James Hill / The New York Times
James Hill / The New York Times

Vladimir Putin busca acelerar medidas para integrar Rússia e Bielorússia

Os dois países eliminaram bilateralmente o controle de imigração e alfândega para seus cidadãos, mas a legislação, bandeira, hino, exército e moeda previstos ainda não se materializaram

Andrew Higgins, The New York Times

04 de julho de 2019 | 06h00

HARADZISCA, BIELORRÚSSSIA - Com seu país sob pressão cada vez maior para se integrar à Rússia, sua vizinha maior e mais forte, um poeta bielorrusso identificou o que acredita ser uma arma potente: uma peça de 2,5 centímetros esculpida a partir de um chifre. O objeto, encontrado nas ruínas de uma cidade antiga nos arredores de Minsk, capital da Bielorrússia, é uma peça de xadrez. 

Para o poeta Gleb Labadzenka, isso prova que seu país existe há um milênio. “Isso significa que, mil anos atrás, havia pessoas aqui sentadas jogando xadrez", disse. “As capitais dos nossos vizinhos - Moscou, Varsóvia, Vilnius - nem mesmo existiam nessa época, mas, aqui, jogávamos xadrez”, brincou.

Na Bielorrússia, como em outras partes da extinta União Soviética, uma luta interminável entre Moscou e seus antigos satélites é frequentemente definida por disputas envolvendo oleodutos e geopolítica. Mas, no centro de tudo, há diferenças consideráveis na história, na cultura e no idioma. E bielorrussos como Labadzenka acreditam que é nessa frente que o país pode resistir melhor à pressão do presidente russo Vladimir V. Putin, que busca acelerar as medidas que levarão à formação de um chamado “estado unido".

Essa entidade mal definida, formada por Rússia e Bielorrússia, foi aceita em meados da década de 1990. Depois de anos em suspensão temporária, ela voltou à pauta conforme Putin pressiona o autoritário presidente da Bielorrússia, Aleksandr Lukashenko, a retomar o ritmo da integração. Os dois países eliminaram bilateralmente o controle de imigração e alfândega para seus cidadãos, mas a legislação, bandeira, hino, exército e moeda previstos ainda não se materializaram.

Especula-se que Putin deseje forçar uma fusão para dar a si uma maneira de permanecer no poder após o fim de seu mandato, em 2024. A integração completa criaria um novo cargo no comando do superestado, cargo que poderia ser ocupado por Putin, impedido pela constituição de permanecer na presidência da Rússia após 2024. Ele nega tais ambições, mas, na Bielorrússia, muitos estão preocupados.

Lukashenko, que se reuniu formalmente com Putin no dia 30 de junho, se mostrou inquieto diante das intenções da Rússia. Mesmo dependente do petróleo russo barato, ele se colocou contra as intromissões de Moscou e buscou uma reaproximação com o Ocidente. Em março, a Bielorrússia adotou um novo “conceito de segurança da informação” com o objetivo de frear a propaganda russa que busca diminuir a autonomia, o idioma e a história da Bielorrússia.

Durante anos, Lukashenko viu pouca necessidade de promover a identidade nacional. Pouco depois de assumir o governo, em 1994, ele realizou um referendo que promovia a integração econômica com a Rússia, dando ao idioma russo status equivalente ao do bielorrusso. Sua opinião começou a mudar em 2014, depois que Moscou anexou a Crimeia e enviou soldados ao leste da Ucrânia sob o pretexto de proteger uma população que fala russo e pertence ao Russky Mir, ou mundo russo.

Lukashenko agora celebra as raízes do país. Em abril, lembrou a história de Polotsk, cidade ao norte que foi o centro de uma antiga potência eslava antes da ascensão de Muscovy, precursor da Rússia. Lukashenko ainda fala principalmente o russo nas aparições públicas, mas, às vezes, recorre ao bielorrusso, idioma que ele já chegou a ridicularizar e considerar inferior.

Ainda que não seja fã de Lukashenko, Labadzenka disse aplaudi-lo por reconhecer que “se não reavivarmos a memória nacional do povo, mais cedo ou mais tarde as pessoas podem ser transformadas em outra coisa". A autora bielorrussa Svetlana Alexievich, ganhadora do prêmio Nobel de literatura de 2015, resumiu o problema vivido por muitos em uma entrevista recente para a televisão: “É claro que sou bielorrussa e minha língua natal é o bielorrusso, mas eu não a falo porque, na prática, toda a minha vida foi e tem sido em russo, inserida na cultura russa. Mas eu me sinto bielorrussa, estou em terras bielorrussas e este é o meu país".

Em uma noite recente em Brest, muitos se reuniram para participar de um programa criado por Labadzenka para ensinar e promover o bielorrusso. Yuliana Korzan, de 26 anos, disse se sentir envergonhada por não falar o idioma direito. A principal atração era Pit Pawlaw, guitarrista de uma banda popular de rock, NRM, cujas canções são todas em bielorrusso. “Não sou contra a Rússia, apenas não estou interessado na Rússia", afirmou Pawlaw. “Vivemos lado a lado há mil anos. É hora de seguir adiante. Somos europeus. Não somos menores que os russos nem inferiores a eles”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.