Renaud Philippe para The New York Times
Renaud Philippe para The New York Times

YouTube enfrenta indústria da venda de falsas visualizações

A fraude vem afetando negativamente a credibilidade da plataforma

Michael H. Keller, The New York Times

18 Agosto 2018 | 10h15

Martin Vassilev ganha bastante dinheiro vendendo visualizações falsas de vídeos do YouTube. Trabalhando a partir de casa, em Ottawa, ele já vendeu cerca de 15 milhões de visualizações este ano e pode ganhar mais de US$ 200 mil de acordo com os registros.

Vassilev, 32 anos, não oferece as visualizações em si. O site dele, 500Views.com, conecta clientes interessados a serviços que oferecem visualizações, curtidas e descurtidas geradas por computadores, e não seres humanos. Quando um fornecedor não consegue atender determinado pedido, Vassilev entra em contato com outro.

"Posso oferecer um número ilimitado de visualizações de um vídeo", disse Vassilev. "Tentaram me impedir de fazer isso durante anos, mas eles não conseguem me deter. Sempre há uma maneira de burlar as regras".

Depois do Google, o site que recebe o maior número de pesquisas é o YouTube. Esta é a plataforma mais popular entre os adolescentes americanos, de acordo com estudo de 2018 realizado pelo Pew Research Center, superando Facebook e Instagram. Com bilhões de visualizações por dia, o site de vídeos é responsável por dar início a novas sensações culturais, impulsionar carreiras, vender marcas e promover pautas políticas.

Assim como outras empresas de redes sociais que foram afetadas por campanhas de influência artificial, o YouTube luta contra as visualizações falsas há anos. Elas podem minar a credibilidade da plataforma ao manipular a moeda digital indicadora de valor para os usuários, enganando consumidores e anunciantes. Valendo-se de entrevistas, registros e tentativas de compra de visualizações fraudulentas, o New York Times examinou o funcionamento desse mercado e testou a capacidade do YouTube de detectar manipulações.

A manipulação de visualizações viola os termos de serviço do YouTube. Mas uma busca no Google por serviços de venda de visualizações resulta em centenas de resultados. Esses sites, que oferecem visualizações por centavos cada, também aparecem nos resultados patrocinados das buscas do Google.

Para testar os sites, um repórter do Times encomendou milhares de visualizações de nove empresas. Quase todas as compras, feitas para vídeos sem qualquer relação com a organização jornalística, foram concluídas em cerca de duas semanas.

Uma das empresas era a Devumi.com. De acordo com registros da empresa, foi captado mais de US$ 1,2 milhão ao longo de três anos com a venda de 196 milhões de visualizações no YouTube. Uma análise desses registros, entre 2014 e 2017, mostra que a maioria dos pedidos foi concluída em poucas semanas.

Entre os clientes da Devumi havia um funcionário da RT, organização de mídia financiada pelo governo russo, e um funcionário da Al Jazeera English, outra empresa que recebe financiamento governamental. Entre os demais compradores estavam um cineasta que trabalha para o grupo conservador Americans for Prosperity, que defende pautas políticas, e o diretor de operações de vídeo do New York Post. 

Músicos compraram visualizações para parecerem mais populares: as visualizações no YouTube são contadas nas métricas da Nielsen, que acompanha as paradas de sucessos, e também nas da Billboard, com sua parada Hot 100. Empresas compraram visualizações para clientes prometendo uma divulgação nas redes sociais que resultaria em pessoas de verdade assistindo aos vídeos.

Judith Oppenheimer, 78 anos, pagou US$ 5 mil a uma empresa para que esta promovesse um livro que ela publicou independentemente na esperança de conseguir um acordo com alguma editora maior. O vídeo dela logo alcançou mais de 58 mil visualizações, proporcionadas pela Devumi.

"Não houve aumento nas vendas nem fui procurada por editora alguma", disse ela. "Agora tudo começa a fazer sentido. Eles conseguem somar essas visualizações em menos de um dia".

Os prestadores desses serviços dependem da eterna evolução das táticas de produção de visualizações, incluindo tráfego automático gerado por "bots" e a abertura de janelas em segundo plano nos computadores de usuários que nada suspeitam.

"Trata-se de um problema que estamos combatendo há muitos anos", disse Jennifer Flannery O'Connor, diretora de gestão de produto do YouTube. Os sistemas da empresa monitoram continuamente a atividade de um vídeo, e a equipe de combate a fraudes costuma comprar visualizações para compreender melhor como funcionam esses sites, disse ela.

Em certo momento, em 2013, o tráfego de bots se passando por pessoas de verdade no YouTube era comparável ao volume de visitantes humanos, de acordo com a empresa. Foram aplicadas correções que reduziram essa atividade. Mas, passados alguns anos, a batalha segue. O YouTube não revelou o número de visualizações falsas que são bloqueadas todos os dias, mas disse trabalhar para mantê-las numa proporção inferior a 1% do total. Ainda assim, com bilhões de visualizações por dia, dezenas de milhões de visualizações falsas podem ser aprovadas diariamente.

Dinheiro real, público falso

Vassilev precisou de aproximadamente 18 meses para mudar de vida, deixando para trás a dependência em relação aos serviços sociais, da época em que morava na casa do pai, até finalmente comprar uma BMW e uma casa própria. Já no final de 2014, o site dele estava na primeira página dos resultados de busca do Google para venda de visualizações do YouTube, atendendo de 150 a 200 pedidos por dia, gerando receita mensal superior a US$ 30 mil, segundo ele. 

O pedido  de 25 mil visualizações feito pela reportagem do Times neste site foi concluído no dia seguinte.

Uma porta-voz do Google, que pertence à mesma empresa que o YouTube, disse que sites de venda de visualizações aparecem entre os resultados de busca porque são relevantes, mas havia "margem para melhorias" em se tratando de alertar os usuários.

Vassilev disse que muitos pedidos são feitos por empresas de marketing e relações públicas. Atualmente, ele satisfaz a maioria dos pedidos usando o site SMMKings.com, um fornecedor atacadista administrado por Sean Tamir, 29 anos. Tamir cobra dele cerca de um dólar por mil visualizações, volume revendido por Vassilev por US$ 13,99, acrescentado ainda 100 curtidas gratuitas.

Várias vezes ao ano, o YouTube faz alterações para deter as visualizações falsas, disse Tamir. Os fornecedores dizem ser capazes de burlar as atualizações do sistema fazendo seu tráfego artificial parecer mais humano.

Um desses fornecedores, Carlton E. Bynum II, 24 , obteve receita de mais de US$ 191 mil este ano, mas gastou mais de US$ 109 mil em anúncios que apareciam no alto dos resultados de pesquisa do Google. O site dele, GetLikes.click, administrado a partir de sua casa em Houston, Texas, vende visualizações do YouTube, seguidores do Instagram e Twitter, curtidas do Facebook e reproduções do SoundCloud.

Antes de vender visualizações, Bynum as comprava para si mesmo. Depois de dar baixa nos fuzileiros navais americanos no ano passado, ele começou a publicar resenhas de produtos no YouTube, recebendo uma comissão quando os visitantes faziam compras a partir de links publicados por ele. As visualizações compradas por ele frequentemente faziam seus vídeos aparecerem antes da concorrência nos resultados de busca. O efeito era cumulativo: seus vídeos ganhavam destaque por meio dos resultados de busca, rendendo a ele mais dinheiro.

Bynum disse acreditar que havia pessoas de verdade assistindo a seus vídeos. "Mas vamos supor que haja uma pequena chance de eu estar enganado, e serem na verdade bots", disse. "Seus vídeos ainda são classificados".

Promessa de seguidores

Ao telefone, o vendedor disse que seria simples: Elizabeth Clayton, uma professora de inglês aposentada, pagaria à editora Hancock Press US$ 4.200 para a divulgação de seus livros independentes de poesia. A empresa disse que uma campanha de promoção online, incluindo 40 mil visualizações garantidas no YouTube, seria traduzida em vendas, de acordo com os e-mails trocados entre as partes. 

Elizabeth, 77 anos, já publicava os próprios livros há sete anos, mas nunca teve vendas expressivas, com renda de poucos dólares em direitos autorais. Ela contratou a Hancock para a promoção de dois de seus vídeos, ao custo de US$ 8.400.

"Me explicaram que, se alcançasse um determinado número de acessos, eu conseguiria um determinado número de vendas", disse ela. 

A Hancock pagou à Devumi US$ 270 por 55 mil visualizações de cada vídeo, mostram os registros. As visualizações chegariam à marca de aproximadamente 60 mil. Mas não houve alta nas vendas. "Eles não foram capazes de me dizer nada a respeito das pessoas que assistiam aos vídeos", contou Elizabeth.

Wayne Hancock, 92 anos, diretor-executivo da empresa com sede no Arkansas, disse acreditar que pessoas de verdade assistem aos vídeos. É assim que o marketing da Devumi vende as visualizações.

A Devumi não respondeu às muitas solicitações de entrevista para esta matéria. O site da empresa informa que ela foi fechada; ela também foi investigada em janeiro depois que o Times publicou uma matéria informado que ela vendia seguidores falsos do Twitter.

Muitos clientes da Devumi vinham da indústria musical. "O YouTube é um dos principais espaços de consumo de música e um importante indicador da popularidade e das tendências musicais", disse Silvio Pietroluongo, um dos vice-presidentes da Billboard.

Como artista estreante, Aleem Khalid contratou a empresa de promoção Crowd Surf em 2014. Ele disse que, sem seu consentimento, a empresa comprou 10 mil visualizações para cada um de seus vídeos.

"O grande atrativo dessas plataformas de redes sociais era o fato de serem autênticas no início", disse Khalid, 25 anos. "Mas, agora, tudo parece falso".

Identificando as falsificações

Mesmo analisando atentamente, o YouTube não consegue detectar todos os vídeos que apresentam visualizações falsas. Um relatório público do Google de 2017 a respeito das campanhas de desinformação durante a eleição de 2016 observou os canais da RT no YouTube, concluindo que "não havia provas de manipulação da plataforma nem de violações de nossas políticas". Mas o Times descobriu que um funcionário da RT comprou visualizações falsas para vídeos em 2016, que o YouTube admitiu não ter detectado.

"Me preocupa o fato de Twitter e Facebook terem aparentemente progredido nesse aspecto, enquanto o YouTube continua com problemas para identificar a atividade falsa e coordenada em sua plataforma", disse o senador Mark Warner, da Virgínia.

Os sites de venda de visualizações continuam anunciando seus serviços. Numa publicação do Creator Blog, do YouTube, alertando os usuários a respeito das visualizações falsas, vários comentários traziam anúncios com links para sites de venda de visualizações.

"A única maneira que o YouTube poderia encontrar para combater a prática seria eliminar completamente o contador de visualizações", disse Vassilev. "Mas isso seria contra o próprio princípio de funcionamento do YouTube". / Nicholas Confessore contribuiu com a reportagem.

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