Jung Yeon-Je/Agence France-Presse - Getty Images
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Zona que separa as Coreias oferece a moradores isenção fiscal e até 5G

188 pessoas residem no Vilarejo da Liberdade Taesung, no único lugar habitado por civis sul-coreanos na Zona Desmilitarizada

Choe Sang-Hun, The New York Times

19 de dezembro de 2019 | 06h00

VILAREJO DA LIBERDADE TAESUNG, COREIA DO SUL - Faz décadas que um vilarejo de 188 habitantes desfruta de vantagens acessíveis a poucos na Coreia do Sul, com os homens isentos do serviço militar obrigatório e seus 46 lares recebendo isenções fiscais especiais. São as recompensas para quem mora naquele que já foi descrito como o lugar mais assustador do planeta.

O Vilarejo da Liberdade Taesung é o único lugar habitado por civis sul-coreanos na fortemente defendida Zona Desmilitarizada que separa as Coreias do Sul e do Norte. Recentemente, os aldeões receberam outra bonificação: a principal operadora de celular da Coreia do Sul, KT Corp., instalou ali uma rede de comunicações ultra-veloz, no padrão 5G, uma das primeiras do tipo na Coreia do Sul.

“Isso é mais útil que meus próprios filhos, que vivem todos lá fora", disse Go Geum-sik, 73 anos. “Lá fora” é como os aldeões se referem ao mundo além de suas limitadas fronteiras. Agora ela pode simplesmente apertar um botão para alertar o prefeito, bem como o centro comunitário, caso ela ou o marido sofram uma emergência médica. “Não adianta telefonar para o serviço de emergência", disse Go, “porque eles não podem vir até aqui".

Quando a Guerra da Coreia foi interrompida por um tenso cessar-fogo em 1953, a Zona Desmilitarizada (DMZ) foi criada para manter alguma distância entre os exércitos inimigos. A maioria dos moradores foi tirada da zona de transição, com largura de 4 quilômetros, que se tornou uma das fronteiras mais fortificadas do mundo, cheia de campos minados e isoladas com legiões de soldados de prontidão em ambos os lados.

Somente dois vilarejos foram mantidos naquela extensão: Taesung, na metade sul-coreana, e, do outro lado da fronteira, a norte-coreana Kijong. Nenhuma comunicação entre elas é permitida, impossibilitando que Park Pil-seon, 82 anos, morador de Taesung, descubra se o irmão está vivo em Kijong. 

Nas décadas seguintes à guerra, Taesung e Kijong se tornaram peões em uma guerra de propaganda entre as duas Coreias, com ambos os lados investindo no respectivo vilarejo-modelo para exaltar as virtudes de seus sistemas políticos. Hoje, Kijong está praticamente vazia, de acordo com soldados sul-coreanos.

A determinação da Coreia do Sul em manter Taesung habitada tem seus desafios; os moradores precisam abrir mão de certas liberdades com as quais os demais sul-coreanos contam. Sempre que vão aos arrozais perto da fronteira, seus movimentos são acompanhados por soldados sul-coreanos. Também convivem com um toque de recolher da meia-noite até o nascer do sol, e uma chamada todas as noites.

Quando recebem visitas de amigos que vivem fora da DMZ, devem solicitar autorização com duas semanas de antecedência. Todos os visitantes são escoltados por soldados. Em Taesung, não há ginásio esportivo, nem hospital, nem supermercado ou restaurante. Um ônibus faz o trajeto até o vilarejo quatro vezes ao dia. “A maior dor de cabeça é o transporte, especialmente para quem não dirige, como eu", disse Go.

O novo serviço 5G tem como objetivo aliviar parte do fardo. Antes, os agricultores tinham de pedir ao exército que os escoltasse quando fossem usar uma bomba d'água. Agora, isso pode ser feito usando um aplicativo em seus celulares. Com o mesmo aplicativo, podem controlar a irrigação nas plantações de feijão. Durante anos, as mulheres pediram aulas de ioga, mas nenhum professor podia ir até lá. Agora, as aulas são transmitidas via streaming no centro comunitário. Na única escola do vilarejo, os estudantes podem agora brincar com jogos interativos online.

Confortos desse tipo são importantes para a sobrevivência da escola. Como outros vilarejos da zona rural da Coreia do Sul, Taesung perdeu muitos casais jovens para as grandes cidades nas décadas mais recentes. Hoje, apenas sete dos 35 alunos são nativos de Taesung. O restante é trazido diariamente de ônibus vindo de Munsan, cidade mais próxima fora da DMZ.

Na escola, os estudantes recebem atenção personalizada, com um total de 21 professores e funcionários para cuidar dos 35 alunos. Essa e outras iniciativas da escola fazem dela popular entre os pais de Munsan. A diplomacia ajudou a aliviar a tensão na fronteira. Mas “não se deixe enganar pelas aparências", disse Chun In-bum, general da reserva do exército sul-coreano, destacando que soldados norte-coreanos acompanham cada passo dos visitantes de fora. “Não é um lugar qualquer. Ali, a paz só é garantida por soldados dedicados.”

Décadas atrás, moradores pisaram em minas terrestres remanescentes da guerra e foram até sequestrados por soldados norte-coreanos. Quando as tensões se elevaram, os habitantes foram tirados dos campos e levados a abrigos subterrâneos, disse o prefeito Kim Dong-gu, 50 anos.

Apesar do recente degelo, os moradores ainda realizam dois treinos de fuga por ano. “Mesmo com os líderes políticos falando em um relaxamento das tensões, nós ainda convivemos com elas, vivendo entre dois exércitos armados", disse Kim Yong-sung, 49 anos, que cultiva feijão na aldeia. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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