AIEA não consegue detectar atividades secretas, diz ElBaradei

O chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) disse nesta terça-feira que o fracasso do órgão em detectar um programa de armas nucleares no Iraque de Saddam Hussein nos anos 80 mostrava que seus inspetores careciam dos poderes necessários para barrar a proliferação desse tipo de arma. A declaração de Mohamed ElBaradei é reveladora em vista de as investigações realizadas pela AIEA no Irã estarem paralisadas porque os iranianos não conseguiram explicar as alegações sobre a pesquisa com esse tipo de armamento e por causa da recusa iranina em permitir aos investigadores acesso a locais das Forças Armadas. O diretor da AIEA, um órgão da Organização das Nações Unidas, disse que o cerne do problema é que alguns países investigados, o mais recente a Síria, não haviam ratificado um protocolo da agência permitindo a seus investigadores realizar visitas surpresa a locais não declarados como nucleares. "Nossa autoridade legal é muito limitada. Com o Iraque, descobrimos que, se não tivermos o Protocolo Adicional em vigor, não seremos capazes de identificar atividades não declaradas", disse ElBaradei durante a Conferência Geral da entidade, em Viena. "Nossa experiência nos mostra que um proliferador de armas não desvirtuará as atividades declaradas (o que os denunciaria como violadores do Tratado de Não-Proliferação Nuclear), mas optará por atividades totalmente clandestinas", disse. Nas décadas de 70 e 80, o Iraque, então controlado pelo ditador Saddam Hussein, desenvolveu um programa secreto de armas nucleares sem que a AIEA detectasse nada. O programa só veio à tona com a derrota iraquiana na Guerra do Golfo (1991). A AIEA passou o ano seguinte desmantelando-o. Segundo diplomatas, o fundamental para resolver o atual impasse com o Irã e a Síria é que os investigadores da AIEA tenham acesso aos locais não declarados como nucleares. Ambos os países, no entanto, descartaram essa hipótese, afirmando que isso envolveria locais militares convencionais, algo que não diz respeito à agência. Os iranianos e sírios negam manter qualquer programa secreto de armas ou esconder qualquer atividade nuclear ilícita da AIEA. ElBaradei pediu da Síria maior transparência e acesso a instalações. O governo sírio tampouco ratificou o Protocolo Adicional. Na abertura do encontro da AIEA, na segunda-feira, ElBaradei disse que a agência carecia de fundos, equipamentos de última geração e autoridade jurídica para obter cooperação total dos países investigados. Segundo o chefe da agência, o fato de cerca de cem países, entre os quais os EUA, não terem ratificado o protocolo de dez anos atrás é "algo assustador" que mina os poderes da agência. A AIEA investiga a Síria desde maio, quando os EUA disseram que o país árabe havia chegado perto de construir um reator nuclear secreto capaz de produzir plutônio. A instalação acabou sendo destruída em um ataque realizado por Israel. Os EUA e seus aliados do Ocidente criticaram o Irã e a Síria, acusando-os de minar as investigações da AIEA e exigindo cooperação da parte deles.

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