Abbas descarta independência unilateral para os palestinos

Negociador palestino defende declaração de independência nos moldes da proclamada por Kosovo

Reuters e Associated Press,

20 de fevereiro de 2008 | 10h26

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, descartou nesta quarta-feira, 20, qualquer declaração unilateral de independência em curto prazo, contrariando a sugestão de um assessor para o caso de fracasso no precário processo de paz com Israel.   Depois de mais uma reunião infrutífera entre os líderes de Israel e da Autoridade Nacional Palestina (ANP), um destacado negociador palestino defendeu nesta quarta-feira uma declaração unilateral de independência, nos moldes da proclamada pelos líderes albaneses étnicos de Kosovo no domingo. Os palestinos dizem que no atual ritmo de negociações, será impossível concretizar a visão do presidente dos EUA, George W. Bush, de criação de um Estado palestino até o fim do ano.   Yasser Abed Rabbo, um destacado negociador palestino e assessor do presidente da ANP, Mahmoud Abbas, declarou durante entrevista concedida que os esforços de paz estão "indo a lugar nenhum" e frisou que "a primeira opção" dos palestinos ainda é buscar o sucesso das negociações. "Mas se isso não acontecer, temos uma outra opção", apontando para a declaração kosovar de independência da Sérvia. "O Kosovo não é melhor do que a Palestina. Eles (os kosovares) declararam independência unilateralmente. É a isso que os israelenses estão nos induzindo", afirmou ele.   "Se o mundo inteiro, os Estados Unidos, a União Européia (UE), a maioria de seus membros, reconheceram a independência de Kosovo, por que isso não poderia acontecer também com a Palestina?", disse o assessor.   Abbas se reuniu na véspera com o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, para tentar acelerar as negociações iniciadas em novembro numa conferência em Annapolis (EUA). "Vamos buscar as negociações a fim de alcançar um acordo de paz durante 2008 que inclua a resolução de todas as questões do status final, inclusive Jerusalém", disse Abbas em nota. "Mas, se não alcançarmos isso, e chegarmos a um impasse, vamos voltar para a nossa nação árabe para tomar a decisão necessária no mais alto nível", disse ele, sem mencionar as opções possíveis. Ahmed Qureia, negociador-chefe da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), rechaçou a idéia de declaração unilateral de independência e negou que os dirigentes palestinos tenham debatido o assunto.   Arye Mekel, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, rejeitou com cautela a idéia. "Nós acreditamos que essas questões devam ser resolvidas por meio de um acordo, e não por intermédio de decisões unilaterais", alegou. "É por isso que estamos negociando agora e tentando chegar a um acordo."   O grupo islâmico Hamas, que controla a Faixa de Gaza, também rejeitou a proposta de Abed Rabbo. "Nosso povo palestino não precisa de mais experiências fracassadas de gente fracassada", disse o porta-voz Sami Abu Zuhri.   Os palestinos já declararam independência antes, em 1988, mas a comunidade internacional não reconheceu a declaração. Na ocasião, não havia nenhum território sob controle dos palestinos. O grupo pretende fundar um Estado independente na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e em Jerusalém Oriental, áreas capturadas por Israel durante a Guerra dos Seis Dias, travada em 1967.   Reunião sem avanços   A polêmica em torno de uma eventual declaração unilateral de independência pelos palestinos vem à tona apenas uma dia depois de mais uma reunião entre Abbas e o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, ter terminado sem avanços. Funcionários israelenses e palestinos que costumam passar informações para a imprensa divulgaram poucos detalhes sobre a situação atual dos contatos bilaterais.   Fontes palestinas disseram que os Estados Unidos pediram às partes que vazem menos informações para os jornalistas, pois temem que isso prejudique o progresso das negociações. A meta estipulada em novembro passado para a obtenção de um acordo é o fim deste ano.   A negociação é complicada pela decisão israelense de construir mais casas em territórios ocupados e pela insistência de Olmert em adiar a resolução da questão de Jerusalém, reivindicada como capital por ambas as partes. Numa notícia que deve irritar ainda mais os palestinos, o grupo pacifista israelense Peace Now disse na quarta-feira que ativistas de direita instalaram cerca de 27 trailers na Cisjordânia, apesar de Olmert já ter prometido que os assentamentos não seriam ampliados. De acordo com o Peace Now, os trailers perto do assentamento de Eli, ao norte da cidade de Ramallah, são uma forma de driblar a proibição de construir nas colônias judaicas. "Olmert falou de um congelamento dos assentamentos em Annapolis, mas é tudo blá-blá-blá, porque nós vemos a construção em toda a Cisjordânia", disse Hagit Ofran, diretor de monitoramento do Peace Now. Olmert e Abbas haviam concordado seguir o "mapa da paz" proposto em 2003 pelos EUA, que exige que Israel paralise a expansão dos assentamentos e que os palestinos controlem seus militantes. Ambos os lados se acusam mutuamente de desrespeitar as promessas.

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