ANÁLISE-Irã motiva 'guerra fria' no Oriente Médio

As preocupações quanto a um ataque israelense contra o Irã podem ou não ser exageradas, mas em todo o Oriente Médio uma "guerra fria" oculta entre Teerã e seus inimigos está ganhando força rapidamente, o que causa um maior risco de confronto.

PETER A, REUTERS

05 de dezembro de 2011 | 17h24

Os EUA e seus aliados acusam o Irã de desenvolver armas nucleares, algo que Teerã nega, insistindo no caráter pacífico do seu programa atômico.

A imprensa israelense e os mercados de petróleo especulam sem parar nas últimas semanas sobre um iminente bombardeio de Israel às instalações nucleares do Irã, e sobre o temor de que Teerã revide com devastadores ataques contra remessas petrolíferas no golfo Pérsico.

Mas esse debate, segundo especialistas, ignora aspectos importantes. O crescente isolamento do Irã causa alarme não só a Israel e ao Ocidente, mas também a países vizinhos, especialmente a tradicional rival Arábia Saudita. Esses países estão reagindo de uma forma que vai bem além do mero endurecimento das sanções.

O conflito é cada vez mais visível em fatos como as guerras "por procuração" no Iraque e na Síria, ataques a redes digitais, misteriosas explosões no Irã e suspeitas de um complô terrorista em Washington.

A invasão por manifestantes da embaixada britânica em Teerã, na semana passada - e a retaliação do Reino Unido, que expulsou os diplomatas iranianos -, mostra que o diálogo, que já era limitado, está cada vez mais distante. E isso, segundo analistas, é inerentemente perigoso.

"Com o Irã, você tem um governo que está cada vez mais isolado e agindo de forma cada vez mais imprevisível", diz Jon Alterman, diretor do programa de Oriente Médio do Centro para Estudos Estratégicos e Nacionais, em Washington.

"Certamente existe o risco de que um país tome a decisão deliberada de atacar o Irã. Mas há também o risco de que aconteça algo que provoque (...) uma guerra que ninguém planejou e ninguém quer."

Tal conflito poderia fazer o preço do petróleo disparar, com consequências desastrosas para a economia mundial.

É claro que o confronto está longe de ser novidade. Teerã tradicionalmente usa grupos militantes, como o libanês Hezbollah e o palestino Hamas, para moldar a política regional e atacar seus inimigos, especialmente Israel.

Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha por muito tempo acusaram Teerã de usar milícias xiitas no Iraque para matar soldados ocidentais e promover os interesses iranianos.

Países de governos sunitas no golfo Pérsico, especialmente a Arábia Saudita e o Barein, dizem que o Irã incita as comunidades xiitas nesses países, embora muitos analistas ocidentais acreditem que seria exagerado ou pelo menos simplista culpar o Irã por distúrbios ocorridos neste ano.

Muitos desses confrontos na região parecem estar numa rápida escalada, ameaçando escapar ao controle dos EUA e seus aliados.

"O poder dos EUA e ocidental nessa região está se enfraquecendo, e isso está deixando um vácuo - mais notavelmente no Irã -, e pode-se ver os principais interessados na região reagindo à disposição iraniana de preencher esse vácuo", diz Reva Bhalla, analista-chefe da consultoria norte-americana de inteligência Stratfor.

(Reportagem adicional de Dan Williams em Jerusalém)

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