Vivendo com TOC durante uma pandemia

Vivendo com TOC durante uma pandemia

A covid-19 piorou as coisas para muitas pessoas com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Mas também trouxe um ponto positivo, a telemedicina

Jane E. Brody, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2021 | 05h00

A maioria das pessoas se comporta de uma ou mais maneiras que os demais podem considerar peculiar, e eu não sou uma exceção a essa regra. Quero que minhas roupas combinem, dos sapatos aos óculos e tudo mais que houver entre eles (inclusive minha lingerie - um desafio na hora de fazer as malas para uma viagem). Se pessoas que me visitam usam minha cozinha, peço que guardem as coisas exatamente no lugar em que as encontraram. Ao organizar meus móveis, bancadas e objetos na parede, esforço-me arduamente para encontrar simetria. E coloco etiquetas com as datas de validade em alimentos embalados para, depois, organizá-los em minha despensa em ordem cronológica.

Sei que não sou a única com peculiaridades como essas que outros podem considerar "TOC" demais, uma referência ao transtorno obsessivo-compulsivo. Mas a síndrome clínica, na qual as pessoas têm pensamentos recorrentes espontâneos que levam a hábitos repetitivos, é muito mais do que uma coleção de comportamentos peculiares. Em vez disso, é uma condição neuropsicológica crônica altamente angustiante que pode desencadear ansiedade grave e dificultar a convivência na escola, no trabalho ou em casa.

Acredita-se que, para alguém com TOC, algumas circunstâncias ou ações que a maioria das pessoas consideraria inofensivas, como tocar em uma maçaneta, têm consequências potencialmente terríveis que exigem respostas corretivas extremas, quando não, evitá-las completamente. Uma pessoa pode ter tanto medo de germes, por exemplo, que apertar a mão de alguém pode obrigá-la a lavar a própria mão 10, 20 ou até 30 vezes para ter certeza de que está limpa.

Para muitos, a pandemia de covid-19 só piorou as coisas. Pesquisas anteriores descobriram uma correlação potencial entre a experiência traumática e o aumento do risco de desenvolver TOC, assim como a piora dos sintomas. Uma pessoa com TOC que já acredita que germes perigosos estão à espreita por toda parte, como era de se esperar, tornou-se paralisada pela ansiedade devido a disseminação do novo coronavírus. E, de fato, um estudo dinamarquês publicado em outubro de 2020 descobriu que os primeiros meses da pandemia resultaram em aumento da ansiedade e de outros sintomas tanto em pacientes recém-diagnosticados como naqueles que já estavam em tratamento com idades entre 7 e 21 anos.

Quão grave é o TOC?

O transtorno geralmente ocorre em famílias e diferentes familiares podem ser afetados em graus variados. Os sintomas da doença muitas vezes começam na infância ou na adolescência, afetando cerca de 1% a 2% dos jovens, chegando a atingir aproximadamente um a cada 40 adultos. Cerca de metade dessas pessoas são gravemente afetadas pelo transtorno; 35% são afetadas moderadamente e 15% são afetadas ligeiramente.

Não é difícil ver como a doença pode ser tão perturbadora. Uma pessoa com TOC que está preocupada com a possibilidade de ter ou não trancado a porta, por exemplo, talvez se sinta obrigada a destrancá-la e trancá-la outra vez continuamente. Ou talvez fique excessivamente estressada em antecipação a um desastre se uma rotina rígida, como ligar e desligar uma luz 10 vezes, não for seguida antes de sair de um cômodo. Algumas pessoas com TOC são atormentadas por pensamentos tabu sobre sexo ou religião ou pelo medo de fazer mal a si mesmas ou a outras pessoas.

O comediante Howie Mandel, atualmente com 65 anos, disse ao site de notícias de saúde MedPage Today em junho que sofre de TOC desde a infância, mas não foi oficialmente diagnosticado até muitos anos mais tarde, depois de passar a maior parte de sua vida "vivendo em um pesadelo" e lutando contra uma obsessão por germes. Ele tem trabalhado para ajudar a combater o estigma da doença mental e aumentar a compreensão das pessoas a respeito do TOC, na esperança de que uma maior conscientização em relação à doença favoreça o diagnóstico precoce e o tratamento para evitar seus efeitos prejudiciais à vida.

Como o TOC é tratado?

“Até meados da década de 1980, acreditava-se que não havia tratamento para o TOC”, disse Caleb W. Lack, professor de psicologia da Universidade de Oklahoma Central. Mas, atualmente, afirmou, existem três terapias baseadas em evidências que podem ser eficazes, mesmo para aqueles mais gravemente afetados: psicoterapia, farmacologia e uma técnica chamada estimulação magnética transcraniana (EMT), que envia pulsos magnéticos para áreas específicas do cérebro.

A maioria dos pacientes passa inicialmente por uma forma de terapia cognitivo-comportamental, chamada de prevenção de exposição e resposta. Começa-se com algo menos provável de provocar ansiedade - por exemplo, mostrar um lenço de papel usado a pessoas com medo obsessivo de contaminação - os pacientes são encorajados a resistir a uma resposta compulsiva, como lavar as mãos repetidamente. Os pacientes são ensinados a iniciarem “conversas internas”, explorando os pensamentos frequentemente irracionais que estão passando por suas cabeças, até que seu nível de ansiedade diminua.

Quando eles percebem que nenhuma doença foi provocada depois de se depararem com o lenço, a terapia pode progredir para uma exposição mais provocadora, como tocar o lenço e assim por diante, até que eles superem seu medo irreal de contaminação. Para pacientes particularmente receosos, essa abordagem terapêutica costuma ser combinada com um medicamento que combate a depressão ou a ansiedade.

Um lado bom da pandemia é que ela talvez tenha permitido que mais pessoas fossem tratadas remotamente por meio de serviços de saúde on-line. “Com a telemedicina, somos capazes de fazer um tratamento muito eficaz para os pacientes, não importa se eles estão perto ou longe do terapeuta”, disse Lack. “Sem nunca precisar sair de Oklahoma, posso atender pacientes em 20 estados. Os pacientes não precisam estar em um raio de distância de cerca de 50 quilômetros do terapeuta. A telemedicina é uma verdadeira revolução para pessoas que não querem ou não podem sair de casa.”

Para pacientes com TOC altamente debilitados para os quais nada mais funcionou, a última opção é a estimulação magnética transcraniana (EMT), uma técnica não invasiva que estimula os neurônios do cérebro e ajuda a redirecionar a atividade cerebral envolvida em pensamentos obsessivos e compulsões.

“É como se o cérebro estivesse preso a uma mesma rota e a EMT ajudasse a atividade cerebral a seguir por um caminho diferente”, explicou Lack. Tal como acontece com a exposição e prevenção de resposta, disse ele, a EMT usa exposições provocadoras, mas as combina com estimulação magnética para auxiliar o cérebro a resistir de forma mais eficaz ao impulso de responder.

Em um estudo com 167 pacientes gravemente afetados pelo TOC em 22 instalações clínicas publicado em maio, 58% permaneceram com melhora significativa depois de uma média de 20 sessões com EMT. A agência que regulamenta medicamentos e alimentos nos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) aprovou a técnica para tratar o TOC, embora muitas seguradoras de saúde ainda não ofereçam cobertura para o serviço. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Tudo o que sabemos sobre:
Tocsaúde mentalcoronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.