Tyrone Turner / The New York Times
Tyrone Turner / The New York Times

'Geração Instagram': uma fila de selfies ao lado de obra de Yayoi Kusama

Céticos sugerem que o mundo das artes busca lucrar com a popularização de obras como a 'Infinity' (quartos que retratam o infinito), da artista asiática

Robin Pogrebin, The New York Times

28 de novembro de 2019 | 09h26

Entre as bolas e bolinhas, os espelhos e as abóboras de suas obras de arte, Yayoi Kusama incorporou recentemente mensagens poéticas, como a que está exposta na galeria de arte de David Zwirner, em Nova York, que diz: “Com o desafio de criar uma nova arte, trabalho como se estivesse perto da morte; estas obras são o meu tudo."

E há também poesia no que acontece com a carreira de Yayoi, considerando que acabou de fazer 90 anos. Quando ela era uma jovem artista, saiu de Matsumoto, no Japão, e veio para  Nova York, no fim da década de 1950; aqui, Yayoi lutou para ser levada a sério no mundo das artes. Mas este ano, além da mostra na Zwirner, que irá até 14 de dezembro, há nada menos que 18 versões da obra Infinity Mirror Room no mundo inteiro, de autoria de Yayoi Kusama.

A loja de departamentos Macy’s levou o seu primeiro balão de Yayoi no desfile do Dia de Ação de Graças, em Nova York: a face de um Sol com tentáculos repleta de pintas. O fenômeno é global: no próximo ano, três instituições europeias juntas apresentarão uma retrospectiva de Kusama, que começará na Alemanha, e em seguida viajará para a Suíça.

Alguns atribuem esta fascinação à geração Instagram, em que os jovens fazem fila para tirar selfies ao lado dos quartos de espelhos Infinity da artista com cores e luzes. Outros dizem que a sua interessante história pessoal repercute agora – ela foi a primeira mulher asiática a viajar sozinha para os Estados Unidos e lutou abertamente com os seus demônios (vivia em uma instituição psiquiátrica em Tóquio). 

Yayoi gosta muito de que a sua obra esteja tendo tamanha repercussão. “Eu faço obras com todos os meus pensamentos e com as profundas mensagens que envio sobre a vida e a morte, a paz e o amor, na esperança de que a minha arte chegue a muitas pessoas”, ela disse.

Os céticos sugerem que o mundo das artes busca ganhar dinheiro com isto. Os quartos Infinity muitas vezes exigem ingressos pagos adiantadamente com entrada programada, como o de US$ 15 para apreciar a brilhante sala das abóboras de Yayoi durante apenas um minuto no Institute of Contemporary Art, Miami.

O mercado de arte contribuiu para  intensificar este frenesi. Um príncipe saudita adquiriu recentemente a sala da abóbora, informou a Bloomberg. E a tela de Kusama, Interminable Net # 4, de 1959, estabeleceu uma nova alta para a artista na Sotheby de Hong Kong, na primavera, quando foi vendida por US$ 8 milhões. Alguns minimizam a fama de Yayoi como algo fabricado de maneira criativa. “É uma devoção de toda uma vida à mitologia que ela mesma criou para si”, afirmou o crítico Robert Storr.

Mas segundo Zwirner, o apelo de massa da artista não nega o seu valor histórico. “Com sua obra inicial, ela plantou uma bandeira no Minimalismo antes mesmo que conhecessemos o termo,” disse. “Não há um único museu importante que não tenha um Kusama ou que desejaria de ter o seu."

Kusama e história da arte

Na realidade,  Kusama foi em muitos aspectos a precursora de vários movimentos importantes na história da arte. Ela fazia esculturas com materiais não convencionais antes de Claes Oldenburg; pop art juntamente com Andy Warhil; quartos que imitam o infinito antes de Lucas Samaras; e arte performática em 1969.

Vestindo trajes que combinam com sua arte, Yayoi tem uma excentricidade  que fala à geração mais jovem. Ela se tornou também um poderoso símbolo de perseverança; apesar da depressão pessoal (que a levou a pelo menos uma tentativa de suicídio), ela persistiu. E continua fazendo arte quase todos os dias: todas as 45 pinturas da mostra de Zwirner são novas e, embora os seus quartos sejam  produzidos por artesãos, ela concebe cada detalhe individualmente. “A obra de Kusama faz as pessoas felizes’, ressaltou Zwirner. “As pessoas fazem fila para ter essa experiência." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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