritmo cotidiano de ir às compras, cozinhar e comer. Conselheiros que ajudam na superação do luto dizem que foi somente na década mais recente que grupos sem fins lucrativos começaram a abordar diretamente a relação entre pesar e alimentação.

Nas refeições organizadas pela The Dinner Party, que já se expandiu para mais de 100 cidades em todo o mundo desde a sua fundação em 2014, pessoas da faixa dos 20 ou 30 anos que perderam alguém se reúnem com regularidade para compartilhar impressões. Nos subúrbios de Chicago, um grupo chamado Culinary Grief Therapy aborda diretamente o elo entre comida e viuvez. O grupo nasceu de um estudo realizado em 2016 a respeito das dificuldades da alimentação e do seu preparo entre as viúvas.

“O momento de preparar a refeição e se alimentar costuma ser um dos aspectos mais ignorados do luto", disse Heather Nickrand, principal autora do estudo. “Quantas vezes perguntamos aos viúvos: ‘Como estão as compras e a cozinha? Está se alimentando direito?’”

Ela fundou a Culinary Grief Therapy, que ensina a cozinhar, comer e fazer compras para uma pessoa. Michele é uma das cerca de 30 viúvas que chegam a uma grande cozinha industrial para aprender receitas que levam um mínimo de ingredientes: legumes assados com azeite e sal, um frango assado simples, macarrão em porções individuais.

“No começo, eu nem queria cozinhar", disse Diane Kantak, 78 anos, que dividia a cozinha com Michele. “Eu simplesmente preparava um cereal.” Diane já estava casada há 54 anos quando o marido, Francis, morreu em 2013. As duas conversavam enquanto picavam os ingredientes. Michele ajudou uma senhora mais velha a destampar um jarro. Quando o grupo se sentou para comer, muitos falaram da dificuldade de planejar o cardápio.

“São coisas simples. Pergunto a mim mesma: ‘o que quero jantar?” disse Pat Smith, 60 anos. “E a resposta é, ‘Não sei. O que eu quero para o jantar?’” Michele concordou: “Não temos mais alguém para trocar ideias e sugestões". Para os cônjuges que não eram os principais responsáveis pela alimentação, a viuvez traz novos desafios.

Muitos trocaram a comida da mãe pela comida do cônjuge. “Ainda tenho os temperos dela no armarinho", disse Johnnie Footman, que já passou dos 70 anos, em uma reunião recente de um grupo masculino de enlutados no Hospital Calvary, Nova York. “Deixo eles ali como lembrança, ainda que não os use.”

Deborah Stephens, 64 anos, que vive na Carolina do Sul, perdeu 32 quilos desde a morte do marido, David, dois anos atrás. Durante meses, ela ficou dias à base de café e um pedaço de queijo à tarde. “A última coisa que eu queria era comida", disse ela. O marido adorava comer, e ela adorava cozinhar para ele.

O próprio sabor pode parecer uma traição. Um cônjuge aproveita o aroma dos cogumelos na manteiga enquanto o outro já não pode fazer o mesmo. Todos os anos, no aniversário do primeiro encontro do casal, Michele vai ao pequeno restaurante que eles frequentaram quando ela tinha 15 anos.

Ela pede um chocolate batido e um sanduíche de pernil, que os dois comeram naquela data há mais de 50 anos, e fica ali sentada, pensando nele. “Ele deve estar me observando e pensando, ‘É sério, Michele? Sério mesmo?’” disse ela, rindo. “Mas, para mim, funciona. Estou me apegando a essas memórias, e finalmente posso rir na companhia dele de novo.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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