Lam Yik Fei para The New York Times
Lam Yik Fei para The New York Times

Xi reforça a própria imagem à custa do legado de ex-líder chinês

A ascensão de Xi Jinping chegou em detrimento de Deng Xiaoping, considerado o arquiteto da prosperidade da China

Steven Lee Myers, The New York Times

16 Novembro 2018 | 06h00

SHENZHEN, CHINA - Pouco depois de assumir o comando como líder da China, Xi Jinping fez uma peregrinação para deixar uma coroa de flores num grande monumento a um de seus antecessores: Deng Xiaoping, o homem que recebe o crédito por dar início à nova era de prosperidade capitalista do país 40 anos atrás.

No panteão dos líderes fundadores da China comunista, Deng só está abaixo de Mao, e sua influência e popularidade sobreviveram à sua morte, em 1997. Todos os líderes chineses que o sucederam buscaram se apresentar como herdeiros do legado de Deng.

Mas, agora, Xi parece adotar uma abordagem diferente. Uma grande pintura de sua visita ao monumento está em exposição nos museus da China em antecipação ao aniversário da reunião da liderança do Partido Comunista usada por Deng para inaugurar a "reforma e abertura" do país. Xi é visto no centro, em primeiro plano, enquanto a estátua de Deng é uma imagem distante, perdida num pôr do sol dourado.

Esse é o exemplo mais recente daquilo que alguns observadores apontam como um esforço coordenado para ampliar o papel de Xi na história oficial do partido - uma guinada propagandística que pode ter um impacto profundo na política chinesa e na elaboração das políticas públicas do país. Ele centralizou o poder e reforçou o próprio perfil com uma extravagante campanha multimídia altamente coreografada que foi ridicularizada pelos críticos como um retorno ao culto à personalidade dos dias de Mao.

"Está claro que Xi não se contenta em agir à sombra de Deng", disse o estudioso Julian B. Gewirtz, da Universidade Harvard, acrescentando que Xi tinha como objetivo "estabelecer um sistema político distinto, no qual ele ocupa o centro".

Ainda assim, o legado de Deng representa, ao mesmo tempo, um desafio e uma possível limitação para Xi - um parâmetro histórico contra o qual ele será medido, e uma fonte de tradição que outros membros do partido podem usar para limitar as opções de Xi.

Além da propaganda dos próprios feitos, coisa que Deng não vazia, Xi pressionou por uma política externa mais assertiva que desafia abertamente os Estados Unidos, trabalhou para limitar a influência ocidental na sociedade chinesa e buscou proteger empresas chinesas da concorrência estrangeira.

Xi também removeu os limites constitucionais à reeleição para a presidência, levando muitos chineses a recordarem o alerta feito por Deng, em 1980, dizendo que "mandatos de uma vida inteira" só serviriam para corromper os líderes do partido - uma crítica a Xi que foi censurada tão rapidamente quanto chegou à internet.

Um discurso de Deng Pufang, o influente filho de Deng, durante o congresso anual da Federação Chinesa de Pessoas com Necessidades Especiais, em setembro, chamou atenção porque parte dele foi vista como uma crítica indireta às ambições de Xi.

"Precisamos manter sempre a mente clara com uma atitude pragmática", disse Deng, paralisado num ataque durante a Revolução Cultural, que atua como presidente da federação. "Não devemos duvidar da nossa capacidade, nem tampouco exagerá-la".

Xi consolidou sua posição como líder supremo da China e não parece ter rivais políticos significantes. Depois de um período de descontentamento com a ameaça de uma prolongada guerra comercial com os EUA e resistência aos investimentos de infraestrutura que estão no coração de sua iniciativa Cinturão e Estrada, ele reafirmou seu lugar no topo do sistema político.

No sul da China, Xi visitou uma exposição dedicada à data comemorativa e prometeu continuar a transição econômica iniciada por Deng, mas não o mencionou - ao menos não nos comentários divulgados pela mídia estatal.

Muitos compararam a viagem ao "giro pelo sul" de 1992, usado por Deng para conduzir o país de volta ao rumo das políticas voltadas para o mercado, deixando para trás o isolamento e endurecimento econômico que se seguiram ao massacre da Praça da Paz Celestial em 1989.

"Xi Jinping vem roubando políticas públicas da era de Deng", disse o estudioso australiano Geremie R. Barmé, especialista na China, em meados do ano.

Barmé afirmou que Xi estava ansioso para se apresentar como "o grande unificador que sucedeu a Mao", relegando ao segundo plano Deng e os líderes que o seguiram rumo a uma era de transição econômica que resultará numa nova era de força que somente ele poderá alcançar. É revelador que a viagem de Xi tenha incluído uma visita ao comando sul do exército da China, onde pediu aos comandantes que "fortaleçam a missão" e se concentrem em "preparativos para uma guerra".

Mas outros estão se opondo a esforços para diminuir o legado de Deng.

"A sociedade chinesa atual é resultado da reforma e da abertura promovidas por Deng", escreveu Sheng Hong, diretor do Instituto de Economia Unirule, num ensaio recente. "No momento, há uma contracorrente. Entretanto, não deve ser difícil resistir à contracorrente e sustentar a visão de Deng, aprofundando as reformas e a abertura".

No dia 5 de novembro, Sheng disse no Twitter que recebeu instruções para não comparecer a uma conferência em Harvard dedicada ao aniversário e ao legado de Deng, pois isso supostamente "colocaria em perigo a segurança nacional". / Jonathan Ansfield contribuiu com a reportagem.

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