Charlotte Hadden para The New York Times
Charlotte Hadden para The New York Times

Youtuber crítico do governo da Arábia Saudita teme ameaças de morte

'Estamos tratando essencialmente com a máfia. Com a exceção de que esta gente tem passaporte diplomático e muita grana', diz Ghanem al-Masarir

David Segal, The New York Times

26 de janeiro de 2020 | 06h00

LONDRES - Ninguém mais do que Ghanem al-Masarir sente mais prazer em alfinetar a família real saudita. Em centenas de vídeos no YouTube - que já foram vistos mais de 300 milhões de vezes - al-Masarir, sentado atrás de uma mesa, em geral em sua casa, no norte de Londres, faz uma saudação jovial em árabe, depois parte para uma série de embaraçosas histórias sobre os sauditas. O tom é ferozmente satírico, o resultado um tanto exagerado.

Um dos seus alvos favoritos é Mohammed bin Salman, o príncipe saudita, que há muito tempo chama por um apelido, hoje amplamente usado pelos detratores, que se poderia traduzir como “o urso que se perdeu”. Embora possa parecer fraco a ouvidos ocidentais, chamar alguém de urso no Oriente Médio equivale a dizer que ele é gordo e feio, e “se perdeu”, neste contexto, significa que ele é corrupto, essencialmente um gângster.

Em outubro de 2018, conta al-Masarir, recebeu a visita da polícia britânica em sua casa para entregar-lhe uma advertência oficial a respeito de uma ameaça à sua vida. Os policiais deixaram com ele um “botão de pânico”, e saíram sem maiores explicações sobre o autor da ameaça.

Para al-Masarir, não é nenhum mistério. Anos atrás, ele foi alertado sem estardalhaço de um plano aparentemente saudita para sequestrá-lo, um aviso que vinha de uma fonte improvável: o agente da inteligência saudita posteriormente acusado de ordenar o assassinato de Jamal Khashoggi, o colunista do Washington Post, morto em 2018 no consulado saudita em Istambul.

O regime saudita passou anos tentando intimidar al-Masarir com ciberataques. “Estamos tratando essencialmente com a máfia”, afirmou. “Com a exceção de que esta gente tem passaporte diplomático e muita grana” – as autoridades sauditas não fizeram comentários.

Al-Masarir chegou à Grã-Bretanha há 16 anos, procurando um diploma e uma maneira de denunciar do exterior os seu país de origem. No fim, descobriu que seria ele mesmo o autor, e também o YouTube, plataforma online que favoreceria um fluxo constante de renda e um destaque que ele jamais imaginara.

Hoje, al-Masarir, um homem reservado de fala mansa, se encontra em uma espécie de purgatório. Faz vários meses desde que publicou novos vídeos do Ghanem show, enquanto antes gravava até quatro vezes por semana. As repetições agora proporcionam grande parte da sua renda (já ganhou US$ 6 mil por mês com o YouTube).

Em 2014, postou o seu primeiro vídeo para um canal que chamou originalmente GhanemTube. Tratava-se de um ataque violento ao rei Abdullah, agora falecido, por seus reiterados esforços para censurar a mídia social. “Nunca havia feito nada disso antes”, disse al-Masarir. “Só comecei”.

Os seus primeiros vídeos foram vistos por apenas alguns milhares de pessoas e receberam críticas arrasadoras na seção de comentários, supostamente, segundo ele, de autoria leais sauditas. Mas ele foi ganhando força, e a sua audiência se multiplicou.

O seu tema favorito é a família real, que critica por gastar de maneira extravagante e governar de maneira tirânica. “A coisa mais importante para MBS é tirar o dinheiro do povo e encher os próprios bolsos”, pontuou al-Masarir em um vídeo sobre Mohamed bin-Salman e seu projeto de construir um “cidade inteligente” nas proximidades do Mar Vermelho. “Sua Alteza compra tudo o que quer”.

Al-Masarir, que recebeu asilo na Grã-Bretanha, diz que perdeu o interesse em filmar os seus monólogos. “Vou voltar”, afirmou. “Não sei quando, mas em breve”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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