KC Nwakalor para The New York Times
KC Nwakalor para The New York Times

Xenofobia 'expulsa' imigrantes nigerianos da África do Sul

Hostilidade vem se acumulando, e muitos sul-africanos passaram a culpar os estrangeiros por seus problemas econômicos

Julie Turkewitz, The New York Times

28 de setembro de 2019 | 06h00

LAGOS, NIGÉRIA - Eles fugiram dos ataques da multidão e do incêndio de suas lojas; chegam sem nada, trazendo apenas filhos e malas, no dia 18 de setembro. Mais de 300 nigerianos voltaram a Lagos fugindo de Johannesburgo porque sua vida se tornou insustentável na África do Sul, para onde haviam emigrado.

Chegaram na calada da noite, e fizeram uma fila em um centro de trânsito. “Assinem aqui’, disse a polícia. “Esperem aqui”. O seu dinheiro era escasso. O ódio pelos estrangeiros, contam, foi o que os afugentou. “Se eu ficasse”, explicou Socarvin Onuoha, um nigeriano proprietário que tinha uma loja de celulares há mais de dez anos, “teria morrido”.

Africanos de todo o continente emigraram para a África do Sul há anos, na esperança de encontrar um país de oportunidades e um lugar para criar os filhos. Mas a hostilidade veio se acumulando ao longo do tempo, e muitos sul-africanos passaram a culpar os estrangeiros por seus problemas econômicos, às vezes acusando os imigrantes de roubarem os seus empregos e suas casas.

Os nigerianos disseram que frequentemente são tachados de traficantes de drogas e ladrões. Este ressentimento explodiu em violência este mês, quando cidadãos de Johannesburgo e arredores começaram a saquear e queimar as lojas dos estrangeiros. Os ataques mataram pelo menos 12 pessoas e provocaram graves divergências entre a África do Sul e a Nigéria, ameaçando as relações entre as maiores economias do continente.

O presidente Cyril Ramaphosa da África do Sul enviou um representante à Nigéria para transmitir “as mais sinceras desculpas” pelos ataques, e prometeu que os autores seriam processados. Mas o governo nigeriano começou a retirar os seus cidadãos de avião da África do Sul. O primeiro chegou recentemente com cerca de 200 pessoas a bordo; o segundo com 314.

Onuoha, 55, disse que fugiu da sua loja de celulares quando esta foi atacada por uma multidão enfurecida. Decidiu então abandonar o negócio, o carro, a casa, e voltar para a Nigéria. Ficou sentado em um edifício do aeroporto, cercado por outros nigerianos que acabavam de regressar, com os filhos, de 17 e 18 anos. Tinha 50 rand no bolso, cerca de US$ 3. “Não se onde vamos dormir esta noite”, falou.

Quando o voo pousou, a primeira pessoa a descer foi Patience Ndukwu, acompanhada pelos quatro filhos, dos seis aos 14 anos. Mandaram que escrevesse o seu nome no alto de uma folha de papel, e depois foi  mandada para outras mesas, onde teve de preencher outra papelada.

Cada um recebeu uma refeição em um recipiente de plástico, um número de telefone onde poderia pedir um empréstimo para começar um negócio e um envelope para os gastos dos próximos dias, enviados por entidades do governo nigeriano. Patience mudou-se para a África do Sul em 2007, seguindo o marido, também nigeriano. Ela abriu um restaurante, mas quando os ataques começaram, o negócio acabou. “Foi tudo embora, rápido, rápido, rápido”, disse.

Pentecost Ikechukwu, 33, estava com a esposa, Sandra, de 29 aos. Eles tiveram dois filhos na África do Sul: Favor, 3, e Gracious, quase 2. Algumas semanas atrás, a loja onde ele trabalhava foi incendiada e o seu patrão ficou em coma. Ikechukwu foi embora com US$ 7. “Se eu pudesse voltar atrás, jamais poria os pés naquele país”, afirmou. “Ele destrói o futuro da gente. Me destruiu”. Os nigerianos - assim como outros emigrantes da Somália e do Zimbábue - mudaram-se para a África do Sul em busca de trabalho e educação. 

A Nigéria tem uma taxa de desemprego e subemprego de mais de 40%, segundo dados oficiais. Mas a África do Sul ainda luta com os legados do colonialismo e do apartheid e tem graves problemas econômicos. Muitos pobres não viram qualquer mudança concreta depois do fim do apartheid.

Os críticos do governo culpam os políticos por alimentarem um sentimento de ódio pelos imigrantes na tentativa de se isentarem de qualquer responsabilidade pelas dificuldades do país. Foi constatado que dez dos mortos nos tumultos eram cidadãos sul-africanos, afirmou o ministro da Defesa; dois eram estrangeiros. 

Perto da meia-noite no centro de trânsito, Ikechukwu estava na porta. “Não tenho nenhum plano”, comentou. “Vamos”, disse à esposa e às filhas, levando-as para um estacionamento escuro e lamacento. Lá, eles ficaram perto de um poço, esperando o que viria em seguida. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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