Tara Walton / The New York Times
Tara Walton / The New York Times

Vovó Alvino alimenta o beisebol e cobra pouco por isto: 'devolva o recipiente'

Com 66 anos, Altagracia Alvino talvez seja a avó mais popular do esporte. Há cerca de 20 anos, ela enche as barrigas do filho, do neto e de seus companheiros de partidas

James Wagner, The New York Times

09 de outubro de 2019 | 06h00

TORONTO – O açúcar mascavo borbulhava na panela. Colheradas de azeitonas e alcaparras foram colocadas na mistura. Depois, Altagracia Alvino, que pode fazer este prato até de olhos fechados, gelou. “Eu pus o tempero aqui?”, sussurrou baixinho.

Altagracia, de 66 anos, tomava cuidado para não fazer ruído naquele dia de agosto, porque eram 7:22 da manhã, e seu neto de 22 anos, Vladimir Guerreiro Jr., jogador profissional de beisebol, dormia no apartamento da família em Toronto. Ela inspecionou a carne, decidiu que de fato não tinha muita graça, e procurou um pacote de pimentas vermelhas esmagadas. Tinha muito tempo antes que Vladimir acordasse às 11 da manhã e saísse para ir ao Rogers Centre, carregando sacolas com a comida que compartilharia com os companheiros de equipe, os Blue Jays e os seus adversários.

Altagracia é, talvez, a avó mais popular do beisebol. Há cerca de 20 anos, ela enche as barrigas de centenas de jogadores. Comer a sua boa comida tornou-se  particularmente popular entre os jogadores do mesmo país de origem da família, a República Dominicana.

Alguns vêm visitar a vovó Alvino, a “abuela”, embora nunca tenham chegado a conhecê-la. Ela esteve presente em todas as fases da carreira do filho, Vladimir Guerrero Sr., que no ano passado foi consagrado no Hall da Fama, e agora ela cuida do filho dele. “Faço isto por amor”, disse enquanto a comida ia para o fogo.

Altagracia aprendeu a cozinhar na banca de alimentação da mãe, em Don Gregorio. Nenhum país fora dos Estados Unidos produziu mais jogadores da primeira divisão do beisebol do que a República Dominicana, e poucas famílias produziram mais do que os Guerrero. Os quatro filhos da vovó Alvino – Vladimir Sr., Wilton, Eleazar e Julio Cesar – se tornaram todos jogadores profissionais de beisebol, e filhos deles também. Vladimir Jr., que acabou sua temporada nas categorias juvenis, é o único neto na primeira divisão agora.

Anteriormente, Altagracia morava com Wilton, que chegou à primeira divisão com o Los Angeles Dodger semanas antes. Vladimir Sr. ingressou nos Montreal Expos em 1996. Um dia, Wilton contou que os seus colegas dominicanos no time tinham saudades das comidas de casa, então ela começou a preparar algumas. Ficou aliviada quando Wilton foi negociado com os Expos em 1998, permitindo que ela cozinhasse para os dois. Morou com Vladimir Sr. pelo resto da carreira dele, inclusive  as temporadas no Texas, Baltimore e Anaheim.

De avó para neto

A vovó Alvino imagina que cozinhava para os jogadores em 2011, quando Vladimir Sr. encerrou a sua carreira. Mas em 2016, Vladimir Jr., que ela ajudou a criar, já jogava como profissional. Ela morou com ele em todas as fases da categoria juvenil. Até hoje, ela recusa qualquer ajuda em dinheiro por seu esforço, nem mesmo para cobrir os gastos com os ingredientes. Guerrero, que pediu aos avós que fossem morar com ele em Toronto, se orgulhou de continuar a tradição de compartilhar a refeição com os companheiros.

O apoio da vovó não é apenas culinário. Ela assiste a todos os jogos em casa. "Ela sempre me diz para respeitar  o jogo e respeitar meus colegas”, afirmou Vladimir. A avó brincou que os jogadores que ela alimentou ao longo dos anos fazem parte da sua família, juntamente com seus próprios 23 netos e seis  bisnetos.

“Eu não imaginava que ela ainda estivesse cozinhando, mas foi gratificante ver que é o que ela faz”, brincou o rebatedor dos Minnesota Twins Nelson Cruz, de 39 anos, que experimentou pela primeira vez  a comida da vovó aos 25 anos e seguiu o seu exemplo, levando comida para os seus colegas e os visitantes. “Quando chegamos a Toronto, este ano, eu levava a comida dela. É ainda a mesma comida maravilhosa que eu comia em 2006”.

Cardápio

Uma amostra do que a vovó cozinha em um dia: sete quilogramas de carne de bode, um quilo de feijão vermelho e cinco quilos de arroz. Ela só fala inglês o suficiente para pedir aquilo de que necessita. Muitos procuraram as suas receitas, como o chef do clube dos Blue Jays, mas ela não tem receitas formais. “A única coisa que eu meço é o arroz, para que não fique meio cru”, ressaltou. O seu segredo é o refogado de temperos (sofrito) do feijão. Ela começa com um purê de coentro, cebola, alho, o que dá ao feijão uma certa suavidade que, segundo ela, é o que os diferencia.

“É impressionante”, avaliou Cavan Biggio, de 24 anos, o homem da segunda base dos Blue Jays, que é do Texas, referindo-se à comida da vovó. “A melhor”, acrescentou Rafael Devers, de 22, e um homem da terceira base dos Boston Red Sox, que a comparou à comida de sua mãe.

Há apenas uma regra para os que recebem a comida de Altagracia: lavem e devolvam o recipiente de plástico. Quando o arremessador dos Yankees, Luis Severino, de 25, não devolveu o seu depois de um jogo, a vovó mandou outro no dia seguinte com uma anotação na tampa: “Devolva o recipiente”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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