Jason Andrew para The New York Times
Jason Andrew para The New York Times

Voz da América dá mais uma guinada à direita no governo Trump

A TV Martí, serviço de transmissão de notícias do governo dos EUA, chamou George Soros de 'judeu infiel de moral duvidosa'

Elizabeth Williamson, The New York Times

20 Dezembro 2018 | 06h00

WASHINGTON - O serviço de transmissão de notícias do governo americano para diversas parte do mundo está virando notícia. Em maio, a TV Martí, que tem o objetivo de transmitir para Cuba, colocou no ar uma notícia que chamava George Soros, financista, doador do Partido Democrata e antigo opositor do autoritarismo, de “judeu infiel de moral duvidosa”.

A Voz da América, carro-chefe dos esforços do governo para promover seus valores no exterior, sofreu um novo abalo em outubro, quando quinze de seus jornalistas foram demitidos ou punidos depois que uma investigação interna descobriu que eles haviam aceitado “envelopes marrons” - ou seja, subornos - de uma autoridade nigeriana.

Semanas mais tarde, a Voz da América demitiu o chefe de sua seção em mandarim depois de ter prometido uma transmissão ao vivo de três horas para um bilionário chinês exilado, defendido por alguns na direita americana e conhecido por fazer acusações infundadas contra Pequim.

Esses desastres são os problemas mais recentes dos esforços do governo para combinar mensagens jornalísticas e políticas em seus canais de rádio e televisão para todo o mundo. E sugerem que, sob o presidente Donald Trump, as transmissões correm o risco de sofrer maior inclinação ideológica, à medida que mais nomeados políticos entram na organização, a Agência dos Estados Unidos para Mídia Global.

A indicação de Trump para o cargo de diretor-executivo da agência global de mídia do governo é Michael Pack, que tem uma produtora de cinema de viés conservador. Ele se recusou a ser entrevistado. Seria mais um seguidor de Trump que, segundo alguns funcionários, já demonstraram inclinação política no tratamento das notícias.

O atual diretor-executivo da agência, John Lansing, jornalista e ex-presidente da Scripps Networks, e Amanda Bennett, vencedora do Prêmio Pulitzer, que comanda a Voz da América, acham que vão acabar perdendo seus empregos. Em um post no Twitter em novembro, Trump criticou a forma como a CNN retrata o país e levantou a possibilidade de os Estados Unidos lançarem “nossa própria rede mundial para mostrar ao mundo como realmente somos: ÓTIMOS!”.

Analistas de mídia dizem que o que está em risco é a imagem da agência como fonte de informação confiável e objetiva em nações onde a liberdade de imprensa está sob ataque. As reportagens dos 3,5 mil jornalistas da rede governamental chegam a 345 milhões de pessoas em 100 países, todas as semanas.

O Current Time, um programa de notícias, reportagens e documentários para falantes de russo, foi lançado em 2017. O Polygraph e o Faktograph são novos sites que têm o objetivo de combater a desinformação da mídia controlada pelo governo da Rússia. O VOA365, um serviço em língua persa, começa no ano que vem.

Lansing diz que não viu nenhuma interferência vinda de escalões superiores, mas ele e sua equipe reconhecem que existe o risco de os pontos de vista políticos se tornarem um problema. Tomás Regalado, diretor do departamento cubano nomeado pela Casa Branca, é ex-jornalista e já foi prefeito de Miami. Ele não esteve envolvido na transmissão que atacou Soros, mas disse que o Judicial Watch, o grupo ativista conservador e de mentalidade conspiratória a que se atribuem algumas das informações falsas ou enganosas da transmissão, era uma “boa fonte”.

Lansing escreveu cartas de desculpas a Soros e ordenou que se iniciasse uma investigação sobre todo o conteúdo veiculado pelo Martí no ano passado. Bennett disse que os problemas precisam vir a público. “Queremos usar esses incidentes para dizer: 'Aqui estão nossos padrões, e o mais importante é manter esses princípios”, disse ela. “É uma luta que vale a pena lutar”.

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