Cassidy Araiza/The New York Times
Cassidy Araiza/The New York Times

Veículos em formato de cachorro quente viajam pelos EUA espalhando alegria

A Wienermobile decidiu que ser um motivo de frivolidade durante tempos difíceis faz parte do seu DNA

Bailey Berg, The New York Times – Life/Style

10 de novembro de 2020 | 05h00

“Foi o único emprego ao qual eu me candidatei”, disse Molly Swindall. Ela cresceu em Atlanta e recentemente concluiu o mestrado em segurança e inteligência na União Europeia, que a patrocinou. “Era o emprego dos meus sonhos”.

Ela estava ingressando em um difícil mercado de trabalho. Mas pilotar o veículo mais reconhecível dos Estados Unidos durante um ano não é um emprego fácil de conseguir. No ano anterior, Mollie se candidatara, assim como 7 mil pessoas se candidataram a 12 vagas, então não foi apenas porque é desafiador estacionar paralelamente o Wienermobile da Oscar Mayer, um automóvel que é também uma salsicha de mais de 8 metros de comprimento.

Sabendo que precisava se destacar em seu pedido, Mollie enviou aos gerentes de contratações do Wienermobile literalmente uma cesta de piquenique mostrando os seus talentos, homenageando ao mesmo tempo o ecossistema da empresa-mãe, a Kraft Heinz. Em uma caixa de papelão, ela colocou grama artificial e um cobertor xadrez sobre o qual estava sua “carta de apresentação bem brega” (embrulhada em uma embalagem de Kraft Singles), um “currículo delicioso” (em um vidro vazio de delícia Heinz) e um pacote de cartões personalizados com o seu rosto (“para eles me verem como uma devoradora de cachorro quente”).

No prazo de duas semanas, ela recebeu a convocação. Havia sido escolhida para uma entrevista pessoal. A atual frota de Wienermobile espalha a mensagem da marca em todos os EUA desde 1987. Até agora, sobreviveu a fusões e aquisições, inclusive ao "aperto dos cintos" dos seus investidores.

Mas, este ano, ocorreu o desastre. Embora a demanda de alimentos que ajudam a levantar o espírito da Kraft Heinz tenha crescido em 2020, a pandemia impôs uma parada ao famoso show itinerante, poucos dias antes que Mollie se apresentasse para a entrevista final.

Pela primeira vez em 33 anos, a Oscar Mayer tirou a frota de Wienermobile (atualmente há seis) da estrada. Quando o Wienermobile estreou em 1936, o país ainda sofria as consequências da Grande Depressão (posteriormente, seria reduzido a uma montanha de ferros para ajudar o esforço de guerra dos anos 1940).

O objetivo original era surpreender e alegrar os habitantes de Chicago, onde a Oscar Mayer foi fundada, durante aqueles anos terríveis. “Como se pode imaginar, é impossível não sorrir quando a gente vê um gigantesco cachorro quente circulando pela rua, mesmo que esteja apenas tocando uma música e um pessoa acene da janela”, disse Ed Roland, o gerente sênior de marketing da Oscar Mayer. “Estas coisas alegram o dia das pessoas”.

Tendo isto em mente, a companhia decidiu que ser um motivo de frivolidade durante tempos difíceis faz parte do seu DNA. Por isso, este ano, a Wienermobile voltou à rua – com algumas mudanças. Em agosto, Mollie estava circulando com o seu cachorro quente rumo a oeste. Ela já visitou Sioux Falls e Rapid City, no Dakota do Sul: Topeka, no Kansas; Amarillo e El Paso no Texas; e Flagstaff no Arizona, com a companhia do colega Spencer Bernhardt.

A demora deu bastante tempo para a empresa bolar novas rotas, carregar equipamento de proteção pessoal para os motoristas e visitantes, criar sinalização a respeito do distanciamento social e acrescentar instruções ao programa de treinamento, que inclui como obedecer às diretrizes dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças, sem esquecer dos testes diários de bem-estar.

Este ano, os Hotdoggers, como é chamada a tripulação do veículo, passam cerca de duas semanas em cada lugar. Sua esperança é que permanecer mais tempo em um lugar só reduza a probabilidade de espalhar o coronavírus; eles costumam visitar lugares com um número de casos relativamente baixo.

Os atuais deveres de um Hotdogger é compartilhar fotos e vídeos nas redes sociais, responder a perguntas sobre a marca e o veículo (a mais frequente é se há banheiro na parte traseira do veículo, à qual respondem: “Não é um trailer”), e exibir estilo. Embora o Wienermobile não carregue os cachorros quentes comuns – um equívoco frequente – sua traseira está repleta de material promocional, como placas de veículo personalizadas, chaveiros, correias, brinquedos de pelúcia e embalagens térmicas Ryan Nedwman (o piloto oficial da Oscar Mayer na Nascar).

No entanto, a novidade mais procurada é o apito dos carrinhos de salsichas, uma réplica de plástico de quatro notas, com cinco centímetros de comprimento. Lançado em 1951, o apito antigamente vinha nos pacotes de salsichas Oscar Mayer. Nas últimas décadas, só é possível conseguir um apito oficial de um Hotdogger. Em Rapid City, Mollie se apresentou como voluntária na Meals on Wheels (de entrega de refeições a domicílio).

Um dia, uma mulher se aproximou dela em frente a um complexo de apartamentos, para dizer que estava visitando a mãe, que sofre de demência. “Ela disse: ‘Acho que é a sua demência que está falando, mas vocês têm uma coisa chamada apito wiener?’ contou Mollie. Ela entregou um para a mulher, e a mulher desatou a chorar.

Sua mãe não lembrava nada havia dois anos, contou, mas o Wienermobile e o seu chamado característico brilhara no meio da névoa. “Ela disse: ‘Muito obrigada. Principalmente com tudo o que estamos passando, isto é inacreditável’ ”, contou Mollie. “É por isso que acho importante estarmos aqui espalhando alegria, uma coisa muito escassa para tantas pessoas”.

“Nós sabemos que há gente que acha isto estranho, que não passa de um cachorro quente gigante sobre rodas, mas você se surpreenderia com a relação que ele estabelece com as pessoas”. Mollie disse que há os entusiastas que dirigem horas para ver a salsicha em toda a sua glória.

Uma mulher dirigiu 12 horas – só ida – apenas para vê-lo. “Ela era fã do Wienermobile quando criança, e ficou muito entusiasmada”, disse Mollie. “Quando estávamos saindo, ela falou: ‘Este é o melhor dia da minha vida. E eu casei’ ”. O que se tornou cada vez mais raro, por causa do coronavírus, é pegar uma carona no carro cor de mostarda e ketchup do Wienermobile. Os poucos que conseguem o privilégio precisam passar álcool nas mãos, colocar a máscara e sentar no banco traseiro mais distante. (A mulher que dirigiu por 12 horas foi premiada).

Outro carona, em um Wienermobile diferente, teve a oportunidade para poder realizar o objetivo de uma lista de desejos póstuma. Eles levariam as cinzas de um membro da família falecido que sempre desejara dar uma voltinha no Wienermobile. O site da Oscar Mayer permite que qualquer pessoa solicite uma visita. Mollie já participou de desfiles, carreatas e aniversários de crianças.

Ela espera este ano conseguir um convite para conceder a um recém-nascido a primeira corrida para casa ao sair da maternidade, e participar de mais casamentos. Ela já esteve em um, não oficialmente. “Nós não acabamos necessariamente com o casamento”, contou Mollie. “Falei com um homem em frente ao local que disse: ‘Olha, vai parecer muito louco, mas eu dirijo o Wienermobile. Está logo ali’”.

Não precisou de nenhum estímulo. A noiva e o noivo saíram correndo. Indo embora, os marqueteiros da comida ambulante, deram aos recém-casados apitos e um banco de plástico de Wienermobile com as palavras: ‘Recém-casados’. Mollie acha que, este ano, os momentos indeléveis de leveza que o seu emprego cria são muito mais importantes, em tempos tão difíceis.

“Ouvir que o Wienermobile produz na vida das pessoas um impacto que sequer imaginaríamos, é muito legal”, observou. Mollie está no emprego há apenas um ano, e ela e o seu parceiro muitas vezes passeiam fora da cidade nos dias de folga. “Mesmo fora da estrada, pelo menos estou fazendo uma pessoa feliz”, ela falou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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