Susan Merle, Universidade do Estado do Oregon, CIMRS
Susan Merle, Universidade do Estado do Oregon, CIMRS

Vulcão submarino do Pacífico é mapeado em 3D por cientistas

Traçar a anatomia do Axial melhorará compreensão dos cientistas sobre vulcões subaquáticos em todo o mundo

Robin George Andrews, The New York Times

09 de dezembro de 2019 | 06h00

No último verão do hemisfério norte, o navio de pesquisa Marcus G. Langseth, de 72 metros, partiu para o oceano no noroeste do Pacífico. Atrás do navio estavam quatro “serpentes eletrônicas”, cada uma com oito quilômetros de comprimento. Esses cabos mantinham instrumentos capazes de espiar o coração pulsante de um monstro a mais de um quilômetro abaixo das ondas: o Axial Seamount, um vulcão subaquático. 

A tripulação do navio tinha uma preocupação: não deixar os cabos se enroscarem. “Se isso acontecesse, tudo estaria perdido”, disse Sam Mitchell, um vulcanologista que participou da viagem. Um dos cabos acabou se partindo, mas isso não interferiu nos demais. O navio pertence à Fundação Nacional da Ciência e é operado pelo Observatório Terrestre Lamont-Doherty da Universidade Columbia, em Nova York.

Os cientistas passaram 33 dias a bordo entre julho e agosto para criar mapas em 3D das lagoas e caminhos magmáticos do vulcão subaquático, proporcionando uma visão deles nunca antes vista. Traçar a anatomia do Axial melhorará a compreensão dos cientistas sobre vulcões subaquáticos em todo o mundo, a maioria dos quais ainda está esperando para ser descoberta nas profundezas sombrias.

O Axial Seamount fica a 480 quilômetros da costa de Oregon. Os cientistas tinham indícios de sua vasta escala, mas após o trabalho de detecção por meio do som pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, na década de 1980, "a lâmpada acendeu: há um grande vulcão por aqui", disse Bill Chadwick, geólogo da Universidade do Estado do Oregon, que não estava envolvido com a viagem.

Ao longo do tempo geológico, uma pluma mantélica fixou-se abaixo da placa tectônica do Pacífico e criou uma linha de 1,8 mil quilômetros de vulcões subaquáticos, conhecida como cadeia montanhosa de Cobb-Eickelberg. O Axial, o mais jovem entre os montes, está no topo desse "ponto quente" do oceano.

O vulcão também está posicionado na cordilheira do oceano que separa a placa do Pacífico, a oeste, e a placa de Juan de Fuca, a leste. Essas placas estão se afastando. Pontos como este são o berço da crosta oceânica; rochas derretidas sobem da Terra para o fundo do mar, criando uma profusa atividade vulcânica. Esse poder duplo da pluma e da cordilheira em movimento ajuda a tornar o Axial o vulcão subaquático mais ativo da região. Até agora, três erupções - em 1998, 2011 e 2015 - foram documentadas.

O Axial é remoto e profundo o suficiente para não causar danos a ninguém, disse Ken Rubin, vulcanologista da Universidade do Havaí em Manoa. Mas uma melhor compreensão do Axial ajudará a reduzir danos causados por outros vulcões que apresentam riscos.

Isso inclui o vulcão Kilauea, no Havaí, uma verdadeira fábrica de lava perto de muitas pessoas, e Anak Krakatau, na Indonésia, que pode provocar mega tsunamis. Agora, os cientistas estão pesquisando todas as fatias sísmicas de Langseth e juntando todos os dados para formar uma visualização 3D adequada do interior do Axial.

Os telhados das câmaras primárias e secundárias de magma podem ser vistos claramente em três dimensões. Suas complexidades estão ficando claras: são como vários “wafers” de magma na horizontal que atravessam o subsolo. Uma área descoberta anteriormente com fontes hidrotermais, algumas tão altas quanto edifícios, foi encontrada acima de um terceiro esconderijo de magma recentemente identificado.

À medida que aprendem mais sobre o que a equipe descobriu, os cientistas conseguem entender melhor outros vulcões, principalmente aqueles escondidos no fundo do mar. "Uma fração significativa do vulcanismo da Terra acontece em lugares como o Axial", disse Rubin, referindo-se às cordilheiras no meio do oceano, que representam uma coluna de vulcanismo que se estende por cerca de 64 mil quilômetros ao redor do mundo.

Mas anos de processamento e análise estão à frente. "Existe realmente uma ciência e uma arte no processamento e interpretação de dados sísmicos", disse Jackie Caplan-Auerbach, sismóloga da Universidade Western Washington. Os dados também podem ajudar os cientistas a entender melhor por que o Axial parece estar respirando. Quando o magma está subindo à superfície, os vulcões tendem a inflar, e o Axial não é exceção. Usando sensores de pressão sob as ondas, Chadwick e seus colegas descobriram que "se o Axial não está em erupção, está se enchendo de ar". 

Depois que uma erupção termina, o vulcão começa a se reabastecer imediatamente para a próxima, atingindo aproximadamente o mesmo nível todas as vezes antes de explodir. Esse ritmo permitiu aos cientistas prever o momento de suas duas erupções mais recentes com maior precisão.

A deformação da superfície é uma das principais maneiras de monitorar vulcões de todos os tipos, desde o explosivo Mount St. Helens, no estado de Washington, até o efusivo Mauna Loa do Havaí. Com um modelo mais holístico do Axial e seu comportamento semelhante a um balão, os cientistas também podem entender ou identificar melhor os precursores de erupções nesses vulcões. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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