Katherine Acosta
Katherine Acosta

Winter, a bebê, está chegando (no berçário)

Após sucesso de 'Game of Thrones', número de crianças com nome de personagens da série aumentou

Alan Mattingly, The New York Times

16 de junho de 2019 | 06h00

“Eu e meu marido nos conhecemos quando começou a primeira temporada”, lembrou Christina Jettie da exaltação daqueles primeiros dias. “Ele me convidou para assistir à exibição com os seus colegas de quarto. Eram os únicos que tinham HBO”. Não está claro se, no início, eles ficaram ligados um no outro ou em Game of Thrones. O fato é que compraram o pacote todo. Por fim, casaram e passaram a lua de mel na Islândia, onde foram rodadas algumas das cenas do seriado.

Agora, o casal, que mora na Carolina do Sul, espera a chegada de agosto e o nascimento da filha. Seu nome será Winter (Inverno). Segundo os pais: “Winter está chegando”. A brincadeira com o nome diverte outros fãs da série. E muitos deles aguardam o programa para colher alguma indicação sobre o nome dos próprios filhos. “Alguns acham que fui longe demais na minha obsessão pelo seriado”, brincou Marina Lippincott, mãe de uma das inúmeras meninas americanas que receberam o nome de Ayra (personagem feminino muito forte). “Eu não ligo. Arya sabe quem ela é, e é o que ela quer ser. Ela já vai e pega o que quer. Nada a segura - nem mesmo o fato de ser uma menina”.

Há também muitas meninas que estão nascendo e ganharam o nome de Khaleesi, tanto na Grã-Bretanha quanto nos Estados Unidos. Logo chegarão outras crianças que se chamarão Daenerys, Sansa, Cersei, Tyrion e Theon. A pronúncia e a grafia destes nomes serão duas coisas complicadas com que terão de se defrontar. 

Mas, segundo alguns adultos, estas serão as suas preocupações menores. Na sua opinião, o nome de uma criança é algo demasiado importante para ser deixado ao gosto dos pais. Eles deveriam esperar que os seus filhos escolhessem seu próprio nome, ou permitir que o mudassem quando chegassem a uma idade suficiente para manifestar as próprias preferências.

George Vuckovic e Esther Hunt de Illinois estão dando algumas opções à filha. Eles quase a chamaram Athena; mudaram para Isabelle, um mês depois de sair do hospital, mudaram novamente para Elena. Agora, ela tem 8 anos e está pensando em voltar para Athena. Ou quem sabe Íris. “A vida é dela, e se ela achar sentido em um nome diferente, por que não?”, argumentou Vuckovic.

Carole Lieberman, psiquiatra infantil da Califórnia, tem uma resposta para esta pergunta. “Estes pais estão se rebelando contra a tradição guiados apenas pela emoção do momento, sem se darem conta de quanto estão prejudicando os filhos”, afirmou. “Crianças que têm o nome de um passatempo, ou não têm nome, devem ter a sensação de não terem uma identidade própria e seguramente sofrerão de problemas psicológicos”.

J. Martin Griffith, de Filadélfia, recebeu o J. da mãe ao nascer, com a opção de escolher um nome para completá-lo. Hoje, aos 36 anos, ainda não se decidiu. E questiona a estratégia da mãe. “É difícil dar um nome a outra pessoa, e muito mais você mesmo escolher o seu. Um nome tem um peso especial no mundo”, ponderou.

Se um nome tem tanto significado, imaginem o peso para as crianças e para os pais que lidam com uma questão mais fundamental de identidade: o gênero. Nos Estados Unidos, a discussão chegou recentemente às legislaturas estaduais, que estudam opções não binárias para os documentos de identificação oficiais, como as carteiras de motorista.

Nas audiências, alguns pais declararam problemas na compreensão da identidade de seus filhos não binários.  Sara Collina, professora de estudos de gênero de Maryland, lembra de uma conversa que teve  com sua filha, que renunciara ao gênero atribuído no nascimento. “Querida”, disse Sara, “não há uma maneira certa de ser uma menina”./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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