3.000 cristãos fogem de violência religiosa no Iraque

Na terceira maior cidade do país, número de cristãos mortos aumenta nas últimas semanas

AP

11 de outubro de 2008 | 17h32

Centenas de famílias cristãs aterrorizadas fugiram da cidade iraquiana de Mossul para escapar de ataques perpetrados por extremistas sunitas, que vêm se intensificando, a despeito de meses de operações de tropas americanas e do governo iraquiano na cidade do norte do país, disseram autoridades locais neste domingo. O governador da província de Níneve, Duraid Mohammed Kashmoula, disse que cerca de 3.000 cristaõs fugiram de Mossul só na última semana, e que a maioria buscou refúgio em igrejas, monastérios e nas casas de parentes de vilas cristãs próximas. "É óbvio que elementos da Al-Qaeda estão por trás dessa campanha contra os cristãos", disse Kashmoula em uma entrevista à Associated Press. Ele pediu ao governo uma nova ofensiva para expulsar a Al-Qaeda de sua província, como já foi feito em outras partes do país.  Enquanto a comunidade cristã na terceira maior cidade do Iraque vinha sendo atacada, religiosos e líderes políticos locais dizem que uma nova tendência está aumentando os assassinatos e deslocamentos forçados baseados apenas em religião. "Os cristãos já ficaram sujeitos a seqüestros e pagamentos de resgate, mas agora estão sujeitos a campanhas de assassinato", disse Kashmoula. A violência in Mossul ocorre apesar das operações dos Estados Unidos no Iraque terem focado em procurar pela Al-Qaeda e outros insurgentes de fortalezas restantes ao norte da capital. No sábado, 11, um comboio carregando um oficial do maior partido sunita do Iraque foi atacado durante uma viagem por Mossul, mas ninguém foi ferido, segundo a polícia. Um civil armado foi morto por uma bala perdida em um mercado da cidade, conforme informou um policial sob anonimato por não poder falar com a mídia. A polícia iraquiana na cidade localizada a 360 km de Bagdá informou que encontrou sete corpos de cristãos mortos a tiro em diferentes ataques neste mês. Porém, o reverendo Bolis Jacob afirmou que o número de mortos é ainda maior. Ele disse que não consegue compreender os ataques. "Nós respeitamos a religião islâmica e o clérigo muçulmano", ele disse. "Não sabemos sob que pretextos religiosos trabalham estes terroristas." Estima-se que a comunidade cristã iraquiana seja de 3% dos 26 milhões de pessoas que vivem na cidade, ou cerca de 800 mil cristãos, e tem uma presença significativa na província de Níneve, ao norte. Em Mossul, onde cristãos vivem há cerca de 1.800 anos, há várias igrejas de vários séculos que ainda estão de pé. Joseph Jacob, professor da universidade de Mossul, disse que havia cerca de 20 mil cristãos na cidade antes da invasão americana em 2003. Mas mais da metade deixou a cidade para ir para cidades vizinhas ou outros países. Extremistas islâmicos atacam freqüentemente os cristãos desde a invasão americana, forçando dezenas de milhares de pessoas a deixar o Iraque. Os ataques diminuíram em meio a uma queda drástica nos níveis de violência do país, mas a preocupação está aumentando com as mortes deste mês.  No começo da semana, o arcebispo Louis Sako disse estar preocupado com o que ele chamou de "campanha de assassinato e deportações conta cidadãos cristãos em Mossul". No sábado, Bashir Azoz, um carpinteiro de 45 anos, disse que ele foi forçado a deixar sua casa depois que um homem armado mandou a vizinhança deixar suas casas ou seriam mortos. "Onde esta o governo e as forças de segurança quando estes crimes aumentam a cada dia?" perguntou Azoz, que agora vive na cidade de Qarqouch, que possui maioria cristã, a 40 km a leste de Mossul. "Apenas trouxemos nossos documentos e algumas poucas coisas essenciais, como cobertores, roupas e louças", completou. A polícia diz que militantes também explodiram três casas abandonadas de cristãos em Mossul.Os líderes cristãos também estão lutando por voz política no Iraque. Eles esperam que o parlamento aprove um número mínimo de cadeiras para minorias como cristãos nas próximas eleições, temendo que eles possam se tornar marginalizados no país predominantemente muçulmano. Separadamente no sábado, um soldado americano morreu na explosão de uma bomba perto do seu veículo em Amarah, a 320 km a sudeste de Bagdá. O exército americano disse que está preservando o nome do soldado em sigilo até que se encontre um parente próximo.

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