Aos 60 anos, Israel define próprio papel e de judeus no mundo

No aniversário da fundação, a nação planeja conferência para discutir desafios da humanidade e judaicos

Ethan Bronner, The New York Times

08 de maio de 2008 | 11h54

O povo judeu marcará o aniversário de 60 anos de seu renascimento nacional, a fundação de Israel, nesta quinta-feira, 8, com as habituais apresentações da Força Aérea, bandeirinhas e programas de televisão recordando sobre os pioneiros do país. Porém, existem outras celebrações planejadas, e seus patrocinadores acreditam que ela diz algo sobre o caráter nacional: uma conferência de três dias com algumas das melhores mentes do mundo sobre alguns dos maiores desafios que a humanidade - e especialmente os judeus - enfrentará nas próximas décadas.   Veja também:   Israel inicia comemorações dos 60 anos   Para especialista, país não vence novos inimigos   Para escritor, Israel é 'anormal e sem limites'   Assista ao vídeo    BLOG: Israel, 60. E ainda sexy...'    "O cérebro enriquece o bolso, não o oposto", disse em entrevista o presidente israelense, Shimon Peres, também patrono da conferência. "Nós somos uma terra pequena, mas podemos nos tornar um laboratório mundial ousado, e esse é o nosso desejo e plano".   Cerca de 700 convidados são esperados para participar nos 35 grupos de discussão. Entre eles estão estadistas como Henry A. Kissinger, Vaclav Havel, Tony Blair e Joschka Fischer, e também Sergey Brin, da Google, Terry Semel, do Yahoo, e Rupert Murdoch, além de outros sete judeus ganhadores do prêmio Nobel e o presidente Bush.   Pela lista de convidados, os tópicos discutidos serão naturalmente grandes e ambiciosos, incluindo o deslocamento do poder global do Ocidente para o Oriente (e sul), a proliferação nuclear e as mudanças climáticas. Porém, a maior parte do foco será dado também aos assuntos mais próximos de casa, como o extremismo islâmico, o crescimento do Irã e a soberania de Jerusalém.   Na verdade, alguns temas são considerados desafios globais - terrorismo, Irã - e parecem, de alguma forma, serem mais especificamente judeus ou israelenses. Os organizadores afirmam que isto não é uma coincidência ou incomum, e apontam como exemplo o ditador alemão Adolph Hitler, que foi uma enorme ameaça ao mundo, porém focado particularmente nos judeus. "As calamidades sempre parecem afetar primeiro os Judeus", comentou Stuart E. Eizenstat, um alto oficial dos governos Clinton e Carter e que escreveu um ensaio que embasa a conferência. "Volte até a Peste Negra. Não era uma questão judaica, mas teve um impacto particular nos judeus porque eles foram culpados por ela."   Haverá várias autoridades da Europa Central e da África, incluindo os presidentes da Geórgia, Polônia e Burkina Fasso. Representantes árabes não estarão presentes na conferência. Lideranças e pensadores do Egito, Jordânia e das áreas palestinas foram convidados, mas nenhum confirmou, aparentemente porque simultaneamente o mundo árabe marcará o 60.º aniversário conhecida como "Dia da Nakba", quando realizarão suas próprias conferências e manifestações. Os organizadores em Jerusalém ainda esperam que alguns líderes árabes compareçam.   Peres afirmou que, para ele, a idéia era reunir pensadores judeus e não judeus, talvez numa idéia de "tornar os judeus mais cosmopolitas e o mundo mais judeu". Ele deu como exemplo as abordagens inovadoras na irrigação e sua forte presença na produção de equipamentos médicos no mundo. "Na China, eles podem não saber quem foi Moisés, mas conhecem nossos sistema de irrigação por gotejamento", disse.   Relacionar Israel e China na mesma frase, o que deve ocorrer muitas vezes na conferência, levanta algumas questões complexas e oferece alguns contrastes incríveis. De acordo com o documento de Eizenstat, Israel tem a média de engenheiros maior do que qualquer país do mundo - 135 por 100 mil habitantes (existem 85 por 100 mil nos Estados Unidos). Ainda assim, o número total de engenheiros israelenses - quase 100 mil - é pequeno, comparado ao número formado pela da China a cada ano, cerca de 600 mil.   O trabalho de apoio para a conferência foi realizado por um instituto relativamente novo, conhecido como Instituto de Planejamento de Políticas do Povo Judeu, criação de Avinoam Bar-Yosef, um ex-jornalista israelense, e cujo presidente é Dennis Ross, ex-negociador chefe para a paz no Oriente Médio dos Estados Unidos. A instituição busca incorporar planos estratégicos na vida judaica no país e no exterior e garantir que Israel e o mundo judeu entenda seus interesses comuns.   Um desenvolvimento significativo nos últimos anos e que será discutido será a mudança do relacionamento entre Israel e a diáspora judaica. Por décadas, Israel foi a criança carente que dependia de contribuições e apoio do exterior para sobreviver. Hoje, a população judaica de Israel é de maior do mundo, com 5,5 milhões, à frente da dos EUA, que diminui lentamente por conta das baixas taxas de natalidade e dos casamentos mistos. Israel se tornou o centro da vida judaica e é cada vez mais requisitado como o irmão mais velho de outras comunidades.   Isto impõe certas responsabilidades a Israel como centro da cultura, literatura e pensamento religioso judaicos", Eizenstat afirmou. "Porque Israel se concentra mais em sua segurança, o país não foi forte o suficiente para fortalecer a diáspora. Estas ações também vão contra p sionismo, que previa a mudança de todos os judeus para Israel. Porém, isso não vai acontecer, e o país está começando a entender que uma diáspora judaica fraca representa um Israel fraco."   O ex-jornalista afirmou que, para ele, o ponto principal do encontro é nutrir as esperanças de mudança em Israel, "para ter a disposição de reparar o que é necessário, assim como tomar fôlego e reconhecer tudo o que foi conquistado em 60 anos".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.