Mustafah Abdulaziz para The New York Times
Mustafah Abdulaziz para The New York Times

Yo-Yo Ma toca Bach em turnê por 36 cidades

Mesclando música clássica com ação comunitária

Zachary Woolfe, The New York Times

03 Outubro 2018 | 10h00

LEIPZIG, ALEMANHA - Embora seja impossível não pensar em Johann Sebastian Bach caminhando por esta cidade, onde ele passou as últimas décadas de sua vida, o pouco que aqui restou do seu mundo foi alterado a ponto de ser irreconhecível.

A casa onde ele e sua família viveram foi demolida há cem anos, e Bach certamente nunca ouviu falar árabe, como acontece agora, no bairro de Neustadt habitado em grande pare por imigrantes.

Foi aqui em Neustadt, em uma suave tarde de fim de semana que, há poucos dias, Yo-Yo Ma visitou rapidamente um centro comunitário. Segurando o seu violoncelo Stradivarius, ele se aproximou de um círculo de adultos e crianças, e os cumprimentou carinhosamente.

“A coisa mais importante é doar-se inteiramente em certos momentos”, disse no dia seguinte. Ma, 62, esteve inteiramente nesse lugar. Ficou no centro comunitário apenas meia hora, mas sem parecer apressado, soube unir uma generosidade cativante - deu a dois futuros violoncelistas o seu instrumento para que ensaiassem na frente do grupo - a uma espécie de trabalho social.

“Aprender uma nova peça é como ir de um lugar a outro", afirmou respondendo a uma pergunta, estabelecendo uma ligação entre a tarefa do músico à vida dos migrantes.

Se Ma parecia totalmente à vontade, foi porque sua visita não foi inusitada para a carreira do músico na nossa vida cívica: o músico que convidamos para tocar por ocasião da posse de um presidente ou para lembrar o aniversário de um ataque terrorista.

E o que Ma toca em momentos como estes, para nos fazer chorar e então nos consolar, é, muito frequentemente, uma seleção das Suítes para Violoncelo, de Bach. Estas seis obras são o Everest do repertório do seu instrumento.

Em agosto, Ma lançou a sua terceira e provavelmente última gravação das suítes, uma interpretação tranquila, repleta de confiança, profundamente humana. A sua viagem a Leipzig fazia parte de um amplo projeto relacionado ao álbum: ao longo dos próximos dois anos, ele visitará 36 cidades em seis continentes.

Em cada cidade, ele acompanhará uma apresentação do ciclo completo - cerca de duas horas e meia de música labiríntica, tocada praticamente sem nenhuma pausa - com o que define com “um dia de ação” para levar Bach à comunidade.

Compostas por volta de 1720, pouco antes de Bach mudar-se para Leipzig, as suítes permaneceram pouco conhecidas até o início dos anos 1900.

Teriam continuado como mera curiosidade não fosse pelo violoncelista Pablo Casals, que encontrou uma edição usada da partitura em uma loja de Barcelona quando tinha 13 anos. Dezenas de anos mais tarde, nos anos 30, ele  fez uma gravação do conjunto, tornando-as peças obrigatórias no mundo inteiro.

“É incrivelmente elaborado e sublime, mas também incrivelmente fundamental”, disse Ma falando a respeito do ciclo.

Quando ele gravou as suítes pela primeira vez, em 1983, Ma ainda não tinha 30 anos, embora já tivesse muitos anos de carreira por ter começado como criança prodígio no início dos anos 60, quando a sua família se mudou de Paris para Nova York. A sua é uma leitura firme, dramática, robusta, da música com extremos de grande exaltação.

Essa primeira versão, ele disse com uma risada, “é como a afirmação juvenil ‘Eu sei tudo’. A segunda é a confusão típica da meia idade”.

A segunda gravação, “Inspired by Bach”, foi lançada no final dos anos 90, acompanhada por filmes criativos que mostravam Ma colaborando com artistas de outras disciplinas: um arquiteto paisagista, o coreógrafo Mark Morris, as gravuras de Piranesi.

Entre as duas gravações, Ma tornou-se gradativamente de instrumentista a ícone da música.

Ma levou muito a sério o seu status e o usa de maneira muito enriquecedora. Em 1998, ele deu início ao Projeto da Rota da Seda, dedicado à exploração das conexões culturais entre várias culturas, do qual surgiu o Silk Road Ensemble que viaja constantemente. Ele foi envelhecendo assumindo facilmente o papel do humanista que é um cidadão global, dando conferências sobre o papel dos artistas e das culturas em uma sociedade desgastada.

Um dos maiores testes de sua celebrada capacidade na área da comunicação com os públicos mais variados aconteceu com a sua apresentação das suítes em grandes espaços.

Em setembro do ano passado, ele realizou o que parecia uma loucura: tocou as suítes ao ar livre, diante de mais de 17 mil pessoas em Los Angeles. O crítico Alex Ross, do The New Yorker, a definiu “a experiência mais significativa de tudo o que eu pretendia ouvir neste ano”.

Eu entendi o que ele queria dizer depois de ouvir Ma realizando esta façanha na Igreja de São Nicolau, nesta cidade, onde Bach fazia música há 300 anos. Durante o espetáculo, notei uma nova placidez física nele: os efusivos movimentos corporais pelos quais ele se tornou conhecido, desapareceram.

“Quando era um músico mais jovem", observou o músico e regente Esa-Pekka Salonen, “ele tinha esta mesma habilidade e carisma, e fazia isto no palco. Havia uma enorme energia e expressão em cada nota que ele tocava. E agora ele aprendeu a relaxar nisso tudo”.

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