Hunter McRae para The New York Times
Hunter McRae para The New York Times

Youtuber vira 'namorado virtual' para seguidores que querem dormir bem

Esses vídeos são uma moda ou fazem parte de uma tendência cultural crescente?

Kaitlyn Wylde, The New York Times

25 de outubro de 2019 | 06h00

Owen Dennis Riley, 17, nunca teve uma namorada. No entanto, ele é o namoradinho de pelo menos meio milhão de assinantes no YouTube. Ele a presenteia no Dia dos Namorados e oferece uma sopinha quando ela está doente. Faz serenatas. E, o que é mais importante, quer ajudá-la a ter uma boa noite de sono.“Querida, amorzinho, eu quero que você só inspire profundamente e agora expire profundamente,” sussurra em um vídeo.

O seu canal no YouTube, Dennis ASMR, é um gênero que vem crescendo como “encenação do papel do namorado ASMR”. (ASMR é uma sigla para Autonomous Sensory Meridian Response, que significa Resposta Sensorial Meridiana Autônoma. Esse termo é usado para descrever a sensação agradável causada por alguma experiência sensorial).

Nele combinam-se técnicas já conhecidas que podem levar as pessoas a experimentar “formigamento no cérebro” - o sinal da reação do meridiano sensorial autônomo - um comportamento amoroso frequentemente atribuído a um bom parceiro romântico. “Eu me baseei na minha mãe e na maneira como ela me fazia carinho”, disse Owen. “Ela me dava refrigerantes, biscoitos; mais tarde, eu me tornei um namorado para despertar sensações mais doces”.

Segundo um estudo de Craig Richard, especialista em ASMR e professor de psicologia da Shenandoah University em Virginia, as regiões do cérebro ativadas pela atenção pessoal implicadas em um vídeo ASMR são comparáveis às ativadas pelo carinho recebido na vida real, particularmente na estimulação emocional e na recompensa. “Uma pessoa finge proporcionar carinho como se fosse alguém que realmente se preocupa por nós”, explicou. Alguns, entretanto, não estão convencido dos benefícios destes vídeos.

“Este tipo de encenação é usado para criar a compreensão do que é normativo, e os adolescentes o procuram com uma finalidade genuína”, disse Caroline Fleck, psicóloga clínica e instrutora assistente da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford, California. “A encenação é usada como modelo  para os espectadores, e este é o problema”.

Ela se referia especificamente ao vídeo de Owen no “papel do Namorado Ciumento” (que induz ao sono), graças ao qual conseguiu quase dois milhões de visualizações. Para Fleck,o “Namorado Ciumento” não só desafia as normas sociais da ASMR, como também é problemático. Os comentários ao vídeo refletem os seus sentimentos.

“Uau... ele realmente conseguiu me deixar perturbada e, ao mesmo tempo, me fez sentir culpada. Eu não deveria sequer sentir este tipo de coisa. Não fiz nada”, escreveu uma espectadora. Outra escreveu: “Não consegui pegar no sono porque fiquei absolutamente absorvida pela encenação”.

Fleck disse que “a mensagem subliminar nestes vídeos é que o espectador precisa de alguém que lhe dê carinho para pegar no sono, e é justamente esta a noção contra a qual tentamos lutar na área da saúde mental. Acreditar nisto interfere com a capacidade do indivíduo de cuidar de si mesmo”.

Há também a questão de misturar o sono com um monitor. “Estudos mostram que a luz azul emitida por um monitor faz com que se reduza a produção de melatonina no cérebro”, disse Whitney Roban, especialista do sono em Nova York. “Por isso, se você assiste a um vídeo na cama, é como se o seu cérebro e corpo recebessem a ordem de permanecer  acordados”.

O caráter interativo destes vídeos, prosseguiu, também desafia os princípios básicos da higiene do sono. “A minha primeira linha de defesa contra a insônia”, ela disse, “não seria conseguir um namorado”. Ou um namorado virtual. Fleck advertiu que os vídeos não deveriam substituir as interações do mundo real. “Olhar uma pessoa nos olhos” pode criar apego a ela, “mesmo que haja um monitor entre vocês”, ela disse.

No final de “Namorado a visita à noite”, Owen olha diretamente para a câmera. Bate suavemente com a ponta dos dedos nas costas de um livro e pergunta: “Isto ajudou? Você se sente melhor? Vou mandar uma mensagem para você se ainda não conseguiu dormir, mas acho que se sentirá bem”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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