Lena Mucha / The New York Times
Lena Mucha / The New York Times

‘Vovós’ da Áustria expressam desprezo pelo populismo

'Vovós Contra a Direita' são mulheres de uma geração que viu as mães sofrerem as consequências da Segunda Guerra Mundial enquanto contribuíam para criar a democracia na Áustria

Melissa Eddy, The New York Times

08 de maio de 2019 | 06h00

VIENA – É assim que elas se apresentam nos protestos contra o governo nas noites de quinta-feira, na capital austríaca: são senhoras de idade com gorros feitos à mão nas cores púrpura, vermelha e azul. Elas gostam de se mesclar aos estudantes que gritam seus slogans e a antifascistas mascarados, acenando para as pessoas que assistem, na esperança de encontrar um olhar e trocar um sorriso. “São as vovós”, alguém gritou da janela de um terceiro andar enquanto a manifestação passava pelo Quinto Distrito de Viena, em março. “Olhe! As vovós!”.

As Vovós Contra a Direita são dezenas de mulheres de uma geração que viu as mães sofrendo com as consequências da Segunda Guerra Mundial enquanto contribuíam para criar a democracia na Áustria. Agora, livres do ônus de criar suas famílias e de trabalhar para sustentá-las, procuram apoio aos protestos contra a guinada da Áustria para a direita, sob o governo nacionalista conservador do chanceler Sebastian Kurz.

Elas pretendem até mesmo criar uma “resistência” contra a direita e os extremistas de toda a Europa. “Estamos revoltadas com as suas medidas”, afirmou Monika Salzer, de 71 anos, avó de três netos. Ela fundou o grupo no Facebook em novembro de 2017, preocupada com a volta de um partido de extrema direita ao governo. No ano passado, ela registrou o movimento das vovós como uma organização oficial austríaca, que agora conta com 300 membros, ramificações em toda a Áustria e Alemanha e milhares de seguidores na mídia social.

A lista das queixas das Vovós é longa: os cortes dos programas destinados às mulheres; a discriminação contra as mulheres que não recebem pensão pelo tempo dedicado à criação dos filhos; a demonização dos refugiados e das minorias; e uma falta total de compreensão no discurso político. “Eles querem destruir tudo o que nós construímos nos últimos 50 anos”, afirmou Monika sobre coalizão de conservadores de Kurz e o Partido da Liberdade.

Um espírito de abertura define o grupo, que apesar do nome, aceita todos os que, independentemente de gênero ou de idade, apoiam a sua oposição à discriminação e à ideologia de extrema direita. O importante é não pertencer a um partido. “Nós não queremos uma cadeira no Parlamento, não queremos o cargo de chanceler”, declarou Susanne Scholl, de 69 anos, ex-correspondente da emissora nacional ORF. Ela ganhará o seu primeiro neto neste ano. “Nós queremos os princípios sociais, democráticos do nosso país, nos quais fomos educadas, para os nossos filhos e netos”.

Sabine Schwaighofer, de 49 anos, participou do seu primeiro protesto em março. “O objetivo das vovós é a unificação”, disse, “e embora a sociedade queira vê-las como apolíticas, elas estão conseguindo tornar-se uma força política”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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