Chang W. Lee/The New York Times
Chang W. Lee/The New York Times

O que fazer com as imagens do World Trade Center em filmes e séries?

Dezoito anos após os ataques, certas feridas ainda não cicatrizaram

Tom Mashberg, The New York Times

19 de setembro de 2019 | 06h00

Pode acontecer de maneira abrupta, enquanto assistimos a reprises de Friends ou revemos filmes como Armagedom ou Uma Secretária de Futuro: uma visão das Torres Gêmeas dominando o horizonte de Nova York, como se fossem sentinelas de aço.

“Eu costumava ficar aflita quando comecei a vê-las em reprises e programas antigos”, afirmou Sally Regenhard, uma ativista por segurança em arranha-céus que perdeu o filho, Christian, um bombeiro recém-treinado de 28 anos, quando as torres caíram 18 anos atrás.

Apesar de ainda ver as torres como “instrumentos da morte”, ela afirmou que fica “menos aflita agora”.

Desde os ataques contra o World Trade Center de 11 de setembro de 2001, cineastas, produtores de TV e executivos de Hollywood têm ponderado a respeito da melhor maneira de lidar com material que exibe as torres, seja em clipes de abertura (Família Soprano, Sex and the City); em cenas de batalha (Armagedom, Independence Day); ou simplesmente como pano de fundo para um romance (Beijando Jessica Stein) ou sátiras espirituosas (Os Simpsons).

“Essa parece ser a grande questão em termos de etiqueta nos Estados Unidos”, afirmou o diretor Sam Raimi, que, em 2002, enfrentou um inusitado desafio: como lançar o aguardado “Homem-Aranha”, destinado ao sucesso nas bilheterias, que apresentava uma cena na qual o herói frustra a fuga de ladrões de banco em um helicóptero capturando-os em uma teia armada entre a Torre Norte e a Torre Sul.

Para Raimi e seus colaboradores, deixar aquela cena no filme era “impensável”. “Não achamos que era nosso direito, meses depois desse terrível massacre, exibir uma cena que resultaria em tanto pesar para tanta gente”, disse ele.

Raimi não estava sozinho ao extirpar as torres de produções de cinema e vídeo. Os seriados Família Soprano e Sex and the City deletaram elas de seus clipes de abertura a partir de 2002.

Os produtores de Os Simpsons também impediram a retransmissão de um episódio de 1997 em que um minúsculo Homer corre entre uma torre e outra, (tentando chegar ao banheiro público no último andar da Torre Norte) enquanto os arranha-céus pairam acima dele, imponentes.

Com o passar do tempo, porém, até as piores feridas começam a cicatrizar. Aquele episódio dos Simpsons foi restaurado à programação e, este ano, o celulóide original desenhado a mão da corrida de Homer para conseguir se aliviar foi doado ao Memorial e Museu Nacional do 11 de Setembro - e qualificado por sua curadora, Alexandra Drakakis, como uma doação “hilária e carinhosa”.

Jennifer Westfeldt, que colaborou no roteiro de Beijando Jessica Stein e coestrelou o filme, participou de sua estreia no Festival Internacional de Cinema de Toronto, em 10 de setembro de 2001, horas antes dos ataques. Ela se recorda da alegria que sentiu após seu filme, repleto de planos abertos das torres nas melhores horas de luz, ter sido aplaudido.

O filme foi exibido pela segunda vez em 12 de setembro, disse ela, e “as pessoas que foram à sessão contaram que escutaram gente soluçando e chorando por causa daquelas imagens”.

“Era de cortar o coração”, acrescentou ela. “Todas aquelas imagens que imaginamos como lindas e românticas estavam causando arrepios e assombro, no meio de uma comédia romântica cuja intenção era fazer rir, não deixar o público traumatizado.” Finalmente, eles optaram por refilmar as cenas.

Alguns diretores, porém, não apoiam alterar um filme realizado antes do 11 de Setembro em razão de sensibilidades pós-11 de Setembro. Entre eles está Michal Bay, diretor de Armagedom, um filme de desastre de 1998 que mostra uma das torres em chamas após ser atingida por um meteoro.

“Não se pode mudar a história”, disse Bay. “Arte é arte - é uma forma de expressão.”

“Filmes são filmados, editados e finalizados para que o mundo os veja”, continuou ele. “Eles não são reeditados por causa de mudanças na história. Se fosse assim, isso significaria que todo filme tem de ser alterado. Cada livro, cada conto, cada pintura sobre Nova York nos últimos 30 anos. Isso não teria fim.”

Outros dizem que se trata apenas de timing - de se perguntar se você violou a regra do “cedo demais”.

O diretor Paul Greengrass enfrentou essa questão quando decidiu, em 2006, realizar Voo United 93, a respeito do avião sequestrado no 11 de Setembro que caiu na Pensilvânia, quando os passageiros reagiram aos sequestradores. Como foi a primeira produção comercial a respeito dos ataques, o filme foi duramente criticado e considerado de mau gosto antes do lançamento. Quando foi lançado, porém, foi aclamado pela crítica e louvado pelas pessoas próximas aos passageiros, por sua verossimilhança e carga emocional.

“Quando eu vejo as torres, agora, tenho uma sensação de tristeza e perda”, disse Greengrass. Mas, “de uma maneira curiosa”, acrescentou ele, “também as vejo como uma referência do passado e do que está por vir”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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