Giacomo Gambineri/The New York Times
Giacomo Gambineri/The New York Times

Você deveria dizer sim àquele favor? Pense bem…

Em vez de simplesmente concordar em fazer alguma coisa e depois bater o arrependimento, tome uma decisão bem informada

Allie Volpe, The New York Times - Life/Style

05 de agosto de 2020 | 05h00

Até fevereiro deste ano, fazer um favor a um amigo era, sobretudo, uma questão de logística, tempo disponível e uma reflexão franca sobre... bom, sobre se seu amigo merece mesmo o esforço. Mas agora, à medida que o coronavírus continua crescendo, cada ação, cada pedido e cada decisão carrega mais peso do que nunca.

No entanto, se você ainda sente vontade de suar a camisa pelo time e ajudar um amigo que está precisando, você não está sozinho. Embora fazer favores não seja necessariamente um comportamento humano inato, estamos socialmente condicionados a querer ajudar quando somos solicitados.

“Temos essa necessidade fundamental de pertencer, essa necessidade fundamental de sentir que somos pessoas boas”, disse Vanessa Bohns, professora associada de comportamento organizacional na Universidade de Cornell. “E dizer não a alguém, negar ajuda a quem precisa de nós, vai contra as duas coisas”.

Mas ser o amigo, parente ou ente querido que sempre é chamado para cumprir certas tarefas pode cobrar um preço. Esperamos que nossos relacionamentos sejam equilibrados, disse Bohns, de modo que sentir que estamos sempre aguentando o peso de fazer a boa ação pode gerar algum ressentimento.

E durante a pandemia – quando limites e confortos pessoais podem estar bem diferentes do que estamos acostumados – regar o jardim do vizinho enquanto ele está de boa na praia traz um cálculo de risco maior do que antes. Antes de concordar em dar uma mão a alguém, avalie a logística e os potenciais riscos, para que você possa tomar decisões bem informadas sobre a possibilidade de fazer ou não o que lhe foi pedido.

Pense no risco pessoal

Durante a pandemia, muitos de nós quisemos oferecer ajuda a comunidades carentes, doando a instituições de caridade e pequenas empresas, ou fazendo compras para vizinhos idosos ou vulneráveis. No entanto, nem todos os pedidos chegam sem seus próprios riscos.

No passado, o pedido para ajudar a planejar um chá de bebê seria recebido com um rápido sim, mas agora há muito mais a ser considerado: ajudar a organizar o evento vai existir que você interaja com muitas pessoas? Você vai se expor ao vírus? Você vai conseguir explicar aos convidados a necessidade de distanciamento social? A pessoa que fez o pedido vai se sentir julgada se você recusar?

“Essas circunstâncias deixam especialmente difícil dizer não a esse tipo de solicitação, porque, ao dizer não, estamos essencialmente dizendo à outra pessoa que ela está fazendo algo errado só de pedir o favor”, disse Bohns. Ela sugere que você crie um script para recusar favores que parecem muito arriscados. Mas fica a seu critério incluir (ou não) nesse roteiro uma explicação sobre como o favor pode expor as pessoas. “Qualquer que seja o argumento para você aceitar ou recusar o favor, vale a pena pensar com antecedência no que você vai dizer”.

Peça um tempo e pense a respeito

Pense na frequência com que você aceita pedidos (convites para festas, ajuda no trabalho, caronas de última hora e assim por diante) sem realmente levar em consideração o que está sendo solicitado. Pesquisas mostram que tendemos a concordar com favores, mesmo sem querer, porque estamos no piloto automático: aceitar uma solicitação é quase uma reação instintiva, disse Bohns.

Os estilos de conversação das pessoas são muito diferentes, e o que uma pessoa considera um pedido direto pode não ser compreendido como uma solicitação por uma outra pessoa. Então, é importante dedicar algum tempo para realmente compreender a natureza de determinado favor, disse Deborah Tannen, professora de linguística da Universidade de Georgetown e autora de You’re the Only One I Can Tell: Inside the Language of Women’s Friendships [algo como “Só posso contar para você: dentro da linguagem das amizades entre mulheres”, em tradução livre].

Também é fácil se sentir debaixo do holofote quando alguém pede um favor (independentemente de ser cara a cara ou via FaceTime): o pedido em si já vem carregado de pressão, por mais educado que seja, disse Bohns. No entanto, não tome uma decisão instintiva com base na vontade de ajudar, especialmente agora quando são muitas as solicitações.

Para ter algum tempo para pensar sobre o que realmente está sendo solicitado, peça para a pessoa em questão mandar os detalhes por email ou diga que precisa ver sua agenda primeiro, analisa Bohns. “É mais gentil abrir um espaço que lhe permita dizer não, caso você queira dizer não, para que você possa apontar para outros aspectos que justificam sua recusa”, disse ela. “Você pode pedir um tempo para dar a resposta, assim a relação continua intacta”.

Avalie a logística

Embora a maioria das pessoas tenha as melhores intenções e queira ser útil, é importante considerar se você terá tempo e cabeça para fazer o favor até o fim, disse Susan Newman, psicóloga social e autora de The Book of No: 365 Ways to Say It and Mean It — and Stop People-Pleasing Forever [algo como “O Livro do Não: 365 maneiras de falar não para valer – e parar de agradar as pessoas para sempre”, em tradução livre].

Se um colega pede para você assistir e comentar uma prévia da apresentação que ele vai fazer pelo Zoom – um compromisso que pode consumir algumas horas do seu dia – pense nos sacrifícios que você teria de fazer. Você teria de reagendar suas reuniões no trabalho? Quanto você teria de se desdobrar para atender a mais esse favor? Também é lícito, disse Newman, perguntar: o que eu ganho com isso? Parece egoísta, mas não é”, disse ela. “Se você está estressado e sobrecarregado pelos favores que concordou em fazer, você perdeu o controle da própria vida e não tem tempo para rejuvenescer, descansar e cuidar de si mesmo”.

Pense na relação

Embora já se saiba que o ato de pedir e fazer favores promova a proximidade, é mais provável que ofereçamos ajuda a um desconhecido do que a um amigo próximo, mostra a pesquisa. Então, quebrar o galho de um colega distante talvez não seja tão bizarro quanto parece.

Em vez de sobrecarregar nossos familiares e amigos íntimos com incontáveis pedidos de favor, disse Bohns, “não percebemos que existe esse subconjunto de pessoas de quem não somos tão próximos e que ficariam muito felizes em nos ajudar por causa desse padrão de querermos ser boas pessoas”.

Mas há algo importante na questão da proximidade, disse Tannen. Como ela recebe muitos pedidos para apresentar agentes literários e ler manuscritos de livros, ela dedica tempo para ajudar apenas aqueles amigos íntimos e autores cujo trabalho ela apoia. Além disso, Newman disse que, se você tem uma história de vida com a pessoa que fez o pedido de favor, ela não vai cortar a amizade só porque, desta vez, você não pode pegá-la no aeroporto, por exemplo.

Em ambientes profissionais, não podemos rejeitar logo de cara os pedidos de ajuda de colegas ou subordinados, descartando-os como uma coisa de pouca importância ou que não terá nenhum impacto efetivo nas nossas carreiras, disse Daniel Gulati, diretor administrativo da Comcast Ventures e autor de Passion and Purpose: Stories From the Best and Brightest Young Business Leaders [“Paixão e Propósito: histórias dos melhores e mais brilhantes jovens líderes executivos”, em tradução livre], que escreveu sobre pedir favores na Harvard Business Review.

“Seu chefe de hoje pode ser um colega ou até mesmo um subordinado amanhã”, disse ele. “Alguém que você considera júnior hoje pode ser seu cofundador num futuro empreendimento. Recusar solicitações com base na experiência de alguém é tomar uma decisão apenas no curto prazo”.

Estabeleça seus motivos

Em vez de se perguntar por que uma pessoa o chamou para dar uma mão, pergunte a si mesmo o que o está motivando a dizer sim, disse Newman. É o medo de um confronto ou de conversas desconfortáveis que o leva a sempre concordar com os pedidos? Em vez de se perguntar “por que essa pessoa está me pedindo isso?”, disse ela, pense no que determina sua resposta.

A gangorra interpessoal de pedir e fazer favores pode afetar a maneira como os outros nos veem e pode nos inspirar a ser mais agradáveis. O fenômeno conhecido como “efeito Ben Franklin” postulou que as pessoas gostam mais de nós quando pedirmos favores a elas. Um estudo de 2014 publicado no Journal of Social Psychology comprovou essa teoria, revelando que as pessoas aumentam a sensação de proximidade com quem lhes pede um favor.

Se a culpa é seu principal motivador, talvez seja melhor dizer não, disse Newman. Não é bom concordar em ajudar um amigo a fazer mudança, apesar de uma lesão recente nas costas, só porque você sente que não dá para dizer não. Recuse educadamente e reprima quaisquer sentimentos negativos, pois os solicitantes raramente pensam no motivo pelo qual você recusou seus pedidos, disse Newman. “Quando você diz não, as pessoas não estão pensando em você, não estão se preocupando com você tanto quanto você está se preocupando com o que elas podem estar pensando”, disse ela.

Pense no futuro

Quando concordamos em fazer favores no futuro distante, não os vemos como uma coisa que realmente precisaremos cumprir, disse Bohns. “Estamos pensando nessas coisas de maneira abstrata”, disse ela. “E, então, quando chega o momento, duas semanas depois, a coisa fica concreta e é aí que pensamos: “Putz, eu não queria estar aqui fazendo esse negócio”.

Ao pensar no futuro, você precisa imaginar que o cuidado com animais de estimação, a cobertura de turnos ou as idas ao supermercado são tarefas bem concretas. Isso significa fazer um balanço prévio dos tipos de atividades e tarefas com que você vai se sentir confortável, comentou Bohns. Dessa forma, se um amigo pedir para você o acompanhar numa festa – e isto estiver na sua lista “de jeito nenhum” – você não se sentirá debaixo do holofote.

E, mesmo se você concordou em fazer o favor, não quer dizer que não tenha volta. “O simples fato de você ter dito que sim e depois ter pensado melhor e concluído que não está nada confortável com o favor”, disse Tannen, “não significa que você não possa mudar de ideia”. /

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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