Annan diz que Irã precisa se envolver em conversações com Síria

O enviado de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) Kofi Annan insistiu na terça-feira que o Irã deve ser envolvido nos esforços para encontrar uma solução política para a crise na Síria, apesar da firme rejeição do Ocidente em conceder um papel ao governo iraniano.

DOUGLAS HAMILTON, Reuters

10 de julho de 2012 | 16h36

Os Estados Unidos e seus aliados da Otan e do Golfo Pérsico se opõem ao envolvimento da República Islâmica, que apoia fortemente o presidente sírio, Bashar al-Assad, e é considerada seu principal adversário no Oriente Médio.

"O Irã tem um papel a desempenhar. E a minha presença aqui explica que eu acredito nisso", afirmou Annan após conversações em Teerã com o ministro das Relações Exteriores Ali Akbar Salehi.

"Recebi encorajamento e cooperação do ministro e do governo (iraniano)", disse Annan.

O ex-secretário-geral da ONU afirmou que o Irã deixou claro que, se a crise "perder o controle e se disseminar pela região, ela pode levar a consequências que ninguém de nós imagina".

A Rússia, que ao lado da China se opõe a qualquer movimento externo para desequilibrar a balança contra Assad, afirmou que o Irã deve ser envolvido. Na terça-feira, Moscou sugeriu organizar encontros regulares de um "grupo de ação" que incluiria a oposição síria.

Depois de conversações em Damasco na segunda-feira, Annan disse que Assad sugeriu encerrar o conflito na Síria com base em um passo-a-passo, começando nos distritos que sofreram a pior violência.

Annan tem tido dificuldade para reviver seu plano para colocar fim a um levante que já dura 16 meses na Síria, no qual os rebeldes lutam para derrubar Assad, que governa de forma autoritária.

Um grupo ativista que acompanha a violência afirmou que mais de 17 mil pessoas foram mortas, incluindo 4.380 soldados e policiais. Ao menos 100 foram mortos na segunda-feira, no que se tornou um dia "médio" de um derramamento de sangue horroroso.

Depois de conversar em Teerã, Annan reuniu-se com o primeiro-ministro iraquiano, Nuri al-Maliki, em Bagdá. Tanto Assad como Maliki têm estreitas relações com o Irã, uma potência muçulmana xiita que rivaliza com os países sunitas do Golfo Pérsico para obter mais influência regional.

Annan disse que a primeira tentativa de promover uma trégua em 12 de abril fracassou. Ele salientou o risco de o conflito "contaminar" os Estados vizinhos e observou que o mandato dos monitores da ONU na Síria termina em 21 de julho.

Annan afirmou que Assad propôs "construir uma abordagem a partir do terreno em alguns distritos onde temos uma violência extrema para tentar e conter a violência nesses distritos e, passo a passo, construir e pôr fim à violência em todo o país".

Ele disse que precisa debater a proposta com a oposição síria e não podia dar mais detalhes. Não estava claro quando ele pretendia fazer isso.

Os líderes da oposição afirmam que não é possível haver uma transição pacífica, a menos que Assad, que reprimiu os protestos populares desde quando eles começaram, deixe o poder primeiro. Assad, cuja família governa a Síria há 42 anos, descartou a possibilidade de deixar o governo dessa forma.

Espera-se que Annan fale ao Conselho de Segurança da ONU em Nova York na quarta-feira.

(Reportagem adicional de Nazih Sadiq, no Líbano; de Erika Solomon, Samia Nakhoul e Mariam Karouny em Beirute; de Sylvia Westall em Bagdá; de Tom Miles em Genebra e de Terrill Jones em Pequim)

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