Sunny Shokrae para The New York Times
Sunny Shokrae para The New York Times

Esculturas femininas mudam aspecto de museu de Nova York

Artista queniana aponta um caminho para a diversidade no Metropolitan Museum of Art

Nancy Princethal, The New York Times

20 de setembro de 2019 | 06h00

Inaugurando o que virá a ser uma encomenda anual para a fachada do Metropolitan Museum of Art, a artista de origem queniana Wangeshi Mutu foi convidada para instalar estátuas de bronze de mulheres sentadas em quatro dos nichos para esculturas vagos perto da entrada do museu.  

Coroadas, vendadas e amordaçadas por discos altamente polidos - e nascidas de tradições tanto europeias quanto africanas -, essas figuras transformarão a fachada do museu literal e figurativamente. Em certos momentos, elas refletirão a luz do sol com uma intensidade fantasmagórica, no que Wangeshi qualifica de “uma mensagem estonteante do além”. Trata-se de um testamento de sua sua crença na qual a arte tem a capacidade de impelir seus apreciadores no sentido da congregação, como o teatro de rua ou os rituais religiosos.

Sob a liderança do diretor Max Hollein, o museu está anunciando uma virada na direção do novo e do global. O ceticismo não é injustificado, dado o histórico do museu. Mas a escolha de uma artista insistentemente transnacional, que, embora consagrada, não é amplamente popular, sugere que o museu está tomando outra direção.

Wangeshi - que aos 47 anos, é altiva e confiante - compara suas esculturas de fachada a cariátides. Na arquitetura clássica ocidental, essas figuras geralmente sustentam terraços ou telhados. Mas exemplos africanos são abundantes, encontrados em “cetros e em lindos assentos reais, que são representativos no sentido de onde um rei se sentaria. Essencialmente, eles sustentam o peso do rei. Ou da realeza daquela cultura”.

Suas cariátides claramente irradiam uma energia própria. Intituladas The NewOnes, will free Us (As Novas nos libertarão, em tradução livre) , elas representam para Wangeshi “palavras que nunca escutamos, pessoas que não notamos. Elas serão nossa redenção”.

Com uma serenidade sobrenatural e imponentemente altas, olhos rasgados e dedos alongados, que expressam um alcance excepcional, elas se manifestam como mensageiras de um outro mundo,  com a inclinação afrofuturista invocada por todas as obras dela.  

As cariátides já estavam na mente de Wangeshi quando o Metropolitan a procurou, há quase um ano. Ela criou modelos plásticos que parecem de argila; utilizando, então, um dos mais antigos métodos de se trabalhar a argila, ela esculpiu os trajes em espirais, que se derramam como grandes saias de pregas. Em uma fundição do estado de Washington, os modelos foram escaneados em 3D e tiveram suas dimensões aumentadas - e ela fez uma visita ao local para retrabalhar os modelos e trabalhar nas pátinas. 

O protótipo apresentado para a encomenda atual é a série para o telhado do Metropolitan, que oferece uma incomum e imediata conexão com novas obras. De maneira similar, afirma Hollein, com as esculturas de Wangeshi, “o diálogo se inicia antes mesmo de você entrar nos portões do museu”.

Para Seph Rodney, um crítico de arte jamaicano de ascendência africana e admirador do trabalho de Wangeshi, isso representa um pequeno problema. Ao mesmo tempo em que Rodney é um entusiasta da escolha de uma artista negra para o programa da fachada, ele lembra que as esculturas estarão “literalmente fora do museu - isso me faz parar para pensar”.

Wangeshi está satisfeita por estar desafiando o Metropolitan (e vice-versa). E ela tem em mente mais do que a questão racial. Sempre consciente de “onde a história da arte colocou o corpo feminino”, geralmente como um objeto passivo para a pintura, ela ressalta que “na arte africana clássica, o corpo feminino, em certas ocasiões, é o próprio museu - é onde a arte é exibida”. Assim sendo, as mulheres expressam “riqueza, status, família, tribo”, por sua postura e ornamentação, que são “linguagens passíveis de serem definidas como arte”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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