Jon Key/The New York Times
Jon Key/The New York Times

Os Smiths, a primeira família de Hollywood a colocar tudo para fora

Em um livro, série e música, Will, Jada, Jaden e Willow Smith refizeram lar de estrelas para nova era de celebridades movidas pela realidade

Jon Caramanica, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2022 | 05h00

Na primeira página do recente livro de memórias de Will Smith, Will, o superastro global conta uma história horrível sobre ver seu pai bater na cabeça de sua mãe com tanta força que ela cuspiu sangue. Os primeiros capítulos do livro continuam da mesma maneira – um jovem Will, naturalmente carismático e excêntrico, assume o papel de animador da família para salvar sua mãe, ele mesmo e todos os outros.

“Eu seria a criança de ouro”, ele escreve. “O salvador da minha mãe. O usurpador do meu pai. Seria a performance de uma vida. E nos próximos 40 anos, eu nunca iria largar o personagem. Nem uma vez.”

Que ele se tornou um conquistador perpétuo em seus filmes a partir de meados da década de 1990 – combatendo alienígenas em Homens de Preto, robôs em Eu, Robô, mutantes em Eu sou a lenda, um traficante de drogas em Bad Boys, George Foreman em Ali - pode ter sido uma resposta ao trauma, mas também o transformou em um dos atores mais rentáveis do mundo. Fora das câmeras, ele se comportou como na frente delas, revelando pouco: uma pessoa desconhecida amada por milhões.

Nos últimos dois anos, os músculos de Smith afrouxaram um pouco. Ele se tornou uma presença relaxada e sem muito ensaio no Instagram e no TikTok. Além de sua autobiografia excepcionalmente vulnerável, ele também apareceu recentemente em uma série de seis partes do YouTube Originals, “Best Shape of My Life”, ostensivamente sobre perder peso, mas mais sobre as fissuras profundas na casca externa de seu personagem público. Por décadas, ele mostrou uma fachada endurecida; agora ela está derretendo.

Esse pivô para a transparência faz dele o patriarca de uma família que ultimamente fez da intimidade seu negócio. Os Smiths — Will, 53; sua esposa, Jada, 50; seus filhos, Jaden, 23, e Willow, 21 – se tornaram a primeira família a colocar tudo para fora. Entre a calma recém-descoberta de Will, o programa de bate-papo rápido de Jada e Willow, “Red Table Talk” e a música de Willow e Jaden, os Smiths remodelaram uma antiga unidade de elite de Hollywood para a nova era de celebridades movidas pela realidade.

O caminho deles tem sido o oposto, digamos, dos Kardashians, o ideal platônico do clã de reality shows que desejou o estrelato mais tradicional (sempre borrando as linhas entre a antiga e a nova fama ao longo do caminho). Os Smiths, por outro lado, passaram de um estilo convencional de celebridade para um mais tenso e extravagante e, crucialmente, fizeram isso com alguma graça – chocante, especialmente dada a intensidade de algumas das revelações em jogo.

O deles é uma reformulação perfeitamente cronometrada para a era das confissões online e marcas pessoais baseadas no trauma, especialmente para uma família em que os pais estão se afastando do olho da câmera e as crianças eram famosas antes mesmo de terem a opção de querer isso ou não. É também uma validação profunda do poder da franqueza emocional e sua desestigmatização para os famosos, transformando as revelações que teriam sido relegadas a tablóides lascivos e biografias não autorizadas em épocas anteriores em material de empoderamento pessoal.

Will pode ser o membro da família Smith com o maior perfil público, mas foi Jada quem ajudou a redigir o modelo da reinvenção da família com “Red Table Talk”. O programa, transmitido no Facebook Watch, começou em meados de 2018 e rapidamente se tornou conhecido por conversas inesperadamente vulneráveis, tanto com convidados famosos, quanto entre os apresentadores: Jada, Willow e a mãe de Jada, Adrienne. Cada mulher mantém sua posição – vejam, por exemplo, o episódio sobre poliamor, no qual Willow parece desconcertar seus co-apresentadores – mas a boa vontade entre os familiares impede que o programa vire uma verdadeira tensão.

Mais de um episódio investiga os desafios do casamento de Will e Jada, oferecendo pequenas revelações sobre um casal frequentemente alvo de fofoca. Eles insistem que nunca vão se separar, porque depois de superar desafios não especificados, “não temos nenhum empecilho”. (No final do bate-papo, Will pretende dissipar alguns rumores frequentes: “Nós nunca fomos cientologistas, nunca fomos swingers”, embora Jada aponte que o segundo é um termo para um “estilo de vida específico”.)

Assista a “Red Table Talk” o suficiente depois de ler o livro de Will e absorver sua série no YouTube e você pode encontrar a mesma história contada de algumas maneiras diferentes – ele está treinando esse desabafo há algum tempo. Ao contrário de Jada, que aborda o programa e compartilha suas verdades mais casualmente, Will abraçou totalmente essa mudança e está tratando-a como se fosse um filme de sucesso: ensaio, polimento, entrega impecável.

“Best Shape of My Life” começa como um programa de perda de peso – Will tem uma leve barriguinha. Para resolver o problema, ele voa para Dubai para treinar com seu personal trainer, como se faz. Ele quer que o processo seja filmado, diz, porque “as câmeras agem como meu patrocinador – elas me mantêm responsável”. Ele participa de intensos desafios físicos – caminhando até o topo do Burj Khalifa, o edifício mais alto do planeta, ou navegando na pista de obstáculos da Academia de Polícia de Dubai – e também está trabalhando em seu livro de memórias.

Logo, ele começa a se irritar com essa responsabilidade. Agonizar com a meta de perda de peso começa a parecer uma falsa tensão. O mesmo acontece com o estresse sobre o prazo de entrega de seu livro (acentuado pelo que parecem ser mensagens de correio de voz encenadas de seu assistente). Em vez disso, o que se desenrola é um cabo de guerra entre sua compulsão por representar e sua necessidade de recuar. O quarto episódio é intitulado “Eu Desisto”, e então ele continua por mais dois episódios – afinal, esta é uma produção de Will Smith. Mas as costuras vão se desgastando: no quinto episódio, ele canta: “[palavrão] o orçamento, [palavrão] o prazo – eles receberão o que dermos a eles”.

Vários segmentos do programa são dedicados aos segmentos de leitura de Will de suas memórias para familiares e amigos. Esses momentos limitam a vulnerabilidade sem nunca separá-la da performance – Will chora sobre os desafios em sua casa de infância, e seus espectadores, incluindo seu terapeuta, concordam. Pelo menos alguns anos depois de seu auge de dominação de bilheteria, ele construiu um sistema de recompensas mais escalável.

(E para que você não esqueça que a reformulação da família não é um empreendimento comercial pequeno, há oportunidades incontáveis de promoção cruzada. Em “Best Shape”, Will costuma usar roupas de sua linha Bel-Air Athletics. Quando a família se reúne em Miami para ouvir Will ler capítulos sobre eles, a mesa está abastecida com as garrafas quadradas azuis exclusivas da Just Water, a empresa de Jaden.)

Outrora o tipo de superstar conhecido pelo maximalismo suave, Will já experimentou esse tipo de conteúdo nos bastidores antes: “Will Smith's Bucket List”, uma série no Facebook Watch, e “Will Smith: Off the Deep End”, um documentário de imersão na natureza. Mas o ano passado constituiu uma reformulação da carreira multiplataforma em que Smith usa todas as ferramentas de celebridade a serviço de descascar suas camadas.

Em sua autobiografia, ele escreve de forma comovente sobre o cabo de guerra que sente em relação ao pai, que incutiu em Will a disciplina com a qual construiria sua carreira astronomicamente bem-sucedida, mas também era abusivo. Em uma seção, ele sugere que considerou empurrar seu pai idoso por um lance de escadas como vingança.

Mas a verdadeira revelação sobre o relacionamento de Will com a autoridade paternal vem em King Richard, o filme biográfico do ano passado sobre Richard Williams, pai de Serena e Venus. Richard Williams foi muitas vezes difamado pela maneira obstinada com que criou suas filhas, mas Will o interpreta com empatia como um herói teimoso, inclinando-se para sua obstinação, mas nunca fazendo dele um objeto de escárnio. (Ele foi indicado ao Oscar pela atuação.) Nenhum meio está além dos limites quando os fins são tão invejáveis.

É provável que o papel tenha um duplo significado para Will – por um lado, é uma celebração da disciplina transformadora que ele aprendeu com seu próprio pai (em um contexto não abusivo) e, por outro, é um argumento para seu próprio estilo de paternidade. Tanto no livro de memórias quanto em Red Table, ele fala abertamente de como sua paternidade severa sobre Jaden e Willow explodiu em seu rosto em várias ocasiões.

Quando o primeiro single de Willow, “Whip My Hair”, se tornou um sucesso, ela se rebelou contra as pressões da turnê raspando a cabeça. O filme de ação que ele fez com Jaden, After Earth, foi um fracasso colossal. (Will tem outro filho, Trey, de seu primeiro casamento, que às vezes é DJ e ocasionalmente aparece no “Red Table Talk”.)

E, no entanto, a sensatez dos Smiths mais jovens é algo notável. Eles são pensadores desenfreados da maneira que crianças privilegiadas podem ser, mas também são curiosos e empáticos e, considerando todas as coisas, decididamente calorosos. (Ouça Jaden falar sobre aprender a pagar pelo jantar e você vai derreter.) Dada a jornada completa de seus pais para uma celebridade intocável e de volta, e dado que eles nasceram em uma geração muito mais transparente, é fácil adaptar-se à nova visibilidade de sua família.

Para Will e Jada, porém, o ato de confissão é, naturalmente, uma reafirmação de poder. Ser tão vulnerável, efetivamente sem medo de represálias ou colapso público, talvez seja o teste final da celebridade. A única questão que resta é quais segredos ainda se escondem por trás de toda essa transparência. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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