Abbas queria Hamas derrubado na guerra de Gaza, diz chanceler de Israel

Presidente da ANP só acusou Estado judeu de crimes de guerra depois da ofensiva de 2009

Reuters

29 de março de 2010 | 13h20

JERUSALÉM - O presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, exortou Israel a derrubar o Hamas na guerra de Gaza no início do ano passado e só depois passou acusar Israel de crimes de guerra, disse nesta segunda-feira, 29, o ministro israelense de Relações Exteriores, Avigdor Lieberman.

Lieberman disse que o fato suscita dúvidas quanto à possibilidade de Abbas ser um líder adequado com quem Israel possa negociar uma paz. "No último ano, testemunhei Abbas em seu melhor momento. Na Operação Chumbo Fundido, ele nos telefonou pessoalmente, aplicou pressão e exigiu que derrubássemos o Hamas e o afastássemos do poder", disse o chanceler ao jornal israelense Maariv.

Lieberman questionou o nível de confiança que pode ser depositado em Abbas. "Um mês depois do término da operação, ele registrou uma queixa contra nós na Corte Internacional de Justiça, em Haia, por crimes de guerra. Isso é um parceiro?", indagou o chanceler.

 

'Não é verdade'

Um assessor de Abbas rejeitou veementemente a alegação, acusando o governo israelense de tentar agravar o impasse em torno dos esforços liderados pelos EUA para reativar as negociações.

"Isso não é verdade. É uma continuação da campanha (israelense) de difamação, visando criar um ambiente que destrua qualquer chance de se resgatar o processo de paz", disse o assessor de Abbas, Nabil Abu Rdainah.

Em 27 de dezembro de 2008, Israel lançou sua ofensiva de três semanas contra a Faixa de Gaza, com o objetivo declarado de pôr fim ao lançamentos de foguetes por parte do Hamas e outras facções palestinas. Desde então, esses ataques diminuíram muito, embora tenham ocorrido casos esporádicos de violência atravessando a fronteira. 

A morte de 1.400 palestinos na guerra, em sua maioria não combatentes, atraíram críticas contundentes de outros países e paralisaram as negociações entre Abbas e o então primeiro-ministro israelense Ehud Olmert, um político centrista. Israel perdeu apenas 10 soldados e três civis na operação.

 

Suspeitas confirmadas

Avigdor Lieberman não fazia parte do governo na época da guerra de Gaza. Um porta-voz se negou a dizer em que o chanceler baseou suas alegações. Mas um alto funcionário israelense que trabalhava para Olmert na época disse que as declarações de Lieberman são "essencialmente corretas".

O movimento islâmico Hamas, que já acusou seu rival Abbas de incentivar Israel a lançar a guerra, enxergou a declaração de Lieberman como confirmação de suas suspeitas com relação ao presidente palestino. "A declaração grave reafirma o fato de que Mahmoud Abbas não está mais em condições de representar nosso povo, tendo conspirado contra seu povo em uma guerra", disse um porta-voz do Hamas, Sami Abu Zuhri.

O Hamas trava uma luta pelo poder com a facção secular Fatah, de Abbas, antes dominante, desde que venceu uma eleição palestina em 2006. O grupo rejeita Abbas por este ter reconhecido o Estado judaico e declarado sua disposição em renunciar à luta armada.

Abbas participou da condenação à ofensiva lançada pelo governo Olmert contra a Faixa de Gaza. Mas revoltou muitos palestinos quando, em um primeiro momento, hesitou em apoiar um relatório da ONU sobre crimes de guerra, lançado em setembro, centrado em uma investigação sobre a conduta israelense na guerra.

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