Dado Galdieri / The New York Times
Dado Galdieri / The New York Times

Como o YouTube impulsionou a extrema direita e elegeu Bolsonaro

Segundo pesquisas, a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) para a presidência do País foi incentivada, também, por seu crescimento nas recomendações de vídeos da plataforma

Max Fisher e Amanda Taub, The New York Times

25 de agosto de 2019 | 06h00

NITERÓI — Quando Matheus Dominguez tinha 16 anos, o YouTube recomendou a ele um vídeo que mudaria sua vida. Ele treinava violão assistindo a videoaulas na internet. Recentemente, a plataforma tinha instalado um sistema de inteligência artificial que aprendia com o comportamento do usuário e acrescentava aos vídeos recomendações de material semelhante. Um dia, esse sistema o encaminhou para um professor de violão chamado Nando Moura, que atraiu seguidores publicando vídeos a respeito de heavy metal, video game e política.

Em discursos de extrema direita, Moura acusava feministas, professores e políticos de participação em amplas conspirações. Dominguez foi fisgado. O YouTube recomendou outros vídeos de outros nomes da extrema direita. Um deles era o então deputado Jair Bolsonaro, figura então desconhecida na política nacional, mas um astro entre a comunidade de extrema direita no YouTube do Brasil, onde a plataforma só perde em espectadores para uma emissora de TV.

Em outubro de 2018, ele se tornaria o presidente do País. “O YouTube se tornou a plataforma de rede social da direita brasileira", avalia Dominguez, agora um magro jovem de 17 anos que diz sonhar com uma carreira na política. Integrantes da extrema direita recém conduzida ao poder dizem que seu movimento não teria crescido tanto nem tão rápido se não fosse pelo sistema de recomendação do YouTube. De acordo com novas pesquisas, é provável que ele esteja correto.

Recomendações da plataforma

O sistema de busca e recomendação do YouTube parece ter encaminhado sistematicamente os usuários para canais conspiratórios e de extrema direita no Brasil. Uma investigação do New York Times revelou que vídeos promovidos pelo site puseram de cabeça para baixo elementos centrais do cotidiano. Professores descrevem salas de aula amotinadas, com alunos que citam vídeos conspiratórios. Alguns pais consultam o "Dr. YouTube" em busca de informações de saúde, recebendo orientações perigosas. Vídeos incitaram ameaças de morte contra defensores da saúde pública. E uma onda de astros de direita se candidataram a cargos políticos, com alguns deles eleitos por margens históricas.

O sistema de recomendação do YouTube é pensado para ampliar ao máximo o tempo assistido, entre outros fatores, mas, de acordo com a empresa, não favorece nenhuma ideologia em especial. O sistema recomenda o que assistir a seguir, frequentemente reproduzindo vídeos automaticamente, com o objetivo de manter os usuários assistindo ao conteúdo da plataforma.

Mais espectadores, mais dinheiro

O sistema responde agora por 70% do tempo total passado na plataforma, diz a empresa. Conforme o número de espectadores aumenta exponencialmente em todo o mundo, alguns analistas acreditam que o YouTube movimente US$ 1 bilhão por mês. Representantes da empresa questionaram a metodologia dos estudos e disseram que os sistemas da plataforma não favorecem um determinado ponto de vista nem encaminham os usuários para o conteúdo extremista, mas concordaram com algumas das conclusões e prometeram mudanças.

O porta-voz Farshad Shadloo disse que o sistema “investiu pesado nas políticas, recursos e produtos” destinados à redução da disseminação de desinformações nocivas.

Um vídeo leva ao seguinte

Pesquisadores comandados por Virgilio Almeida, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tentaram entender como o YouTube molda a realidade de seus usuários. A equipe analisou transcrições de milhares de vídeos, bem como os comentários abaixo deles. Eles identificaram que os canais de direita no Brasil tiveram uma expansão do seu público mais rápida do que outros canais.

Nos meses que se seguiram à mudança de algoritmo do YouTube, as menções positivas a Bolsonaro aumentaram. E o mesmo ocorreu com suas teorias conspiratórias. Uma equipe da Universidade Harvard programou um servidor brasileiro para inserir um canal ou termo de busca popular, abrir as principais recomendações do YouTube, e seguir as indicações desses vídeos, e assim por diante.

Os pesquisadores identificaram que, depois de assistir a um vídeo a respeito de política ou mesmo entretenimento, as recomendações do YouTube costumavam favorecer canais de direita, repletos de teorias da conspiração. Mais importante, os usuários que assistiam a um canal de extrema direita eram frequentemente apresentados a outros. O algoritmo uniu canais antes marginais e então construiu para eles um público, de acordo com os pesquisadores.

Um desses canais pertencia a Bolsonaro, que há muito usava a plataforma para denunciar supostas farsas e conspirações. Então, o sistema político brasileiro entrou em colapso justamente em um momento em que a popularidade do YouTube estava explodindo no país. A extrema direita da plataforma, entre a qual Bolsonaro era uma figura importante, viu seu público ampliado, ajudando a preparar um grande número de brasileiros para a sua mensagem em um momento em que o País estava pronto para uma mudança política.

O YouTube questionou a metodologia dos pesquisadores e disse que seus dados internos contradizem as conclusões deles. Mas, quando solicitados, esses dados não foram apresentados.

‘Dr. YouTube’

As conspirações não se limitavam à política. Muitos brasileiros buscando informações de saúde encontraram vídeos que os deixaram aterrorizados: alguns diziam que o vírus da Zika era disseminado pelas vacinas, ou pelos inseticidas usados para conter o mosquito que é o real vetor dessa doença que flagelou o nordeste brasileiro.

Os vídeos pareciam ganhar espaço na plataforma da mesma maneira que o conteúdo extremista: com alegações alarmantes e a promessa de verdades proibidas que mantinha os usuários ligados. Médicos, assistentes sociais e ex-funcionários públicos disseram que pacientes assustados recusaram vacinas e inseticidas. As consequências foram mais sentidas em cidades mais pobres como Maceió, no nordeste do Brasil, uma das mais atingidas pelo Zika. “As notícias falsas são uma guerra virtual", analisa Flávio Santana, neuropediatra de Maceió.

Quando o Zika apareceu, em 2015, funcionários de saúde distribuíram larvicidas que mataram os mosquitos responsáveis por espalhar a doença. Pouco depois da instalação do novo algoritmo de recomendações do YouTube, pacientes de Santana começaram a contar a ele que tinham visto vídeos dizendo que o Zika vinha das vacinas e, posteriormente, que viria dos larvicidas. Muitos recusaram ambas as coisas.

Auriene Oliviera, infectologista do mesmo hospital, disse que os pacientes cada vez mais questionavam suas orientações, incluindo em casos de procedimentos cruciais para a sobrevivência de seus bebês. “Eles diziam: ‘Não, eu pesquisei no Google, vi no YouTube’". De acordo com a médica, profissionais de saúde treinados estavam concorrendo com “Dr. Google e Dr. YouTube” — e perdendo a disputa.

Mardjane Nunes, especialista em Zika, disse que conforme um número cada vez maior de comunidades recusa o larvicida, a doença parece estar voltando aos poucos. Pesquisadores de Harvard identificaram que os sistemas do YouTube frequentemente encaminhavam para canais conspiratórios os usuários que pesquisaram informações a respeito do Zika, ou mesmo que tenham assistido a vídeos legítimos de saúde.

Um porta-voz do YouTube confirmou o resultado, descrevendo-o como acidental, e disse que a empresa mudaria a abordagem da ferramenta de busca para os vídeos ligados ao vírus.

‘Ecossistema do ódio’

Com a ascensão da extrema direita, muitas de suas principais vozes ofereciam ao seu público um alvo: alguém para levar a culpa. Paranóicos do YouTube voltaram suas atenções contra Debora Diniz, ativista dos direitos da mulher cuja defesa do aborto fez dela uma antiga inimiga da extrema direita. 

Bernardo Küster, astro do YouTube com 750 mil assinantes, acusou-a de envolvimento nas supostas conspirações do Zika. Conforme os canais de extrema direita e de teorias da conspiração passaram a citar uns aos outros, o sistema de recomendação do YouTube aprendeu a dispor seus vídeos em sequência. Por menos plausível que um rumor isolado possa parecer, quando reunida, a boataria cria a impressão de dúzias de fontes díspares revelando a mesma verdade chocante.

Ameaças de estupro e tortura encheram o telefone e a caixa de e-mails de Debora. Quando a universidade onde a ativista lecionava recebeu uma ameaça de que um atirador atacaria a ela e aos alunos, e depois que a polícia disse não ser mais capaz de garantir sua segurança, Debora deixou o Brasil. De acordo com ela, “o sistema do YouTube recomendando vídeos em sequência criou um ecossistema do ódio".

Os criadores desses vídeos também atacaram grupos humanitários cujo trabalho envolve tópicos polêmicos como o aborto. Carlos Jordy, que entrou para a câmara de vereadores de Niterói em 2017 antes de se tornar deputado federal dois anos mais tarde, não pareceu comovido ao saber que sua campanha no YouTube, acusando professores de difundirem o comunismo, virou de cabeça para baixo a vida desses profissionais. A professora Valeria Borges disse que ela e os colegas foram sobrecarregadas por mensagens de ódio, criando um clima de medo. Jordy disse que esse era seu objetivo. “Quero que ela sinta medo", enfatiza. “Estamos travando uma guerra cultural”. 

Ditadura do ‘like’

A politização do YouTube fica absolutamente aparente em São Paulo, na central do Movimento Brasil Livre, formado para pedir impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016. O coordenador nacional do grupo, Renan Santos, apontou para uma porta com a placa “Departamento do YouTube” e disse: “Esse é o coração de tudo".

Dentro, um homem tratava uma imagem de Benito Mussolini para um vídeo dizendo que o fascismo teria sido equivocadamente atribuído à direita. Mas até aqui há quem tema o impacto da plataforma na democracia. Santos descreveu as redes sociais como uma “arma", acrescentando que alguns dos seguidores de Bolsonaro “querem usar essa arma para pressionar as instituições de uma forma que não me parece responsável".

O cofundador do grupo, Pedro D’Eyrot, afirmou: “Temos aqui algo que chamamos de ditadura do like". De acordo com ele, a realidade é moldada pela mensagem mais viral. Enquanto conversávamos, um vídeo no YouTube cativava a nação. Intitulado 1964, ano do golpe militar no Brasil, o vídeo dizia que o golpe fora necessário para salvar o país do comunismo. Valeria disse que aquilo trazia de volta lembranças de toques de recolher, desaparecimentos forçados e violência policial. “Acho que esse capítulo não chegou ao fim", lamenta a professora. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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