Jason Henry para The New York Times
Jason Henry para The New York Times

Voos autônomos são nova aposta do Vale do Silício

Um novo serviço de emergência vai equipar pequenos helicópteros com um sistema capaz de realizar voos sem piloto

Cade Metz, The New York Times

14 Setembro 2018 | 15h15

TRACY, CALIFÓRNIA - Num pequeno aeroporto a leste de San Francisco, um helicóptero vermelho e branco alçou voo recentemente, flutuando alguns metros acima do asfalto. Parecia um helicóptero comum, exceto pelo pequeno cubo ligado ao nariz da aeronave.

As autoridades estavam testando o modelo para um novo serviço que deve ser lançado em janeiro, respondendo a chamados de emergência. O cubo preto é parte de um ambicioso esforço para construir uma pequena aeronave de passageiros capaz de voar por conta própria.

Atualmente, o helicóptero é comandado por pilotos experientes. Mas o novo serviço de emergência será operado pela SkyRyse, uma startup do Vale do Silício que pretende equipar pequenos helicópteros e outras aeronaves para passageiros com hardware e software capazes de voos autônomos, valendo-se de muitas das tecnologias que possibilitam os carros autônomos. Entre elas estão as câmeras em 360º e sensores de radar incorporados ao nariz da aeronave.

"Há muitas coisas que precisam dar certo antes que aeronaves autônomas comecem a transportar pessoas", disse Mark Groden, cofundador e diretor executivo da SkyRyse. "Mas estamos desenvolvendo as tecnologias que podem nos levar a esse resultado".

A Sikorsky, subsidiária da empresa de defesa Lockheed Martin, e a Xwing estão desenvolvendo tecnologia semelhante. Outras, incluindo a Aurora, que pertence à Boeing, estão explorando o voo autônomo enquanto constroem um novo tipo de aeronave elétrica para "serviços de táxi aéreo".

O serviço de táxis aéreos do Uber, que a empresa espera inaugurar num prazo de 5 a 10 anos, tem como objetivo dispensar os pilotos na fase final de desenvolvimento. A motivação? Pilotos são caros, e precisam de descanso entre os voos. Os voos autônomos podem abrir o mercado para outros tipos de serviço de transporte de passageiros e até mudar a dinâmica econômica das empresas aéreas de hoje.

Os empreendedores acreditam que adaptar aeronaves já existentes seja uma alternativa mais realista. Mas o objetivo ainda está distante, seja qual for o rumo escolhido.

"Não se trata simplesmente de desenvolver algo capaz de voar por conta própria. Temos de apresentar um conjunto de evidências indicando que esta é uma maneira segura de voar", disse Dan Patt, diretor-executivo da empresa de robótica Vecna, que já trabalhou com voo autônomo quando atuava na Darpa, divisão de pesquisas do departamento de defesa dos Estados Unidos. 

Os pequenos drones já mostraram as possibilidades do voo autônomo. A startup Skydio, do Vale do Silício, fundada por ex-engenheiros do Google, vende um drone de US$ 2.500 capaz de seguir uma pessoa pela floresta.

Pilotar um avião ou helicóptero é o tipo de tarefa orientada por procedimentos que os computadores sabem administrar, mas pode ser extremamente difícil lidar com as incertezas que surgem durante decolagem e aterrissagem, além dos eventos raros e aleatórios que causam acidentes.

Os voos comerciais de passageiros também são um setor fortemente regulamentado. Ainda que sejam desenvolvidos sistemas confiáveis para o voo, as empresas podem ter dificuldades em trazer essas tecnologias para o espaço aéreo público.

É por isso que a SkyRyse, desfrutando de recursos captados da ordem de US$ 25 milhões, está trabalhando com a cidade de Tracy. O serviço de emergências de Tracy vai operar de acordo com a legislação federal atual.

O helicóptero inclui sensores que seriam necessários para o voo autônomo. O radar é semelhante aos sensores laser dos carros autônomos, proporcionando uma visão detalhada dos arredores, mesmo sob más condições de visibilidade. Mas, por enquanto, esses sensores funcionam para auxiliar os pilotos. Para Patt, trata-se de "uma maneira de conquistar a confiança" das autoridades.

Tais sensores coletam dados descrevendo aquilo que o helicóptero encontra e a reação do piloto a esses elementos. Usando os dados, os engenheiros da SkyRyse estão recriando condições de voo numa espécie de realidade virtual e desenvolvendo sistemas capazes de se orientar corretamente nessas simulações.

"Podemos simular rajadas de vendo, falha no motor, até a eventualidade de pássaros serem atingidos pelo rotor da cauda", disse Groden.

Mas para que esse trabalho chegue aos serviços de emergência deve levar anos - e ainda mais para chegar ao serviço de táxi aéreo. E os helicópteros usados pela SkyRyse, modelo Robinson R44 de quatro assentos, talvez não sejam os mais adequados para áreas de alta densidade populacional. É por isso que empresas como Aurora e a startup Kitty Hawk estão desenvolvendo novos tipos de aeronave. Ainda assim, o maior obstáculo é convencer as autoridades e o público quanto à segurança dos voos autônomos.

"Há muitas startups investindo nisso", disse Igor Cherepinsky, diretor de programas autônomos da Sikorsky. "Muitas delas se mostram ingênuas em relação ao que será necessário para alcançar o objetivo".

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