Omar Sobhani/Reuters
Omar Sobhani/Reuters

'Você deveria estar na cozinha!': afegãs lutam pela própria voz

Em meio às negociações de paz entre Afeganistão e o Taleban, mulheres temem que um novo governo não proteja seus direitos

Fatima Faizi e David Zucchino, The New York Times

15 de maio de 2019 | 06h00

No segundo dia de uma recente assembleia afegã tradicional, uma representante levantou-se para falar do tema em pauta: a paz no Afeganistão. Entretanto, contou Behnoh Bernod, 31, um homem barbudo de Kandahar mandou que ela se calasse. "Ele disse, 'A paz não tem nada a ver com você. Sente-se! Você deveria estar na cozinha fazendo comida!'".

A assembleia, conhecida como Ioya jirga, foi convocada pelo presidente Ashraf Ghani para debater como chegar à paz no Afeganistão. Os organizadores destacaram orgulhosamente que 30% dos 3.200 representantes eram mulheres. Entretanto, várias delas afirmaram que se sentiram ignoradas, marginalizadas ou desacreditadas. Outras disseram que foram hostilizadas por representantes que declararam apoiar os direitos das mulheres, mas apenas no âmbito da Sharia, a lei islâmica - posição esta compartilhada pelo Taleban.

"Perguntei que lei da Sharia, a Sharia talibã ou a Sharia do Estado Islâmico", disse a representante Sakina Hussaini. "Alguns homens não aceitam as mulheres como seres humanos e eu tive de gritar com eles".

Torpekai, uma representante de 45 anos, que prefere ser chamada apenas pelo primeiro nome, disse que seu filho de 18 anos, policial, foi assassinado pelo Taleban. E acrescentou que pretendia dizer aos representantes que gostaria que o grupo fosse punido se um acordo de paz concedesse às mulheres um papel em um governo do pós-guerra. Mas os homens, que eram a grande maioria na jirga, nem se preocuparam em ouvir.

A jirga foi convocada em plena campanha eleitoral para presidente, em que Ghani luta para continuar uma figura de relevo enquanto seu governo é excluído das conversações de paz entre o Taleban e os Estados Unidos. Os militantes se recusam a reunir-se com o governo, que consideram ilegítimo.

Os organizadores afirmaram que a reunião conseguiu um consenso nacional sobre as condições de paz com o Taleban. As recomendações da assembleia, contudo, não são juridicamente vinculantes. "É nossa sagrada tradição", afirmou Mohammed Umer Daudzai, que organizou a reunião. "Duvido que alguém diga que um consenso vinculante ou um diálogo é uma má ideia".

No encerramento da jirga, no dia 3 de maio, Ghani aceitou suas recomendações para que se busque um cessar-fogo, o objetivo das negociações de paz. Ele instou o Taleban a negociar com o Afeganistão e prometeu libertar 175 prisioneiros talibãs. Ele agradeceu aos presentes, "principalmente às mulheres". 

A representante Wazhma Tukhi, 25, disse que estava satisfeita. "A Constituição protege nossos direitos, e é isso o que as mulheres afegãs querem", afirmou.

Mas outra, Masuma Bahar, 24, observou que a jirga deveria ter defendido com maior firmeza a preservação das conquistas das mulheres nos últimos 18 anos. "Havia mulheres na mesa, e elas deveriam ter levantado  suas vozes, mas não fizeram nada". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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