Sergey Ponomarev para The New York Times
Sergey Ponomarev para The New York Times
Sergey Ponomarev, The New York Times

17 de novembro de 2018 | 06h00

SHOYNA, RÚSSIA - O vilarejo de Shoyna, habitado por pescadores nas geladas praias do Mar Branco, está desaparecendo lentamente sob a areia que engole casas inteiras, com os telhados quase desaparecendo em meio às dunas.

Para as crianças pequenas, o lugar é mágico: um tanque de areia repleto de escorregadores naturais. Para todos os demais, a vida nessa paisagem desolada pode parecer uma luta diária.

Anna Golubtsova vive no segundo andar da sua casa. O piso térreo foi transformado numa praia contra a vontade dela. "Teremos de chamar uma escavadeira para tirar a areia, e repetir o processo ano que vem", disse ela.

Ali perto, outra casa estava tão coberta de areia que os moradores tinham que entrar e sair pelo sótão. De acordo com os habitantes, mais de 20 casas já foram completamente cobertas.

Nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, Shoyna foi um próspero porto de pesca, com antigos noticiários soviéticos contando histórias de pescadores que ultrapassavam suas metas de produção. Mas a pesca excessiva não acabou apenas com as reservas locais: aparentemente, o ecossistema da área foi arruinado. Os pesqueiros acabaram com as algas e sedimentos do leito marinho. E, sem nada para segurar a areia no lugar, as ondas começaram a trazê-la para a praia.

Essa alteração no leito marinho, talvez somada a uma mudança comparável no leito do rio que flui por Shoyna e deságua no Mar Branco, é a principal hipótese para a origem da invasão da areia, aponta Sergey Uvarov, coordenador do projeto de biodiversidade marinha para o World Wildlife Fund na Rússia. Mas nenhum estudo foi realizado.

No verão, pequenos aviões e, às vezes, helicópteros são os principais meios de transporte para se chegar a Shoyna. Evdokiya Sakharova, 81 anos, trabalha como representante informal de boas-vindas na arenosa pista de pouso. Quando ela era jovem, a região era repleta de gramados onde as vacas eram levadas para pastar, e os aldeões tinham as próprias roças perto de suas casas. 

"Lembro de quando o vilarejo era cheio de vida, e não cheio de areia", disse ela.

Em seu auge, a população da aldeia passou da marca de 800 habitantes; hoje, a vila abriga 285 pessoas. Não há sistema de saneamento e é necessário buscar água em poços. As casas são aquecidas com lenha ou carvão. A comida vendida na única loja de Shoyna custa quase o dobro do preço cobrado na cidade mais próxima.

Faz décadas que os moradores debatem a questão de ficar em Shoyna ou procurar outro lugar. O reassentamento pode ser subsidiado por um programa federal de assistência para os moradores das regiões do extremo norte. Muitos jovens vão embora para estudar, trabalhar e viajar. Mas alguns voltam depois de algum tempo: após anos morando no vilarejo, a adaptação à vida urbana pode ser difícil.

"Shoyna tem algo que nos atrai", disse Pavel Kotkin, 21 anos. "Passei quatro anos estudando na cidade e voltei. Amo Shoyna e quero passar a vida aqui".

Mas, e quanto à areia?

"Não vivo sem ela", disse Kotkin. "Meus pés ficam doendo depois de andar no asfalto".

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